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Texto

A Cadeia Alimentar

— Eles fedem! — Felipe reclamou torcendo o nariz.
Nelson sorriu para o menino.
— Na hora de comer a carne você nunca reclama.
— É que eles também não cheiram assim.
Nelson aproximou-se de um dos boxes no pequeno chiqueiro que mantinha para consumo próprio na fazenda da família.
— Qual você acha que nós devemos assar hoje? — perguntou.
Felipe aproximou-se do pai e observou os pequenos leitões que o ele demonstrava.
— Nenhum! Eles são muito pequenos!
Nelson riu, divertido.
— Mas os porcos são estes mesmos.
— Mas esses são muito pequenos. — Felipe disse, se aproximando novamente. — Vamos pegar um dos maiores.
— Mas acontece que os porcos para abate são estes daqui. Os pequenos.
— Por quê? Eles são menores, tem menos carne. E sei lá, eles são filhotes. Como cachorrinhos. Não é legal comer cachorrinhos.
— Deixa eu te explicar uma coisa. — Nelson pegou o filho no colo, lhe mostrando os leitões. — A gente come os porcos pequenos por que eles são mais jovens e tem a carne mais macia e menos gordura. Já os porcos grandes são velhos, gordos e tem a carne dura como borracha.
Felipe riu com a comparação do pai.
— Mas os porquinhos não são como crianças? Tipo eu?
— São, mas...
— Mas nós não podemos matar crianças. Os pais deles vão sentir falta deles.
— Acontece que com os animais é diferente. Eles não são como nós. Eles são burros. — Nelson mostrou os animais maiores, destinados apenas para a reprodução. — Você ta vendo os porcos grandes. O sentido da vida deles é apenas comer. Eles não se importam com os filhos deles.
— Você tem certeza, pai?
— Claro que sim. Como eu já disse, eles são burros e não sentem falta dos filhos deles. Diferente de mim que sentiria muita falta de você, caso alguém roubasse você de mim pra te assar num espeto. — Nelson terminou a frase cutucando a barriga do menino com um dedo rijo, como se de fato fosse um espeto.
Felipe se contorceu e começou a rir.
— E você não acha que se eles sentissem falta dos filhos, eles nos diriam?
— Acho que sim.
— Então ta certo.
— Pai?
— O que foi?
— Mas por que, que nós comemos carne? Tipo, as vacas comem grama, os porcos comem ração.
 Nelson soltou o menino no chão.
— Bah, deixa eu pensar. Por que sim eu acho. Por que essa é a cadeia alimentar. A vaca come a grama e nós comemos a vaca. O porco come a ração e nós comemos o porco. O mais forte e mais esperto come o mais fraco e o mais burro. Isso é a cadeia alimentar.
Felipe pareceu se contentar com as explicações do pai e escolheu um dos leitões. Uma vez que os pais deles não se importavam. Então deixaram o chiqueiro e seguiram até o galpão. Onde Nelson encarregaria um de seus empregados do abate do animal.
— Pai?
— O que foi agora?
— Se na cadeia alimentar o mais forte come o mais fraco. Então o porco come a ração e nós comemos o porco. E quem come a gente?
Nelson gargalhou mais uma vez.
— Quem come a gente eu não sei. Mas sei quem come menininhos curiosos.
— Quem?
— Eu! — Nelson gritou e agarrou o menino, fazendo cócegas nele.
Felipe começou a gritar e a se debater. Conseguindo se desvencilhar do pai, desatou a correr.
— Volta aqui! Eu estou com fome! — Nelson gritou, como se de fato fosse um monstro furioso.
Os gritos do menino se propagaram enquanto ele corria pelo campo. Nelson tentou correr atrás dele, mas suas pernas estavam estranhamente pesadas. Por mais que ele corresse, parecia não sair do lugar.
— Felipe! Espere! — gritou, enquanto apenas observava o filho se distanciar com facilidade descomunal. Nelson parecia de fato não sair do lugar.
Felipe correu até sumir de vista. No entanto, seus gritos continuavam vivos. Como se estivessem ao lado do pai.
Os gritos do menino então, tornaram-se de súbito desesperados.
— Felipe! — Nelson gritou. Correndo para todos os lugares e para lugar nenhum, mas o menino não se encontrava em nenhum deles. Nelson podia crer que o filho havia simplesmente evaporado. Isto é, se não fossem seus gritos com agonia crescente, vivos ao seu lado. Continuou sua busca com os gritos de Felipe fustigando seus ouvidos. Gradativamente os gritos se tornaram mais altos e o ambiente ao seu redor começou a parecer embaçado. Logo, tudo estava branco, como se um denso nevoeiro o envolvesse.
Continuou por alguns instantes andando de um lado para o outro. Envolvido pela brancura da névoa e pelos gritos...

