O MILHARAL

As maravilhas do matrimônio ainda eram novidade para Luana e Ernesto. Haviam se casado há pouco tempo e estavam naquela fase onde a vida a dois começa a entrar nos eixos, um descobrindo a intimidade do outro em detalhes cada vez mais específicos. Ela, por exemplo, desconfiava que o marido tinha medo de baratas e lutava arduamente para esconder o fato; ele, por sua vez, percebeu que a esposa nutria uma estranha afeição pelo sapo de pelúcia que mantinha no guarda-roupas. Seja como for, pormenores como estes, que se mantiveram ocultos até o fim da lua de mel, conferiam certa profundidade cômica à união. Ambos se divertiam com tais sutilezas e adoravam se descobrir desta forma, aos poucos.

Naquele cálido fim de semana, tinham ido à costa para celebrar o casamento de um casal de amigos. Se divertiram muito e estavam felizes por terem conseguido comparecer, mas ansiavam pela volta e sorriram satisfeitos quando se colocaram novamente na estrada. Viajavam em um velho opala reformado. O carro era o novo xodó de Ernesto e vinha sendo tratado com tanto zelo que chegava a causar certo incômodo em Luana. Já tinham cruzado metade do estado quando o sol finalmente se deitou no horizonte.

- Odeio o horário de verão – murmurou a jovem, se ajeitando outra vez no banco de couro – E odeio mais ainda sentir minha pele suada grudando nesse seu banco nojento.

Percebendo a irritação da esposa, um sorriso provocador se desenhou no rosto de Ernesto.

- Quando sua querida amiga completar as bodas de bronze, mandamos um postal. O que acha?

- Acho que deveríamos ter ido visitá-la de avião! Seu panaca!

- Ei, fim de semana divertido, lembra? – O rapaz estava cansado de dirigir e não queria deixar o agradável fim de tarde ruir por causa do estresse da viagem – Faltam poucas horas agora, meu bem.

Revirando os olhos, Luana apenas concordou com a cabeça e se virou para o lado, observando a paisagem passar pela janela aberta. Percorriam agora extensas terras de cultivo e o rádio estava sintonizado em uma estação onde os melhores hits dos anos 70 e 80 eram revividos diariamente. Quando Dust in the Wind, do Kansas, começou a tocar, a garota flagrou-se rindo de si para si. Ernesto percebeu imediatamente a mudança em seu estado de humor e sorriu também. Era a música preferida dela. Em associação com uma paisagem de tirar o fôlego e o fim alaranjado da tarde, pareciam dirigir pelo paraíso.

Lentamente, a noite teceu seu véu de escuridão estrelada. As estradas interestaduais que passavam por zonas agrícolas obviamente não eram iluminadas, mas o casal não precisou temer coisa alguma: estavam completamente sozinhos. O último carro que avistaram passou na direção contrária 45 minutos antes. Se o rádio estivesse desligado, o silêncio seria quase absoluto. Cruzavam uma gigantesca plantação de milho quando o carro subiu por uma colina íngreme. No momento em que atingiram o pico, Ernesto freou bruscamente, os pneus cantando e o cheiro de borracha gasta subindo logo em seguida. Luana, que dormia no banco do carona, despertou sobressaltada. Quando ela questionou porque o marido estava parado, Ernesto apenas desligou os faróis e apontou.

Estavam em um ponto alto, de onde era possível avistar plantações que se estendiam até o infinito. À noite, os vales pareciam uma grande manta negra, mas quem já se aventurou pelas horas tardias sabe que a escuridão nunca é absoluta. Em campo aberto, é possível distinguir formas, tons de sombra diferentes. É assim que enxergamos, por exemplo, as silhuetas dos prédios se elevando aos céus durante um apagão na cidade. E foi exatamente assim que puderam avistar algo que se distanciava completamente da realidade.

Pairando acima do milharal, estava um objeto circular de proporções descomunais. O diâmetro da coisa parecia equivaler ao triplo do comprimento de um avião intercontinental. A imagem era tão surreal que parecia ter sido extraída diretamente de algum filme de ficção científica. Ernesto desligou o rádio e, mergulhados no silêncio, puderam ouvir um zumbido grave, constante, como o som de um gerador ligado ou algo semelhante. Em choque, entoaram juntos, em uníssono, a única coisa que conseguiram dizer: disco voador.

