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Seiva

O cômodo vermelho


— Meu amor, ela é tão linda – Lena estava vislumbrada com a visão de sua nova casa.
— Que bom que gostou, meu bem. Na verdade, fiquei com medo – Augusto confessa, abraçando a esposa – Afinal, não fomos nós quem a escolhemos. Mas meus pais acertaram dessa vez, acho.
Os recém-casados, ainda em lua-de-mel, abriram o portão e atravessaram o jardim, rumo ao aconchegante sobrado que passaria a ser o lar do casal a partir daquele dia. Na residência do outro lado da rua, indiferente à felicidade dos novos moradores, acontecia uma festa de aniversário infantil.
— Nossa – Lena parecia uma criança, de tão contente, a cada passo dado dentro do espaçoso sobrado. – Esta sala é enorme, Augusto!
— É, como corretor de imóveis, meu velho não poderia ter feito escolha melhor.
— Mas acho que tem mais o dedo da sua mãe na escolha, que o do seu pai.
Eles riem.
— Tem razão – Augusto concorda. – Se fosse só o meu pai, certamente teria escolhido uma casa mais próxima ao meu escritório.
— Orgulho do filho advogado – Lena diz com ar zombeteiro. – Pois fique sabendo que eu não me importo em ser mais uma “Amélia” no mundo.
Os dois se beijam carinhosamente, de fato, um casal jovem e bonito.
— Vou dá uma olhada na cozinha – a jovem esposa avisa, largando o marido e se dirigindo ao outro cômodo.
A campainha do sobrado toca e Augusto vai prontamente atender a porta.
— Boa noite – uma voz arrastada, quase coaxada é ouvida. – Não poderia deixar de dar as boas-vindas aos meus novos vizinhos.
Augusto olha para baixo e vê uma mulher idosa e gorda sentada numa cadeira de rodas.
— Agradeço pela sua gentileza – Augusto estava confuso, não esperava que as primeiras visitas fossem aparecer tão subitamente e sob aquelas condições. – A casa ainda está bagunçada, pois acabamos de chegar...
— Não, por favor, não se preocupe – ela o interrompe. – Só queria conhecê-los... Aliás, cadê sua esposa?
— Ah, minha esposa, Lena, está na cozinha... Espere!
Augusto parece lembrar de algo inusitado, interrompendo o seu discurso.
— Como foi que a senhora conseguiu...
— Sumiu novamente sem avisar – uma mulher, adentrava pelo jardim do sobrado do casal e falava em voz alta, enquanto se aproximava da outra. – Eu sou paga para cuidar da senhora e veja só o que me apronta? Estava louca a sua procura! Vamos logo pra casa...
Perfurando os ouvidos de todos como agulhas vibrantes, um grito de horror vinha do interior da residência. Augusto entra apressado, deixando as duas visitas à porta.
A cena era grotesca. A cozinha estava banhada em sangue; um vermelho já desbotado, o sangue já coagulara. Lena estava recostada, segurando o trinco da porta de entrada da cozinha, possivelmente estivera tentando abri-la, talvez estivesse emperrada. Seu rosto mostrava um pavor indescritível. Misturando-se ao sangue, havia carcaças de animais, impossível dizer a espécie, talvez até de seres humanos. Completando o cenário macabro, estavam sete velas negras, queimando a um canto da parede, totalmente indiferentes à surpresa desagradável do casal.
Um cômodo pintado de vermelho.