...incessantes que acabaram por acordá-lo.
— Felipe! — gritou mais uma vez, antes de despertar por completo com uma mulher lhe sacudindo e gritando com ele.
— Acorde! — ela gritou e golpeou seu rosto com a palma da mão, trazendo-o aparentemente de volta para a realidade.
— B-Beatriz... — o nome veio com dificuldade até ele. — O que está acontecendo? — perguntou, observando sem compreender a realidade pestilenta que o envolvia. As imagens surreais de seu sonho se fundiam com o agora, incapacitando-o de compreender o que era real e o que não era. A mulher estava nua, assim como as crianças envolvidas por seus protetores braços maternos. Em seu torpor pós-sono, Nelson não percebeu que ele próprio não vestia quaisquer roupas.
— Eles estão vindo! — ela gritou com desespero crescente.
— Quem está vindo? — Nelson indagou mais confuso do que nunca. Olhava de um lado para o outro o pequeno recinto em que se encontrava. À frente era fechada por grades, não devia medir mais do que 3m² de pura imundície. Havia réstias de comida por todos os lados, assim como as fezes que também se espalhavam pelo lugar. E o cheiro? Oh, meu Deus! O cheiro!
Em seu desespero, Beatriz pareceu desacreditar na incompreensão do companheiro. Mas antes que ela pudesse lhe explicar algo, já era tarde demais, pois fosse-quem-fosse-que-estava-vindo, já abria as grades da cela.
Três grandes vultos entraram no lugar. Ainda sem compreender o que estava acontecendo, Nelson achou que três homens encorpados estavam à sua frente. Mas logo percebeu que estava enganado quando a luz fraca da única lâmpada do lugar os iluminou. Foi então que qualquer resquício de seu sonho se dissipou, e ele lembrou-se de tudo.
Os três vultos podiam de fato se passar por homens no escuro, pois andavam eretos. Mas qualquer semelhança terminava por aí, pois no fulgor da lâmpada suas patas animalescas se tornaram visíveis. Assim como os ralos pelos esbranquiçados que cobriam seus corpos rosados. Mas o que fez com que Nelson fosse envolvido pelo mais puro horror, foram suas frontes. As grandes orelhas saídas do topo das cabeças e caídas aos lados das mesmas. O focinho úmido e alongado, os grandes dentes curvados.
— Porcos... — ele sussurrou levantando-se de sobressalto, pronto para lutar.
Os porcos, mais espertos, porém possuíam armas fora da compreensão dele. Longos bastões que desferiam fortes choques elétricos.
Nelson foi dominado facilmente. Enquanto dois deles o fustigavam com os bastões, o outro tomou um de seus filhos dos braços de Beatriz. Ela tentou defendê-lo, mas também foi fustigada pelos bastões. A criança lutou se debatendo irracionalmente, mas seu pequeno corpo não era páreo para o ser superior e mais forte. Sendo que facilmente foi dominada e carregada, suspensa pelas orelhas para fora da cela.
Os outros dois porcos desferiram mais alguns choques nos humanos adultos, dando-lhes um aviso de que lutar contra o inevitável apenas lhes causaria dor. Então deixaram a cela para trás, carregando o pequeno animal destinado para o abate.
Nelson e Beatriz, agarrados nas grades gritavam por mais um filho perdido. As demais crianças apenas choravam, sabendo que suas vezes também chegariam.
Um porco adulto então passou pelo corredor, acompanhado por outro infante. Parando frente à cela de Nelson, se colocaram a observar os dois humanos gritando, sem compreender uma só palavra do que diziam.
— Eles fedem! — o infante reclamou, torcendo o focinho.
— Na hora de comer a carne, você nunca reclama. — o adulto completou.
— Mas é que eles também não cheiram assim.
— E aí, você quer escolher um para nós levarmos hoje?
— Sim! — o suíno menor disse animado. — Esse aqui! — disse, apontando para Beatriz.
— Não! Escolha um dos menores.
— Por quê? Eles têm menos carne! — o pequeno disse confuso. — Vamos pegar um dos grandes!
— Deixa eu te explicar uma coisa. — o adulto pegou o infante no colo, lhe mostrando os humanos. — A gente come os humanos pequenos por que eles são mais jovens e tem a carne mais macia e menos gordura. Já os humanos grandes são velhos, gordos e tem a carne dura como borracha.
O suíno pequeno riu.
— Mas eles não sentem falta dos filhos deles quando a gente pega um?
— Não, eles são burros. E você não acha que se eles sentissem falta, eles nos diriam algo em vez de ficar aí apenas resmungando.
— Acho que sim.
— Então ta certo.
— Pai?
— O que foi?
— Mas por que, que nós comemos a carne dos humanos e não eles que comem a nossa?
O porco adulto riu.
Criança pensa em cada coisa, pensou.
— Bah, deixa eu pensar. — disse, coçando o focinho com a mão livre. Então respondeu. — Por que essa é a cadeia alimentar.
Marcos T Nogueira
Enviado por Marcos T Nogueira em 10/09/2011
Código do texto: T3210792

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Sobre o autor
Marcos T Nogueira
Ibirubá - Rio Grande do Sul - Brasil, 27 anos
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