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Paraíso Vermelho (Primeira versão)

  A pequena Lilian caminhava sob aquele escaldante sol de meio-dia, voltava da escola quando se deparou com algo que a encheu de excitação.
  Como toda criança Lilian tinha uma coleção, e como toda criança para ela sua coleção era a melhor de todas.
  O que a enchera de excitação era um gato.
  Um gato morto.
  Estava ali, estirado naquele asfalto, devia ter sido atropelado, pensou ela, pois estava com a barriga aberta e a cabeça presa por apenas um fio de pele.
  Os negros olhinhos de Lilian brilhavam de extâse.
  Retirou a mochila das costas  e cuidadosamente  recolheu o gato do asfalto quente e o ajeitou entre seus livros e cadernos, fechou o ziper e seguiu para casa sentindo-se a criança mais feliz daquele lugar.



  Muriel preparava o almoço, desanimada e melancólica, nem sequer levantou os olhos quando a pequena Lilian entrou voltando da escola e subiu as escadas para o seu quartinho .
  Era assim que vivia Muriel desde o tragico assasinato do marido e o desaparecimento do pequeno Milo.



  Lilian abriu a porta mal contendo a euforia, trancou o quarto e cuidadosamente sobre a cama retirou o gato da mochila, era tão lindo olhar para ele.
  Caminhou até o closet e abriu a porta, o doce perfume putrefato invadiu suas narinas, ali erguia-se um pequeno monte onde devia haver uns cinquenta cadaveres de gatos, todos recolhidos da rua, exceto um, algumas formigas saiam debaixo dos corpos, vermes caminhavam sobre aquela montanha em decomposição, cautelosamente Lilian colocou o novo amigo sobre os outros e sentou-se no chão para admira-los.



  Tudo começou com a morte do pai, ela estava junto.
  Caminhavam lentamente para casa, o pai bêbado, parara no bar para tomar apenas uma dose, três horas depois ainda estavam lá quando o dono os expulsou. Em uma esquina surgiram dois rapazes da escuridão, pediram o dinheiro, como estava mais atrás Lilian se escondeu entre algumas latas de lixo, enquanto via o pai ser surrado e logo depois esfaqueado, ela chegou perto dele e sentou-se ao seu lado.
  Quanto tempo ficara ali?
  Não saberia responder. Ficara em estado de choque. Após estas cenas que ficaram guardadas lá no fundo de sua mente ela desnvolveu uma certa afeição por cadaveres. Resolveu fazer com um gato que ganhara da avó o mesmo que havia sido feito com o seu pai, e assim iniciou sua valiosa coleção.



  -Lilian- ela despertou de seu transe com a aguda voz da mãe.
  -Lilian?- chamou novamente.
  -Estou bem mamãe!- disse a menina
  -Tome um banho e venha até aqui embaixo, sua tia Marta virá almoçar conosco.



  Meia hora depois Lilian escontrava-se no sofá da sala em um lindo vestido rosa, só pensava em sua coleção, sua vontade era mergulhar dentro daquele morrinho e esquecer do mundo.




  Tia Marta chegara.
  Ao entrar correu em direção a Lilian e a abraçou forte, beijou-a e apertou sua bochechas que ficaram rosadas no mesmo instante .
  Lilian sequer sorriu.
  Marta vira sua expressão e dera apenas um sorriso amarelo. Virou-se para Muriel e abraçou a irmã.