Ao longo de suas vidas, já tinham ouvido inúmeros relatos de gente que alegava ter se deparado com algum óvni. Tinha um programa documental em um canal que gostavam de assistir juntos que se dedicava exclusivamente a busca de relatos como esses. Mas nunca de fato acreditaram nessas coisas. Mesmo agora, diante de um objeto que simplesmente não deveria existir, se recusavam a crer completamente. Tentaram dar nome a coisa, mas se viram diante do desconhecimento completo. O mais curioso era que as pessoas que viam objetos assim geralmente relatavam um milhão de luzes coloridas brilhando no céu. Aqui, no entanto, encaravam um enorme disco que flutuava pouco acima das plantações, completamente apagado, perceptível na escuridão unicamente em função de suas proporções gigantescas.

Luana, que sempre fora a pessoa mais sensata naquele relacionamento, queria voltar pela interestadual e dirigir até conseguir ajuda. Ernesto argumentou que estavam muito longe agora e que provavelmente dirigiriam até o local de onde tinham saído. Disse que poderiam tentar passar despercebidos, com os faróis desligados. De acordo com suas expectativas, o disco pairava a uma distância segura da estrada e não haveriam riscos.

Mas ela conhecia o marido bem demais para acreditar naquelas besteiras. Sabia que Ernesto não estava tão apavorado quanto ela, e sabia que seu interesse maior era em se aproximar mais da coisa. Estava sendo movido pela imprudente curiosidade que parece anestesiar os sensores do perigo. Ele já tentava tirar um milhão de fotos do objeto com o aparelho celular (todas elas inutilizadas pelo breu) e muito provavelmente daria tudo por um ângulo melhor. Luana só queria sair dali o quanto antes. Estava em pânico quando começou a chorar.

- Qual é o seu problema Ernesto? – Perguntou alarmada – Quer ir de encontro aquela coisa? Tudo bem, vá, mas se mate sozinho!

A moça desceu do carro e um minuto depois estava sendo seguida pelo marido.

- Ei, Luana! O que você quer fazer? Vai voltar a pé até a costa?

- Por aí é que não vou! Você nem sabe o que tem nessa coisa. Por acaso nunca assistiu a um filme de terror?

- Nós não podemos voltar agora, Luana. Corremos o risco de ficar sem gasolina tentando chegar ao posto mais próximo – Ernesto apontou para a direção de onde tinham vindo e continuou – Por aqui, precisamos dirigir por pelo menos 4 horas. Por lá não gastaremos nem duas para chegar até um local que tenha gente!

Luana se viu desarmada pela falta de argumentos. Disse que poderiam esperar ali, escondidos, mas quando Ernesto alertou para o perigo de a coisa se mover, ela logo mudou de ideia. Voltaram para o carro e começaram a descer a colina. O silencio sepulcral só era quebrado pelo zumbido constante do óvni, que se tornava mais alto na medida em que aproximavam dele. Nem mesmo os grilos e insetos que cantarolavam até poucos minutos antes estavam proclamando suas irritantes melodias. Ernesto dirigia lentamente, tentando não fazer barulho. Achava que se prosseguissem em ritmo lento as chances de serem notados diminuiriam drasticamente. Mas aquilo não fez diferença, pois em determinado ponto o carro morreu e parou de funcionar.

A gasolina não acabou. A bateria não pifou. O velho opala reformado simplesmente estagnou e parou de responder a qualquer comando. Atônita, Luana percebeu que tanto os celulares quanto os relógios haviam parado de funcionar da mesma maneira inexplicável. Recomeçou a chorar. Ernesto se inclinou para o banco do carona e abraçou a esposa, pedindo que se acalmasse. Eles iriam sair dessa, dizia aos sussurros. Voltou os olhos para o enorme disco enquanto pensava no que iriam fazer. Dali debaixo podia distinguir mais detalhes daquele estranho objeto, que agora pairava logo a direita, pouco acima do nível das espigas de milho. Estava incrivelmente perto - 800 ou 900 metros além das margens da estrada - e suas dimensões pareciam ainda mais exorbitantes.

A visão deles já tinha se adaptado à limitada luminosidade das estrelas quando Ernesto percebeu certa movimentação em meio a plantação. Notou que o topo de alguns dos pés de milho que margeavam a estrada se balançavam agitadamente, como se algum lunático corresse ali dentro. Sentindo medo verdadeiro pela primeira vez desde que avistaram o óvni, começou a desconfiar de que realmente não poderiam escapar sem serem notados. Sua mente especulava agora que tipo de criatura sairia do milharal, quais tipos de horrores extraterrestres correriam pela estrada e se atirariam sobre os vidros do carro, acabando com seu breve casamento e com sua breve existência.