Galhos negros em volta do pescoço


Após o incidente da cozinha, os comentários giraram em torno de quem teria feito tamanha barbaridade. Além da senhora inválida e de sua enfermeira, outros vizinhos também se interessaram pelo fato; alguns até ajudaram na limpeza da cozinha. Outros, no entanto, como o casal da residência da frente – a da festa de aniversário – apenas faziam comentários desajustados:
— Meu Deus! Isso nunca havia acontecido no nosso bairro. Somos pessoas tão distintas – exclamava uma mulher gorda.
— Justo no dia do aniversário de nosso filhinho – completou seu marido, também obeso.
— Pessoal, agradeço a gentileza de todos em terem vindo até aqui, mas a minha mulher precisa descansar e eu também – Augusto fez menção de ir até a porta da sala.
— Ah, claro – uma das mulheres que ajudara a limpar a cozinha se adiantou. – Já estamos indo. Cuide de sua esposa. Ela está muito abalada. Espero que não fiquem com uma má impressão ao nosso respeito graças a esse incidente.
Augusto, quase sem expressão, fitou-a. Não parara para pensar a fundo nas conseqüências daquela brincadeira doentia, mas assentiu para a mulher que lhe falava.
— De modo algum e obrigado mais uma vez.
Logo todos já estavam fora do sobrado. Antes de sair, o casal gorducho, ainda sem a menor noção do atual estado de espírito dos recém-casados, convidou-os para assistirem, juntos, no dia seguinte, as imagens da festa de aniversário de seu filho único.
Augusto se sentiu realmente aliviado quando se viu só na sala de sua nova casa, mesmo com todas aquelas caixas. Subiu imediatamente ao encontro de Lena, que já há algum tempo, subira para o quarto, depois de ter bebido uma garapa, preparada pelo marido. Ele adentrou no quarto e se deitou ao lado dela, abraçando-a por trás.
— Você está melhor, meu amor?
Ele falava mansinho em seu ouvido. Lena estava pensativa, o olhar fixo na vidraça da janela do dormitório, onde um galho escalpelado de uma árvore batia de vez em quando, gerando um barulho seco. Augusto percebeu de imediato a distração da esposa.
— Não tinha percebido que tínhamos uma árvore tão grande na lateral da casa – ele tentou puxar assunto. – Acho que é porque já estava escurecendo quando chegamos...
— Você acha que foi um sinal de infelicidade?
Augusto olhou para o rosto da esposa, tentando descobrir a expressão que ali havia; o quarto estava mergulhado numa meia-penumbra.
— Não, meu bem. Claro que não. Foi apenas uma brincadeira de mau gosto e só. Não precisa ficar tão impressionada.
Lena vira-se para ele, olhando-o firme nos olhos.
— Você acha mesmo?
— Sim. Tenho certeza.
Beijaram-se.
TOC. O estalido seco se propagara no quarto silencioso. O galho agora batia mais fervorosamente na janela. A madrugada já avançara e um calor escaldante tomara conta do aposento. O casal não conseguia pregar os olhos.
— Por favor – pediu Lena – abra aquela maldita janela! Assim o calor diminui e esse maldito galho para de nos incomodar também.
Ele se levanta e se dirige à janela, subindo a vidraça com um solavanco. Augusto olha para a noite e vê a frondosa árvore que se erguia na lateral do sobrado, sua copa assemelhando-se a um chapéu de sol, balançando-se ao vento. A escuridão não permitia distinguir a espécie do vegetal, mas certamente tratava-se de um exemplar de Terminalia catappa, um pé de castanhola, árvore tão comum em toda a área urbana da cidade. Uma rajada de vento adentra pela janela e o galho decrépito toca o braço de Augusto. De súbito, seus punhos se fecham e seu olhar se fixa num ponto qualquer a sua frente.
— Não vai mais se deitar, amor? – Lena pergunta, estranhando a demora do outro.
A resposta de augusto é um silêncio assustador.
— Augusto, você está bem?
Lena se desenrola e faz menção de se levantar da cama.
— Por que você me deixou, Estélvia?
A voz de augusto estava arrastada, como se viesse da garganta de outra pessoa.
— Do que você está falando – Lena pergunta, voltando a se apoiar na cama, como se tivesse sido empurrada de volta ao leito.
Augusto se vira para a sua esposa e, vagarosamente, como se estivesse a contar os passos, vai caminhando em direção à cama. Atrás dele, pela janela aberta, o galho balançava, como que a incentivar Augusto a prosseguir.
— Diga-me – sua voz agora estava mais firme, contudo ainda era estranha àquele corpo – o que “eles” tinham, que eu não tenho?
Ele se aproxima de Lena e suas mãos vão galgando o pescoço de sua esposa, que tinha no rosto um misto de surpresa e pavor.
— Augusto, pare! O que vai fazer?
— Estélvia...
As mãos dele começam a apertar ferozmente o pescoço de Lena, que começa a espernear, jogando o travesseiro no chão e levando o lençol ao fim da cama com os pés.
— Pa-pa-re – ela tentava gritar, mas seus gritos já começavam a parecer meros silvos.
À beira de perder a consciência, Lena topa com o braço esquerdo no criado-mudo, notando que em cima havia um jarro com flores postas mais cedo ali, talvez pelos pais de Augusto. Reunindo suas últimas energias ela toma o vaso e o espatifa na cabeça de seu algoz, que cai sobre ela, desmaiado, a cabeça sangrando e tingindo de rubro os lençóis do leito.
Lá fora, o vento da madrugada movimentava os galhos e as folhas roxas, mescladas com um verde cadavérico, na lateral do sobrado.


