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Pesadelo

Entre seus afazeres, estava o de olhar a caixa do correio. As rotineiras cartas de cobrança a deixavam frequentemente com depressão passageira. Sempre sobrava uma ponta de esperança ao se dirigir àquela caixa. Às vezes só ela prometia algo diferente dentro de sua rotina doméstica.
- Oba! Tem uma aqui que não é comum. De  quem veio? ...E é para mim mesmo!
Cobrança não era. Não tinha o “perfil” de cartório, banco, financeira ou loja. Muito menos parecia ser de luz, telefone, TV a cabo, internet, água ou Detran. De amigos não poderia: não conhecia o remetente. Parecia ser de uma espécie de spa.
- Já sei. Deve ser daquelas “ofertas” que dizem que somos “sorteados” para alguma coisa porque somos especiais. Pensava.
“-Senhora Nicole, temos a honra de convidá-la para passar um dia em nossa fazenda. Além da senhora, estão sendo convidadas outras pessoas, algumas com a família. Em nossa propriedade a senhora terá oportunidade de conhecer novas pessoas, novas emoções e desfrutar de nossa hospitalidade e, caso venha a gostar, poderá futuramente retornar por módicas taxas de manutenção”.
A carta prosseguia prometendo boas acomodações, refeição de boa qualidade, etc.
-Por que não aceitar? Afinal, seria uma forma de fazer amizades, mudar a paisagem e, ademais, ninguém dependia dela tanto assim! A única coisa que teria que fazer era uma ligação de confirmação para o número de telefone indicado na carta.

