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O Veneno

A rainha tinha fome. Muita fome. Sentada em seu majestoso trono empoeirado, com seu vestido luxuoso porém empoeirado, com seu cabelo majestosamente penteado porém ensebado e com seus sapatos que um dia foram muito mas muito brilhantes e lustrosos.  Dois guardas postados ao seu lado vestiam armaduras opacas e desgastadas, segurando lanças tortas e enferrujadas. É, o tempo do glamour imaculadamente limpo havia-se ido há muito.
Tocou o sino ao seu lado. Logo, um criado tão moribundo quanto um cadáver em decomposição correu para beijar-lhe os pés.
- Levante-se. – Ordenou a rainha. Tão logo, o criado ergueu-se.
- O que deseja majestade?
A rainha, ao olhar para o rosto do criado, riu maleficamente.
- Se eu acreditasse em destino, diria que ele conspirara a meu favor agora. – disse ela recuperando-se. – De todos os criados desse palácio, logo você, justamente qual eu queria, veio me atender!
- Em que posso servi-la minha rainha? - insistiu o criado. Tentava não transparecer o nojo que sentia pela mulher a sua frente. Era difícil, mas se não o fizesse... Bom, não gostaria de saber exatamente o que aconteceria. Tinha a sensação que não seria nada de bom.
A rainha olhou através da janela empoeirada, o clima desértico do lado de fora. Um cactos ressequido penava sobre o sol escaldante.
- Você tem um filho, certo?
- Sim... Gaus.
- E quantos aninhos Gaus tem?
- Oito.
- Ótimo. Traga-me ele.
O criado parou estático.
- O que vai fazer com meu filho? - perguntou com a voz trêmula
- Saciar minha fome e minha sede. - respondeu a rainha com displicência.
Mesmo com a absurda crosta de sujeira que recobria o rosto do homem, foi possível vê-lo empalidecer. Ele já estava acostumado com os sacrifícios da rainha. Embora indignado, nunca achara que isso aconteceria com seu filho.
As lágrimas começaram a riscar a fuligem de seu rosto, deixando marcas por onde escorria.
- Traga-me ele! -ordenou a rainha.
- Não... por favor... mate a mim mas não a ele!
A rainha parou. Olhou o homem por um momento e depois começou a rir, rir como não ria há muitos e muitos anos.
-VOCÊ? O que você pode me oferecer além dessa pele pútrida? Uma doença pestilenta e olhe lá! - disse ela enquanto tentava conter sua crise de risos.
- Não, eu imploro!
A mulher então tornou-se séria.
- Ou você vai buscar seu filho ou eu mando meus guardas trazerem-no empalado em suas lanças!
O criado petrificou no chão. Estava tudo perdido, tudo. Cabisbaixo, consentiu com a cabeça.
- Você tem meia hora. –Taxou a rainha,
**
Lay saiu do palácio desolado, chorando soluçante. Seu único filho caíra nas mãos da rainha. Era inútil tentar fugir. Subnutridos e desidratados como estavam, sob tal sol escaldante, era impossível ir muito longe.
Quem sabe não morreria logo depois ao filho. Quem sabe não o matassem também. Quem sabe uma das mil e uma cobras que viviam a espreitar a casa não...
Hesitou em seu caminhar. Lembrou-se que havia guardado uma cobra dentro de um pote na casa para preparar no jantar. Sabia então como vingar a morte do filho com a rainha.
Chegou ao pobre e ensebado casebre. Tal como qualquer lugar no planeta, aquele era outro muito sujo, poeirento e nojento.
Quando entrou, encontrou o filho que dormia calmamente sobre o seu colchão de feno. Os cabelinhos sujos encobriam a bochecha suja de fuligem e seu rostinho de anjo.
Lay olhou com dor para o filho. Dirigiu-se penosamente até a cozinha. A cobra mantinha-se viva e inquieta dentro do pote, traiçoeira, pronta para atacar.
Pegou-a com destreza. Ela enrolava nos braços do homem, furiosa.
Em lágrimas, caminhou decido até onde o filho dormia e expôs as presas da cobra à nuca do garoto.
Gaus abriu os olhinhos e pôs a mão na nuca, assustado.
- Ta tudo bem, ta tudo bem…- disse o pai pondo-o no colo.
- Mas dói pai! - falou Gaus.
- Sim eu sei que dói. Papai agora vai te levar até a rainha.
Tentava manter a voz firme e doce, mas era difícil. Já não bastara perder a esposa, perderia o filho também e nenhuma vingança no mundo pagaria. Provavelmente depois que isso passe, daria cabo a sua vida também. Gaus era a única coisa que o motivava a viver.
- A rainha? Eu não gosto dela pai! - protestou o menino.
- Ela vai cuidar de você filho.
- Mesmo?
- Sim.