Estélvia


Augusto acordou atordoado e com uma estranha dor na cabeça. Pôs a mão na nuca e notou que tinha um curativo acima de sua orelha direita. Não conseguia se lembrar do que havia acontecido na noite anterior. A última coisa que recordava era da janela e das folhagens verde cadavérico.
A porta do quarto abriu.
— Então você já acordou?
Augusto sentiu uma frieza nunca antes sentida na voz de sua jovem esposa.
— O que aconteceu – Augusto questiona.
— Eu que deveria fazer essa pergunta...
O rosto de Lena estava sem expressão. Augusto a fitou, preocupado. Desceu os olhos para o seu pescoço e viu hematomas.
— Oh, meu Deus? Não me diga que eu...
— Por que você nunca me disse que tinha problemas mentais?
— Lena, meu amor, eu não lembro de nada – ele começa a se levantar da cama.
Lena se afasta em direção à porta ao ver o marido se erguer do leito.
— Fique longe de mim. Eu já estou indo embora dessa casa maldita! Seu doente!
Espantado com aquela reação, Augusto cai de joelhos aos pés de Lena.
— Me perdoe! Eu não sei exatamente o que fiz, mas não era eu! Jamais faria isso com você! Por Deus, você sabe que não!
Lena o olhou, um risco de piedade já despontado em seu olhar.
— Eu não sei o que pensar. Tudo que aconteceu ontem já foi o bastante pra mim. E foi só o primeiro dia nesse sobrado. Eu não quero ficar para saber o que vai acontecer nos outros...
Ele a encara, levantando-se em seguida.
— Você tem razão. Nunca acreditei em bobagens supersticiosas, mas não sou idiota a ponto de negar as coisas óbvias... Você quer a separação?
Lena o olhou, como se estivesse em dúvida.
— Não. Eu acredito que “aquele” de ontem não era você e por isso estou tão assustada.
Augusto a abraçou.
— Vamos embora hoje mesmo, meu amor – tranqüilizou-a. – Nem um dia a mais nesse lugar.
A campainha soa. Um garoto gordinho, filho do casal da frente, viera chamar lena e Augusto para assistirem as imagens de sua festinha de aniversário. Ambos aceitaram o convite como meio de distração.
Sentados no confortável sofá, Lena e Augusto estavam com o pensamento distante do monitor de TV, que exibia as imagens diretamente de uma filmadora. Havia algumas crianças espalhadas pelo chão e na ponta oposta do sofá encontrava-se um senhor idoso com as roupas limpas e bem engomadas. Estava muito atento à TV.
— Augusto...
Lena falou baixinho.
— Você conhece alguma Estélvia?
— Não conheço ninguém com esse nome, meu amor.
— Eu sei de quem vocês estão falando – disse uma voz rouca, meio arrastada.
Lena e Augusto olharam estarrecidos para o velhinho “engomado”, que não tirava os olhos do monitor.
— Vocês moram naquela casa... Vizinha àquela velha árvore...
Fez uma pausa, como se estivesse voltando no tempo, em pensamento.
— Estélvia, há muitos anos, viveu por aqui. Mais precisamente num prostíbulo. Era muito requisitada, ou melhor, a mais requisitada de todas.
O casal apenas escutava com atenção.
— Estélvia era muito bela, mas também extremamente gananciosa. Acabou por seduzir um jovem chamado Mariano, se minha memória não me engana, era esse o seu nome.
Fez uma pausa para sorver o ar e recuperar o fôlego. Lena e Augusto esperando a continuação da história ansiosamente.