O micro ônibus partiu do lugar indicado. Havia uns três casais com filhos duas moças três senhoras e dois rapazes. O trajeto não lhe era conhecido. Havia se abstraído tanto que nem percebeu a via de saída da cidade. Quando decidiu olhar a paisagem, o veículo trafegava em uma estrada de barro no meio do mato.
Um gigantesco portão ao centro de um muro altíssimo abrira-se. Todos desceram. A pessoa que dera as boas vindas era um senhor grisalho vestido de preto que os convidou a entrar, trancou o portão por fora e seguiu de volta no ônibus. Nicole ficou tão absorvida olhando a sua partida que, somente depois é que se voltou para o interior da propriedade.
Eram bangalôs antigos dos dois lados do acesso central. Havia poucas árvores e o mato estava alto. Além do normal. Quase abandonado. Ao fundo, como destino final do acesso entre altas árvores laterais estava a construção principal: um castelo em estilo gótico e muito sombrio.
Os grupos se dividiram e trataram de procurar o bangalô que mais lhes fosse adequado. Nicole ficou ali. Em pé. Olhando as pessoas. Não tinha como disfarçar uma sensação de medo. Havia um clima. Um silêncio estranho. Não havia pássaros. Mesmo o céu estava nublado e um vento frio parecia atingir somente a ela. As árvores estavam estáticas. Aos poucos notou que nem uma das pessoas que se dispersaram entre os bangalôs escolhera o um para ficar. Aos poucos, todos se encaminhavam para o castelo. Nesse momento, ela achou ter visto um vulto em meio ao matagal. Um frio lhe subiu a espinha. Ela partiu em disparada em direção ao grupo que também partia aos berros para o castelo. Entraram, trancaram a pesada porta e, pelo menos agora, estavam em um lugar bem conservado e todos juntos. Corações aos pulos! Ninguém sabia o que dizer. O que pensar. Estavam atônitos e muito, muito assustados.
Após travarem uma discussão da situação, dividiram-se em dois grupos. Um foi explorar o andar de cima, subindo as escadas que ladeavam o hall centra,l e o outro iniciou o reconhecimento pela primeira  porta da direita.
Passados uns 40 minutos, o grupo do térreo recebia na cozinha, que era moderníssima, o grupo que explorara os quartos. Tudo estava em ordem. Comida na dispensa, camas forradas, banheiros limpos, etc. Agora, que estavam bem instalados, toda aquela correria parecia algo meio insano. Será que foi uma espécie de histeria coletiva?
- Minha gente! O que foi que assustou vocês? Perguntou Nicole, quebrando o silencio.
Todos olharam para ela. Naquele instante, numa fração de segundos, os rostos estamparam o mesmo terror de quando se esbarravam à porta do castelo.
- Uma sombra... Respondeu Fátima. Uma garota de olhos tristes filha mais nova de um casal de meia idade. Muito nova para ser filha deles. Ela deveria ter uns 11 anos.
As senhoras partiram para o fogão: olharam a dispensa, a geladeira, e num ímpeto, puseram-se a preparar pratos e pratos para uma refeição. Com a mesma ânsia, as crianças começaram a correr, subindo e descendo os degraus das escadas num alarido histérico.
O resto do grupo não entabulava uma conversa sequer. Todos pareciam petrificados. Durante o almoço só se ouvia o barulho sutil de mastigações e respirações. Passaram-se horas e ninguém havia dado pela falta de uma das crianças. Ouviram um grito que ecoou em todos os cômodos do castelo. Por microssegundos todos exitaram, mas levantaram e correram ao salão. Robson, de 12 anos, estava embaixo da escada tremendo com os olhos esbugalhados e o cabelo em pé.
- Que foi meu filho?
- Ele também viu papai, respondeu Fátima.
- Também viu o quê Fátima? Perguntou Nicole.
- Diga minha filha, o quê o Robson viu? Ajudou a mãe.
- Os moooonnnssstroooossss!! Respondeu o menino, enquanto todos olhavam um fio de urina saindo de suas calças.
Um barulho de unhas na porta da sala! Uma pancada na porta da cozinha! Sussurros quase inaudíveis vindo de fora da casa! Os dois rapazes e o pai de Robson correram à cozinha e se puseram a deslocar o armário para reforçar a porta. Mulheres e crianças subiam as escadas em direção aos quartos, quando uma sombra projetou-se na parede no alto do fim da escada, dentro do castelo. Desceram aos gritos. Nicole correu para a porta da frente e abriu-a. Animais peludos e escuros, de forma desconhecida, estavam parados nos dois lados do acesso ao portão. Espalhados por entre os matos. Nem dava para contar. Nicole, sem pensar, correu em disparada para o portão tentando uma fuga. Achando que havia uma mínima chance de alcançá-lo sem ser molestada, mas ao chegar há uns 10 metros dele, algo de um dos monstros a segurou pela perna. Ela caiu. E logo outro envolveu o seu braço. Ela não os olhava, apenas tentava escapar, mas sua força era inútil. Viu-se arrastada para o que sentiu ser o covil. Um saco plástico, cheio com um líquido marrom, ia passando diante de seus olhos enquanto era arrastada. Com a mão que lhe sobrara solta, pegou aquele saquinho. Os monstros pararam! Ela sentiu que eles, estranhamente, respeitaram aquela sua aquisição. Ela intuiu furar o saco e jogar um pouco do seu líquido viscoso em um deles. O silêncio era brutal. O monstro pôs para fora uma língua grossa e roxa e numa atitude de quem ganha um prêmio lambeu o líquido que lhe atingiu, soltou a sua perna e saiu. Ela repetiu o gesto com segundo ser que parecia aguardar a sua vez. O seu coração pulava. O cheiro daqueles monstros lhe penetrava as narinas. Todos os outros se aproximaram e ela como um autômato, os salpicava e um a um eles se retiravam.
Nicole então se levantou lentamente, respirou fundo e gritou a plenos pulmões: - Vaaaaamos!!!
As pessoas saíram do castelo e correram para o portão. Empurraram-lhe com força e ele cedeu. Caminharam muito até chegarem a uma rodovia.

Nicole continuou sua rotina. Não contou a ninguém sobre o que lhe acontecera naquele ano até o dia em que uma amiga recebeu certa carta...
Edbar
Enviado por Edbar em 27/11/2006
Reeditado em 27/11/2006
Código do texto: T302920
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Edbar
Recife - Pernambuco - Brasil, 65 anos
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