Mas nada despontou no asfalto negro. O balançar das espigas de milho simplesmente cessou e a atmosfera voltou à sua quietude incômoda. Agora, tanto Ernesto quanto Luana olhavam ao redor do carro. Tinham fechado as janelas – que felizmente eram acionadas manualmente – e se colocaram em estado máximo de alerta. À frente, a estrada se estendia até onde a vista alcançava. À esquerda, uma parede de pés de milho se elevava a quase dois metros de altura. À direita, acima do milharal, pairava uma espécie colossal de nave alienígena. E atrás do veículo a estrada subia preguiçosa colina acima. Não havia nada lá. Nada, exceto... o que era aquilo? Ernesto estava vidrado no disco, mas Luana podia jurar que uma forma se movia na escuridão.

O coração da jovem disparou no peito. Quis chamar a atenção do marido, mas todos os músculos de seu corpo pareciam enrijecidos pela tensão. Apenas observou, chocada, a boca moldada em um “O” que indicava horror e perplexidade. Na medida em que a forma se aproximava do veículo, conseguia distinguir cada vez mais detalhes. Ele era alto, foi a primeira coisa que notou. Alto e extremamente magro. Parecia estar completamente nu, e sua pele era esbranquiçada demais – por isso sua forma se distinguia com relativa facilidade. A cabeça oval parecia desproporcional em relação ao restante do corpo, apoiando-se perigosamente sobre um pescoço muito fino.

Mas foram os olhos da coisa que causaram calafrios no corpo de Luana. Eram órbitas negras, gigantescas. Ocupavam a maior parte de uma face desforme que agora se colocava na frente do vidro traseiro, dedos finos e longos se apoiando na lateral daqueles olhos, como se o monstro tentasse enxergar melhor o interior do carro. Ernesto percebeu o tremor intenso quando tentou alcançar as mãos da esposa e foi então que desviou os olhos do disco. Quando a viu paralisada, em um estado que parecia uma mistura de choque e pavor, seguiu seu olhar vidrado e se deparou com a monstruosidade que lhes encarava pelo vidro traseiro.

- Luana, eu vou abrir a porta lentamente e vamos correr para o milharal, está me entendendo?

A voz de Ernesto estava trêmula, quase inaudível. Quando não obteve resposta, pigarreou e chamou a esposa em um tom mais alto. Saindo de seu entorpecimento, ela finalmente respondeu, sem desviar os olhos da criatura.

- Ele nos viu Ernesto. Já nos viu. Estamos mortos.

- Ainda não, meu bem. Veja como ele observa – Ernesto se referia a movimentação confusa e imprecisa que a cabeça da criatura desenhava sobre o vidro – Eu coloquei uma película escura sobre os vidros, mas se ele der a volta nos verá com certeza.

Luana começou a chorar. Ernesto a segurou pelo braço e a sacudiu com força, pretendendo capturar sua atenção.

- Quando ele começar a girar, vamos sair pelo outro lado, está me ouvindo? Sair e correr o mais rápido que pudermos. No milharal ele não poderá nos encontrar.

- Ele vai nos pegar, Ernesto. Oh, meu Deus, deveríamos ter ido de avião.

Luana começou a perder o controle. Estava à beira da histeria quando a coisa desforme começou a circular, vindo pela direita – lado onde a moça estava sentada. Desesperada, ela começou a arfar e se postou imediatamente ao lado do marido, espremendo-o contra a janela esquerda. Em meio ao pânico que se instaurou entre a movimentação errática do alien e a respiração pesada e chorosa de Luana, Ernesto abriu a porta. Houve um clique alto e, como se houvessem ensaiado, os três congelaram-se da forma em que estavam: Ernesto com a mão sobre a porta e o pé esquerdo quase tocando o asfalto; Luana sentada sobre a coxa direita do marido, as pernas encolhidas e os olhos arregalados; E a coisa grotesca com a lateral da face colada no vidro do carona. Ninguém se moveu.

Respirando o mais silenciosamente que podiam, marido e esposa aguardavam, o medo enraizado profundamente em suas almas. Queriam saber como a criatura iria reagir, mas no fundo sabiam que ela tinha ouvido o clique que a porta fizera ao ser aberta. Lentamente, a cabeça do alienígena foi se virando na direção do casal. Agora aquelas grandes órbitas escuras os encaravam como se os estivesse enxergando de fato. Então seus lábios finos e deformados se abriram e exibiram várias carreiras de dentes afiados. As narinas, fixadas sobre um rosto sem nariz, se expandiram um pouco e logo depois um grito horrendo escapou das profundezas de sua garganta.