— Foi aí que tudo começou – continuou o ancião, com um tom sombrio na voz. – O moço não tinha como dar provas de seu amor pela bela prostituta e enlouqueceu.
— Mas qual a relação dessa história com a nossa casa – impacientou-se Augusto.
O velho o fitou com uma cara de reprovação, em seguida continuou:
— Mariano passou a caçar e a matar todos os amantes de Estélvia. E depois pendurava os corpos nos galhos do pé de castanhola que fica vizinho ao seu sobrado.
Lena tapou a boca para abafar o som de um gemido de pavor àquela idéia. Augusto sentiu a tensão dela e a abraçou.
Estavam tentando assimilar melhor as palavras ditas por aquele senhor “engomado”, que agora parecia uma figura inerte sentada no sofá, com os olhos fixos no nada, quando a anfitriã mandou que eles olhassem para o monitor.
— Meu Deus – gritou Lena, apontando para a TV. – Volte um pouco o vídeo, por favor!
— Ah, claro!
A mulher gorda usou o controle remoto e voltou um pouco as imagens da festa de aniversário.
Ao fundo, nas imagens, via-se a calçada do sobrado do casal e, saindo pelo portão do mesmo, havia uma mulher, carregando dois baldes aparentemente vazios.
— Mas essa mulher é... – falou Lena.
— A enfermeira da senhora de cadeira de rodas – completou Augusto.
Saíram sem dar explicações a ninguém e foram direto à casa de sua vizinha.
Uma empregada abriu a porta da casa estilo colonial e eles adentraram pela sala espaçosa. A senhora inválida estava sentada num sofá, folheando uma revista. Augusto foi direto ao ponto:
— Gostaríamos de falar com a sua enfermeira, por favor.
— Oh, sentem-se. Ela está arrumando as malas. Vai embora daqui a pouco. Recebeu uma proposta de um hospital em uma cidade do interior... Parece que o salário é melhor do que o pago por mim. Ou vai ver, ela não me agüenta mais – riu dessa idéia.
— Por favor, senhora – Lena estava visivelmente histérica – mande chamá-la.
Não foi preciso chamá-la, pois ela já se encontrava de pé à porta de entrada de um outro aposento da casa. Ela olhou para o casal e mostrou uma face fustigada pela culpa.
— Por que fez aquilo na nossa cozinha – perguntou Lena, um tom mais alto que o seu habitual.
A enfermeira baixou os olhos.
— Responda – bradou Augusto. – Levarei este caso até as últimas conseqüências se não me der uma resposta coerente!
A mulher respirou fundo e falou:
— Fiz aquilo para tentar livrá-los, afugentá-los daquele lugar, antes que a história se repetisse...
Os soluços da enfermeira embalam as suas últimas palavras.
— Como assim – perguntou Lena, transtornada com o choro da outra.
— Antes do seu sobrado ser construído, havia uma casa menor na qual morei junto com meus pais – fungou e continuou a história. – Houve uma noite em que o meu pai tentou matar a minha mãe estrangulada.
Lena sentiu uma pontada no estômago ao ouvir aquilo.
— A minha mãe, para se defender, matou-o com uma faca. Ela enlouqueceu após isso. Ainda lembro bem da cara do meu pai; não era ele. Estava transtornado e só falava coisas sem sentido sobre uma mulher...
Já era noite quando Lena e Augusto voltaram ao sobrado com um único propósito em mente: sairiam daquele lugar naquela noite mesmo
Uma chuva forte desabou. Os galhos do pé de castanhola, na lateral do sobrado, movimentavam-se como se estivessem iniciando uma dança sinistra naquela noite escura e molhada.


