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Meu pai chegou em casa com uma caixa pequena na mão. Era um novo pacote do Microsoft Office 2016, com direito a instalação em 5 computadores.

Depois de instalar em seu computador, ele pôs a caixa com o cartão onde tinha o número serial, para ativar a conta no site do programa. Deixou em cima de minha mesa. Eu sorri e pensei, “é... eu podia escrever sobre a minha animação em estar começando a usar um novíssimo Microsoft Word, inaugurando com um novo texto, um poema, quem sabe...”

Foi quando olhei o chão... olhei os meus pés, já cobertos pela massa cinzenta que crescia. A massa cinzenta era como um barro escuro, amolecido, mas que ao atingir minha pele, endurecia imediatamente, como cimento.

Gritei e gritei, mais alto e mais alto... e ninguém apareceu. Minha mãe tinha dito algo sobre “dar uma saída rápida para resolver algumas coisas” e eu não prestei atenção. Meu pai estava em seu escritório com a porta fechada. E como eu estava também de porta fechada, e ouvindo música (ele, provavelmente com a TV ligada), meu pai nunca escutaria meus gritos. Tentei me mexer e massa cinzenta já estava próxima a minha coxa. Percebi que quando me mexia ela ficava mais rápida. O que poderia fazer? Me desesperar diante de uma coisa inevitável seria uma perda tempo... que tal continuar escrevendo e deixar um poema para a posteridade?

“Sobre o que eu posso falar? ”, a massa estava na metade das minhas coxas. A massa era quente, morna. Na verdade, era gostoso senti-la em meu corpo.
Como uma voz que sussurrava em meus ouvidos, comecei a divagar e escrever...
 

“O PECADO”
 
I
É influenciado por nossas personas
o velho safado
o homem de vários nomes
e o que sem medo cita situações
 
...de medo, repúdio e sangue.
 
 
É enlouquecido pelos ventres
que nunca se fecharam
É guiado pelo vento
e na morte está sempre rente.
 
O pecado é o absurdo.
 
Balangandã do Diabo
e dos anjos um tridente
o pecado mora ao lado
mora dentro do meu ventre.
 

A massa cinzenta subia por meus quadris!
 

II
No meu túmulo, há um Negro Zé
cantarolando um samba qualquer
várias viúvas... pretas, loiras, ruivas...
choram, a beijar meu frio pé.
 
Há um padre que diz coisas
sobre a culpa dessa gente
É... sempre tem alguém...
pra estragar uma festa quente.
 

A massa cinzenta estava em minha barriga!
 

III
Aqui, onde não posso transgredir
não há bebida, não há festa
é um lugar de redenção
pedi, reivindiquei meu livre arbítrio
 
para voltar à Bahia então.
Novo em folha, neste fim
que é o começo
nesse útero que padeço
mas hei de pecar de novo, afinal...
eu me conheço!

 
A massa cinzenta atingia meus ombros, seguindo devagar para os braços... “preciso terminar! ”.
 

IV
Não me culpem por ter matado
Meus amigos, meus pais...
e meus jardins não ter regado.
 
É a defesa de quem viu
Satanás, em cada mentiroso coração.
Em cada mulher, amante e esposa
em cada criminoso, ou pacato cidadão
 
Em cada terra, em cada chão.
 
É a defesa de quem viu
todo mundo zombar de Deus.
 
Deus é Paris Hilton
Deus é uma Ferrari possante
Deus é Donald Trump...
 
E a humanidade é o Paparazzi.
 
Nos cantos, nas artes, na televisão
Deus há de correr e fugir...
De todos nós.

 
E então a massa começou a derreter... tornando-se uma espécie de água suja e mal cheirosa.

Eu entendi o sentido da vida. Entendi que estamos o tempo inteiro tentando ser criativos, tentando ser bons homens e mulheres. Enquanto muitos outros unem-se numa massa cinzenta, tentando nos manter presos em nossas cadeiras.
 

 
Henrique Britto
Enviado por Henrique Britto em 21/04/2017
Código do texto: T5977194
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique Britto
Salvador - Bahia - Brasil, 32 anos
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2 e-livros (55 leituras)
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Henrique Britto