O som era incrivelmente alto e gutural. Um arrepio espasmódico percorreu a espinha de Luana e ela começou a gritar histericamente. Ernesto, que tremia como nunca, terminou de abrir a porta e puxou a esposa para fora do veículo. Começaram a correr em direção ao milharal e um segundo depois a moça desapareceu na plantação. Ernesto parou no limite entre as espigas de milho e a estrada, lançando um rápido olhar sobre o ombro. Viu o monstro se levantar do outro lado do veículo e percebeu que ele era quase tão alto quanto os pés de milho. Os braços finos da coisa se agarraram ao teto do velho opala e um momento depois suas pernas surgiram. Movendo-se como uma aranha, o alienígena desceu do carro e veio na direção do casal daquela maneira aterrorizante. Ernesto voltou a correr e também desapareceu no milharal, indo atrás da esposa.

Assim que entrou na densa plantação ele percebeu que não deveria ter soltado as mãos de Luana. Ela estava correndo desesperadamente, quebrando as espigas de milho com estalidos altos que indicavam facilmente sua posição. Ciente de que não adiantaria fugir daquela maneira, Ernesto resolveu gritar.

- Luana! Vá devagar! Assim ele saberá onde estamos!

- Rápido Ernesto! Ele vai nos pegar! – Ela gritou de volta, sem diminuir o ritmo - Oh meu Deus, estamos mortos!

A jovem continuou correndo para salvar a própria vida. As folhagens ásperas açoitavam seu rosto repetidas vezes, mas a dor não representava um obstáculo real. Pior seria se fosse alcançada pelo horror alienígena que lhes perseguia. Ofegando e chorando ao mesmo tempo, continuou quebrando os pés de milho a sua volta, abrindo caminho sem saber para onde estava indo. Só parou quando alcançou uma trilha estreita que os agricultores usavam para se deslocar pelo milharal. Ali, a escuridão tornou-se menos densa. Ela olhou para um lado e para o outro e não enxergou ameaça. Virou-se para trás para esperar pelo marido, mas ninguém saiu da trilha que tinha aberto aos soluços.

Chamou por Ernesto em um tom de voz baixo, mas ele não respondeu. Percebeu finalmente que não deveria ter feito tanto barulho. A noite era silenciosa como um cemitério, e teria sido fácil para o monstro encontrá-la ali dentro: bastaria seguir o choro incontido e a trilha de pés de milho quebrados. Felizmente, aquilo não acontecera. Tentando se manter otimista, pensou consigo mesma que o marido devia ter percebido o fato e não queria responder para não entregar a posição de ambos. Resolveu então esperar por ele ali, na trilha dos agricultores. Se Ernesto estava logo atrás dela, não teria dificuldade em seguir seus rastros.

O tempo pareceu congelar-se naquela espera infinita. Luana olhava para o milharal, mas nenhum som saía de lá a não ser o ronco constante da nave. Estava chorando outra vez, a mente divagando sobre as terríveis possibilidades que envolviam a captura do marido pelas criaturas extraterrestres. Nos filmes, ela pensou, seres humanos tornam-se cobaias de laboratório. São estudados e dissecados em uma espécie de terrível tortura científica. Mas será que os filmes estavam certos? De onde tinham tirado aquelas informações? E, mais importante, se alienígenas existiam, o que estavam buscando aqui, na terra? Seriam hostis ou teriam vindo amigavelmente?

Seus devaneios foram interrompidos por uma brusca movimentação no milharal. O estalo das espigas se quebrando tinha vindo de algum lugar muito próximo. Um sorriso já se abria no rosto de Luana quando ela então considerou a possibilidade de não ser Ernesto vindo em sua direção. Poderia ser outra coisa. Um calafrio percorreu seu corpo, fazendo-a estremecer. Resolveu não arriscar e correu para a outra margem da trilha dos agricultores. Entrou o mais silenciosamente que pôde no milharal e se abaixou. Dali, agachada entre os pés de milho, observou silenciosamente enquanto tentava controlar a respiração pesada. Seu coração batia loucamente, parecendo estar prestes a explodir.