  Muriel serviu o prato da filha e o pôs a sua frente.
  -Vou para o meu quarto mamãe.- pegou o prato e subiu as escadas.
  -A Lilian está tão diferente!- disse Marta.
  Muriel a olhou nos olhos.
  -Começou depois da morte do Luís, ele viu ele ser morto.
  Marta levou as mãos a boca
  -Mas eu não sabia disso, porque não a levou a um psicologo.
  Muriel forçou um sorriso
  -Acho que antes preciso achar um para mim.
  -Oh minha irmã, você passou por uma grande provação, não tiveram noticias de Milo.
  -Não!- disse Muriel largando os talheres, seus olhos ficaram vermelhos e ela desatou a chorar, Marta levantou-se e a puxou contra seu ventre alisando os finos cabelos da irmã.
  -Acalme-se minha irmã, cuidado com o seu coração.
  -SE ACALMAR- gritou Muriel -PARA VOCÊ É FACIL DIZER, NUNCA AMOU UM HOMEM, NUNCA TEVE FILHOS!-  Marta afastou-se assustada -QUE DROGA DE VIDA É ESSA?- continuou a gritar enquanto atirava as travessas de comida para todas as direçôes.
  -Muriel?- disse Marta assustada -Pare com isso!- Muriel largou-se em uma cadeira  com os olhos fixos no chão.
  -Você disse sobre amar um homem?- disse Marta -Está se referindo ao Luís?
  -Porque pergunta isso?- indagou muriel com a voz calma.
  -Porque ele te batia, é por isso, como pode amar alguem que a espancava?
  -Ele não me batia, foi só  quando começou a beber.
  -Muriel, me diz por quantos anos ele foi um alcolatra, me diz?- protestou Marta alterando a voz.
  -Cinco anos.
  -Cinco anos?- disse marta quase gritando -Cinco anos sendo surrada, maltratada, como pode me dizer que ainda podia haver amor?
  -Ele me deu tudo na vida, ele me ensinou a viver, tudo estava indo bem já ia fazer duas semanas que ele não colocava um gole de alcool na boca e teve aquela recaída e aquilo aconteceu...- mais lágrimas desceram, Marta ajoelhou-se em frente a irmã.
  -Muriel não vim aqui para brigar com você, não quero isso, quero ajuda-la.
  -Me desculpe!- disse Muriel em tom choroso.
  -Não precisa dizer nada, vem vamos limpar essa bagunça!



  As duas terminaram a limpeza, a cozinha voltara ao normal e Muriel parecia melhor, caminharam até a sala e sentaram-se no sofá.
  -Muriel, desde que cheguei estou sentindo um cheiro ruim, sutil mas agora está mais forte.- ela respirou fundo -È cheiro de carniça.
  Muriel puxou o ar pelas narinas.
  -Não sinto nada.
  -Tem certeza?
  Muriel puxou novamente o ar e nada sentiu
  -Não ainda não sint...espera!
  -O que foi?
  -Há um tempo atrás eu estava sentindo um cheiro de coisa podre, achei que tinha sumido, será que foi eu que me acostumei com o cheiro?
  Marta se levantou, puxou novamente o ar.
  -Muriel, parece vir lá de cima.
  -Será?
  As duas subiram as escadas, Marta parou em frente ao quarto de Lilian.
  -Nossa Muriel como você pode não estar sentindo isso?
  Muriel foi até a porta do quarto de sua filha.
  -Lilian?- chamou ela. esperou mas não houve resposta-Lilian?- levou a mão a fechadura e abriu a porta, não estava trancada, ao abri-la sentiu o forte cheiro -Meu Deus, estou sentindo é horrivél.
  Lilian não estava no quarto, seu prato de comida estava cheio, estava no chão de frente para o closet que tinha suas portas abertas, Muriele Marta caminharam lentamenmte  até o closet, Muriel não acreditava no que via, eram vários cadaveres de gatos empilhados, podres e carnicentos, debaixo da pilha podia ver uma perna humana que saia de lá, quando chegou perto para puxar aquela perna  a cabeça de sua filha apareceu no topo do morro de cadaveres, Muriel caiu sentada  devido ao susto, sentiu uma forte dor no braço esquerdo.
  -Filha?- disse ela
  -Vem mãmãe, vem se juntar comigo e com o Milo.
  Era a perna de Milo. A dor em seu braço ficou mais forte e ela viu tudo escurecer, ao ver que a irmã estava tendo um ataque Marta correu para chamar uma ambulância, quando chegou aos degraus escorregou e rolou escada abaixo.



  Lilian ficou ali em meio aos cadaveres observando o corpo sem vida da mãe, com muito cuidado ela saiu de dentro daquela pilha de cadaveres e foi buscar a tia que estava no pé da escada, o pescoço e as pernas estavam totalmente ao contrário, com muita dificuldade Lilian conseguiu puxa-lá até o seu closet, puxou o corpo da mãe e o colocou junto ao da tia, voltou até a cozinha e buscou uma faca, abriu o pescoço das duas e com ao sangue pintou as brancas paredes de seu closet, depois cortou os próprios pulsos e entrou novamente na pilha de cadaveres, olhou tudo a sua volta.
  Vermelho, que linda cor...
Raphael Vigonsa
Enviado por Raphael Vigonsa em 14/11/2006
Reeditado em 21/07/2012
Código do texto: T291366
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Raphael Vigonsa
Cuiabá - Mato Grosso - Brasil, 31 anos
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Raphael Vigonsa