Corpos que balançam


Lena e Augusto estavam mais que decididos: abandonariam aquela casa sem maiores explicações a ninguém. Não iriam ficar ali com toda aquela história macabra e ainda mais depois do que acontecera a Augusto na noite anterior. As malas nem chegaram a ser desfeitas, bastava pegá-las e sair dali para nunca mais voltar. Depois tentariam explicar as causas aos pais de Augusto.
A chuva caia pesada e Lena a observava da porta da frente do sobrado. O jardim, se bem cuidado, ficaria muito bonito, mas ela não pensava nisso nesse instante. Augusto em breve desceria as escadas com as malas e ambos sairiam dali antes que o pesadelo se tornasse realidade, como a enfermeira profetizara. Ela respirou profundamente, aspirando o cheiro da terra molhada do jardim.
Expirou.
Inspirou o ar novamente.
Um odor podre invadiu as suas narinas, dando-lhe ânsias de vômito.
— Meu deus – pensou. – Será algum animal morto?
Lena olhou para esquerda e viu um pedaço da folhagem da árvore sinistra balançando na lateral da casa; aquele cheiro terrível provinha dali. Caminhou pelo canto da parede em direção à lateral do sobrado e pôde enfim ver todo o pé de castanhola.
Dentro do sobrado, Augusto procurava pela esposa. Chegou à sala e viu a porta da frente aberta, a chuva não cessara ainda.
O grito; um grito aterrorizado.
— Lena – Augusto sentiu um tremor por todo o corpo, pois aquele grito fora de sua jovem esposa.
Saiu em disparada pelo jardim e, intuitivamente, foi em direção à frondosa árvore na lateral do sobrado.
— Lena!
Avistou a mulher parada, em choque. O vento soprava cada vez mais furioso.
— O que houve, meu amor?
Ela estava com o olhar perdido a sua frente.
— São eles, Augusto! São eles – disse Lena, o olhar deslizando aterrorizado pelos galhos do pé de castanhola.
— Eles quem, meu amor?
Ela virou a cabeça para o marido, que notou um pavor real na alma dela; um medo que a fazia agir mecanicamente.
— Os corpos – começou a falar, sua voz quase imperceptível – eles estão pendurados nos galhos... Eles estão rindo de nós! Os corpos estão balançando!
Augusto sentiu um calafrio.
— Derrube a árvore, Augusto. Derrube-a!
Algo explodiu dentro de Augusto. Um machado enferrujado descansava encostado ao tronco daquela árvore. Não pensou em nenhum momento que, para derrubar aquele caule grosso, fosse preciso mais que um machado enferrujado. Pegou a ferramenta e, alucinado, desferia golpes violentos no caule do vegetal. Ele ouvia gritos de dor, que pareciam distantes e a cada machadada, um líquido viscoso e avermelhado escorria pelo tronco; a seiva daquela árvore era idêntica a sangue.
Os vizinhos acordaram com os gritos, chamaram a policia e ainda tiveram oportunidade de ver a cena macabra: sob a sombra do pé de castanhola, Augusto chorava agarrado ao corpo destroçado da mulher. A árvore estava ilesa e imponente, regada agora com o sangue de Lena, morta a machadas pelo marido.


***

Augusto foi considerado louco e internado numa clínica. Um dia antes de cometer suicídio ele recebeu uma visita.
A senhora na cadeira de rodas chegou acompanhada por um enfermeiro. Em seguida, pediu para que o mesmo se afastasse um pouco e a deixasse a sós com aquele homem moribundo, que se encontrava solitário sentado no banco de um jardim tão florido.
— Como vai Augusto?
Ele a encarou com seus olhos afundados em olheiras profundas.
— A senhora...
De súbito, uma lembrança veio a sua cabeça: a primeira visita daquela senhora ao seu sobrado, ao maldito sobrado. A campainha soando...
— Diga-me – Augusto falou, sua voz fria e distante. – Como conseguiu apertar o botão da campainha, naquela sua única visita, se o botão ficava em um ponto tão alto. E a senhora sentada nessa cadeira...
Ela abaixou a vista com uma expressão traquina nos olhos e se ergueu do acento e deu alguns passos na direção de Augusto.
— Você não é uma pessoa má, Augusto. Não precisa conviver com essa angustia...
Sorriu para ele, que estava perplexo.
— Achei que devia essa visita ao meu derradeiro vizinho – virou-se para voltar à cadeira, chamando o enfermeiro em seguida.
— Espere – disse Augusto, a voz tensa. – Diga-me o seu nome.
A mulher, com uma expressão de prazer em cada ruga, fitou-o e respondeu:
— Estélvia.



~ Fim ~
Alisson Herbert
Enviado por Alisson Herbert em 27/08/2007
Reeditado em 02/07/2009
Código do texto: T626050

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Sobre o autor
Alisson Herbert
Campina Grande - Paraíba - Brasil, 27 anos
10 textos (7267 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/08/17 23:37)
Alisson Herbert