Horrorizada, viu aquele monstro sair do ponto onde ela estivera esperando alguns segundos antes. Embora na estrada estivesse caminhando sobre duas pernas, aqui ele se movia como um quadrúpede, a grande cabeça olhando erraticamente em todas as direções enquanto um som estranho de gorgolejar saía de suas entranhas. Ele parou a menos de um metro de onde Luana espreitava. Hesitou, quase enfiou a cara na plantação – se o fizesse, encararia a moça de frente e a teria finalmente encontrado - mas então resolveu se levantar e voltou a caminhar sobre duas pernas. Começou a seguir a trilha dos agricultores, indo para a esquerda, quando Ernesto emergiu do outro lado da plantação, arfando.

Não houve tempo. Ernesto olhou para a esquerda no momento exato em que a criatura o avistou. Tentou correr, mas o monstro emitiu outro de seus berros guturais e se postou sobre quatro patas novamente, alcançando o jovem numa corrida extraordinariamente veloz. Paralisada pelo medo, Luana finalmente entendeu que aquela era a posição de caça e ataque do extraterrestre. Viu seu marido ser agarrado pelas pernas e lançado em direção às margens da plantação. Ernesto caiu a menos de dois metros de onde Luana estava. Gritando de dor, seus olhos encontraram o rosto petrificado da esposa. O jovem então levou o dedo indicador até os lábios e fez sinal para que ela se mantivesse ali, oculta no milharal.

Luana não se moveu. Amava Ernesto com todas as suas forças e desde que se casara com ele podia jurar que sacrificaria a própria vida em nome daquele amor, se preciso fosse. E aqui estava ela, paralisada por um medo covarde e irracional enquanto uma criatura horrenda debruçava-se sobre as pernas de seu marido e o mordia repetidas vezes, imobilizando-o. Seu instinto de autopreservação falou mais alto, e ela acatou o último conselho de seu marido. Se manteve ali, imóvel, oculta pela densa plantação.

Outras aberrações como aquela despontaram do milharal. Eram cinco no total. Dois deles carregaram Ernesto aos gritos, conduzindo-o pela trilha dos agricultores. Andaram por uns 20 metros e então soltaram o corpo do rapaz, que atingiu o solo com um baque surdo. Uma nova rodada de dor o atingiu, fazendo-o gritar outra vez. Então, os seres extraterrestres olharam para o alto e entoaram juntos outro daqueles berros guturais. O som infernal cruzou os campos e colinas e, quando cessou, ouviu-se um ruído alto de maquinário sendo ligado, algo semelhante a uma gigantesca turbina.

Luana viu o grande disco se elevando aos céus. A nave decolou e se postou logo acima das seis figuras – Ernesto e os cinco alienígenas. Um feixe de luz incrivelmente forte os atingiu, inundando o milharal com um clarão capaz de cegar qualquer um. Quando o feixe se apagou, apenas Ernesto continuava deitado sobre o solo, as mãos tentando proteger os olhos da luminosidade que se dissipava. Luana sorriu, esperançosa de que seu marido não fosse objeto de interesse para as criaturas. Então, quebrando seu breve momento de felicidade, um segundo feixe se acendeu. Esse bem mais fraco que o anterior. Ernesto começou a flutuar, sendo tragado pela luz. Subiu talvez por trinta ou quarenta metros, os braços e pernas se agitando no ar em busca de algum ponto de apoio.

Abruptamente, o feixe se apagou e Ernesto experimentou uma rápida queda livre até o chão. Luana viu seu amado atingir o solo e ouviu seus ossos se partindo, a carne cedendo. Precisou conter um grito com as mãos. Atordoada, viu o feixe se acender pela terceira e última vez, sugando o corpo estraçalhado do marido. Uma espécie de porta redonda se abriu na base do disco e os restos de Ernesto foram tragados para dentro. A nave então subiu numa reta até desaparecer da terra.

Ninguém nunca acreditou na história contada por Luana. No dia seguinte, os agricultores procuraram por pistas que pudessem confirmar seus relatos, mas não encontraram sinais de que alguma nave alienígena pudesse ter estado ali. Viram as trilhas abertas por Luana e Ernesto, mas até mesmo o solo sobre o qual o corpo do jovem fora lançado estava intacto. O caso foi documentado pelo programa de TV que se dedicava a busca por aparições extraterrestres. Luana, por sua vez, nunca superou a morte e o desaparecimento do marido. Se matou alguns anos depois, tomada por uma culpa que se recusava a ceder.