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Tubo

A insensatez de minha pessoa alcançou o extremo, talvez eu seja um suicida inconsciente, será tamanho desejo de morrer o que me colocou nesta situação?
Arrastava-se no tubo escuro, era onde a ventilação sempre apresentava defeito, claro que não esperava encontrar no caminho aqueles pedaços de carne, nem em seus pesadelos mais terríveis poderia conceber algo carnívoro em tubos de ventilação! Agora, sabendo que seu companheiro, que entrara ali há alguns dias tinha desaparecido cogitava, de fato não era historia o som agoniante de algo se arrastando por ali, e certamente não era mentira também que os vigias que rondavam aquela área dizerem que penas apareciam espalhadas, e que morcego algum voava por ali havia muito tempo...
Continuei me arrastando, tentando em vão não fazer aquele barulho, pois já sentia que algo, em meio aquela luz velada, me observava....
Quando notei estava quase no fim do túnel, não entendo como nada encontrei, sai pelo fim do tubo que terminava no pátio dos fundos, fiquei ali, contemplando a lua, ainda sentindo meu corpo úmido pelo contato com aqueles pedaços de carne...
Quando uma coruja piou ao longe, respirei fundo, tive a certeza de ouvir um respirar próximo de mim, virei depressa para trás. Uma mulher de feições delicada me olhava de perto. Assustei-me muito, cai para trás, ela tinha um olhar parado como a morte. Levantei depressa e estendi as mãos perguntando:
-Como entrou aqui moça, esta área é privada, a menos que seja uma das funcionarias e tenha chegados algumas horas antes do expediente... -sorri, ela continuava apática.
Fiquei olhando para ela por algum tempo, a respiração dela era algo incrivelmente lento, tinha a impressão de que sequer piscava, ficamos ali por alguns segundos, que pareceram uma eternidade.
-Quer que eu te mostra a saída? –segurei-a pelo braço.
Os olhos dela foram em direção a minha mão que a tocava, a carne dela era dura, senti entre meus dedos músculos se enrijecendo! Quando em um movimento muito rápido ela me imobilizou, eu cai de joelhos com os braços travados.
-Não queria ter feito isto com ele...-a voz dela era sobrenatural, era como o canto de um coral eclesiástico!
Eu comecei a tremer, de puro pavor, pois notei neste instante dentes  pontiagudos, ela me olhava agora quase com pena, num misto de arrependimento e desejo, era como se olhasse para um pedaço de carne que prometera a si não mais comer, apesar de suculento! Me soltou, fiquei ali, parado, como morto, parecia hipnotizado, talvez a certeza de nossa fraqueza diante do oponente nos impeça sequer de resistir. Alem do mais, algo me dizia que se eu corresse seria uma presa em fuga, um alvo em movimento, daria um lazer a mais para a fera...
-O que você é?
-Um Upir...
Não entendi, nunca ouvi falar naquilo, fiquei ainda olhando para ela, de fato morrer pelas mãos de um ser tão lindo era macabramente lindo...
-Me dê eu sangue...
-Meu sangue? –fiquei olhando para ela, parecia que implorava!
-Corte seu pulso...
-Mas vai doer...
-Melhor fazer isso, ou então vou te mostrar o que é dor!- os olhos ficaram vermelhos como fogo, a voz de coral ficou demoníaca, e os dentes afiados pareceram crescer.
O problema era que eu n tinha nada pontiagudo o suficiente!
Vendo meu desespero, me estendeu algo que arrancou do pescoço, vi quando em minhas mãos que se tratava de um dente, parecia uma presa de ponta finíssima. Furou minha pele como se fosse algo simplório. O sangue escorreu, ela lambeu com carinho, como se deleitasse com o vinho mais doce. Sugou tanto que comecei a sentir fraqueza, quase tombei, ela me aparou em seus braços. Seus seios eram macios, como almofadas fofas, não pareciam humanos. Sentei ali e observei ela voltar para o cano de ventilação, seu andar era incomparável, a elegância de seus passos prendiam os olhos, fiquei parado ali,s em acreditar... era um grande absurdo...

Passaram-se vários meses, na verdade, exatos 13 meses, e o lugar onde foi feito o furo começou a arroxear, estou preocupado, mas não sei se ir a um medico é uma boa opção. Claro que quando a vejo vagando pelo jardim da fabrica já não me assusto, e fico até feliz que tenham tantos ratos lá, pois meu sangue não pretendo doar. O que eu queria entender era quais os segredos milenares que aqueles olhos guardam, e por que será que quando vou dormir, sempre tenho a sensação de ser possuído por uma força maior que eu que me leva por lugares que nem sei onde é....
T Sophie
Enviado por T Sophie em 27/08/2007
Reeditado em 12/06/2009
Código do texto: T626430
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
T Sophie
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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T Sophie