- E por que chora pai?
- Por nada meu amor, por nada. Agora quietinho.
Novamente Lay saiu do casebre, carregando o filho no colo. O menino ia quieto, levemente sonolento. Não era uma caminhada muito longa.
- Pai… falta muito…? - perguntou Gaus com a voz fraca.
- Só um pouquinho.
O homem apertou o passo. O filho começava a perder as forças e era importante que ele chegasse vivo ao castelo.
Andou por mais uns cinco minutos até que adentrou aos jardins do palácio. Antigamente eram muito verdes e floridos, rodeados por azaléias, rosas vermelhas e brancas além de arvores muito floridas. Hoje só restara galhos ressequidos por se decompor.
Os guardas já não estavam em frente ao portão enferrujado. Eram poucos os que ainda serviam à guarda real.
Subiu a escadaria de mármore além do jardim, entrando no salão principal onde ainda repousava monotonamente a rainha. Entrou fazendo uma reverência.
- Você demorou! -reclamou a majestade. - Mas vejo que trouxe o que pedi.
- Não achava Gaus. Estava brincando por aí. - disse impassível.
- E por que ele está no seu colo?
- Muito cansado.
- A mim, parece doente.
- Mais saudável que muitos nessa aldeia minha senhora.
- Enfim. Vamos ao que interessa.
A rainha tocou o sino ao seu lado e dois criados moribundos apareceram correndo.
- Aqui! Preparem o garoto para mim! E ai de vocês se demorarem!
Os criados retiraram o menino, agora inconsciente, do colo do pai que não relutou. A rainha observou com leve intriga, mas logo se esqueceu. Lay ainda permanecia no salão olhando para a rainha.
- Já pode ir embora. Já trouxe o que eu pedi, pode voltar a seus afazeres.
- Faço questão de ficar. - disse o homem com a voz endurecida.
- Admiro sua frieza. Eles não vão demorar. Estou com muita sede e não há muito que se fazer.
O queixo do homem tremeu levemente, o ódio subiu-lhe a cabeça e as lágrimas aos olhos. Porém engoliu todos os sentimentos e continuou a fita-la.
Na ausência de um relógio que funcionasse, Lay não conseguiu dimensionar quanto tempo passara ali olhando para a rainha displicente.
Logo um criado aparecera, trazendo uma jarra cheia de um líquido rubro, sobre uma bandeia embaçada e com uma taça empoeirada, do mais fino vidro vagabundo. Não só a vida se extinguira do palácio e da cidade, mas o luxo também.
O homenzinho parou a frente do trono, ajoelhou-se e ergue a bandeja.
- Ah, até que enfim! Servido meu caro rapaz? – perguntou para Lay enquanto servia-se de uma taça do sangue do menino.
- Não... Muito obrigado…
- Não ia dar nem que quisesse.- disse a rainha em tom de gozação.
Virou de uma vez só o copo. Alguns filetes escaparam-lhe da boca e pingaram em sua roupa. Finalmente o copo se esvaziara.
- Vai ficar aí me olhando até que horas? – perguntou a rainha ao ver que Lay continuava ali.
- Até eu julgar necessário. – disse calmamente.
- Logo você sentirá o magnífico cheiro de carne assada. É muito bom. Principalmente tratando-se de uma criança… A carne cede mais facilmente.
- É, sentirei.
- Me parece tão tranquilo… Nem parece o homem possesso que saíra a pouco deste mesmo lugar.
- É as opiniões mudam. Tudo muda.
A rainha olhou para um momento, com um leve espanto transparecendo face.
-Não estou me sentindo bem…
O criado continuava ajoelhado segurando a bandeja com a jarra, porém agora oscilante devido o peso da mesma.
- Falta de ar... Tontura...
- É… Acontece às vezes mesmo. - O que quer dizer com isso? - disse a rainha ofegante. A voz era pastosa, mole, como se a língua se recusasse a fazer a sua função.
- Quero dizer que antes de sair de minha casa, envenenei meu filho com uma picada de cobra. E que você bebeu o sangue envenenado. – disse Lay calmamente. O criado que segurava a bandeja assustou-se e deixou-a cair. O sangue espalhara-se aos pés da rainha enfurecida. Ela por sua vez, tentou se levantar e agarrar o criado insolente, porém já não tinha mais forças. Desabou diante do seu próprio peso, a mão se erguendo num último e desesperado esforço. - Acabou rainha. É o fim de seu reinado. O fim. Virou as costas lentamente e deixou a rainha agonizante no chão, o gostinho da satisfação na boca, o sorriso da vingança estampado na face.
Caroline Maia
Enviado por Caroline Maia em 25/01/2013
Código do texto: T4105356
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Caroline Maia
Rio Claro - São Paulo - Brasil, 22 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/14 00:45)
Caroline Maia



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