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As Melhores Intenções

             Zé não acredita.

Se fosse da parte de seus amigos até pensaria que era uma brincadeira de mau gosto, pois eles sempre foram cheios de pregar peças.

Mas como sua amiga Jurema garantia, acreditou.

Sua colega disse que a moça que se interessou por ele, viu a foto da festa de fim de ano no escritório e ficou imediatamente afim.

A tal da Luciana é um avião. E ela parece estar muito afim dele.

- E aí Zé! Vai perder o cabaço hein? - os amigos caçoam.

Zé sorri. Está feliz.

Ele é um sujeito magro e feio. Seus óculos de grossas lentes de grau também não ajudam.

Mas a tal Luciana ficara amarrada nele.

Disse que tudo em Zé é uma gracinha, até mesmo seu tufinho de cabelo branco.

Desde pequeno ele tem aquela mecha branca e nunca a havia considerado bonita.

Tinha sido chamado de “Mechinha” até pouco tempo atrás.

Os amigos combinam de bater um papo em um barzinho após o expediente no escritório.

Jurema se encarrega de levar Luciana.

A noite está morna e divertida quando as duas chegam. Zé vê a garota frente a frente e leva um baque.

- É muita mulher pra ele. – comentam os amigos olhando-a desavergonhadamente.

Os dois logo começam a conversar e ela alisa sua mecha branca muitas vezes.

Logo os dois resolvem se despedir para irem ao apartamento dela. Todos os rapazes do escritório se entreolham, não conseguem acreditar que o Zé faturara uma gata assim.

Saíram em uma Pajero vinho da garota.

Chegando lá o pequeno escriturário fica espantado com a beleza do móvel arejado.

- Quer beber alguma coisa? – pergunta Luciana.

- Hã... Um guaraná...

Ele aperta as mãos de nervosismo e a garota revira os olhos. O cara é um babacão.

Se não fosse por sua missão divina Luciana o expulsaria de lá.

A jovem loira pede que Zé a espere em um sofá de couro vermelho no meio da sala.

- Já volto. – avisa.

O homem olha em volta, a casa fora lindamente decorada com diversos artefatos do século XVII, e na parede atrás dele tinham espadas e machados.

Zé toma um susto quando a iluminação diminui. Apenas alguns plafons iluminam o ambiente com uma fraca luz avermelhada.

Luciana entra. Está visivelmente nua sob a seda negra quase transparente.

Ela carrega consigo o que parece uma longa tira de tecido emplumado branco. E com aquele adereço faz movimentos sensuais carregados de segundas intenções.

Zé sorri, não pode acreditar que aquilo aconteça com ele. Sempre precisou pagar para ter mulheres belas daquele jeito em seus braços.

Luciana começa uma dança exótica e lentamente ela retira o baby-doll negro.

Zé, visivelmente excitado, parece hipnotizado. Não consegue tirar os olhos dela.

Totalmente nua, a moça dá voltas em torno do sofá. E com a comprida peça branca enrola Zé que treme de antecipação.

Ela para atrás dele, encostando o corpo quente e lhe fazendo uma bela massagem nos ombros magros.

Curiosamente o homem pega a comprida coisa branca e a observa bem sob a luz azulada.

É feita, aparentemente, de fios de cabelo brancos  entrelaçados. Fios de comprimentos e texturas diferentes.

Luciana para a massagem.

Zé ajeita os óculos na ponta do nariz adunco.

- Que interessante... É... Cabelo? – quer saber ele.

Ele ouve os passos da garota se afastando atrás de si.

- É!

Ele apóia a mão no queixo, pensativamente.

- São cabelos de pessoas velhas? – ri Zé.

- Não. São mechas de cabelos brancos... – responde ele friamente.

O tom dá voz causa um arrepio nas costas de Zé. Algo pesado arranha a parede quando Luciana o retira.

- E... Como você consegue? – ele está angustiado.

- Só tem um jeito. ARRANCAR FORA! – grita ela.

A luz azulada atrás de Luciana projeta sua sombra que mostra o que ela tem nas mãos.

A sombra do pesado machado de fio duplo do século XVII que cai violentamente sobre Zé.

Nos últimos segundos que lhe restam o escriturário pensa que afinal seus amigos lhe pregaram uma peça.

Uma brincadeira mortal.  O machado desce partindo o crânio de Zé ao meio.

Ele nem ao menos teve tempo de gritar.

Muito longe daquele local os colegas de escritório de Zé se reúnem.

- Que que adianta? Um mulherão daquele e o Zé não vai fazer nada! – ri Alberto, um negro muito alto.

Todos começam a rir e falar ao mesmo tempo, até que Gilberto exige silêncio batendo na mesa.

- Escuta aqui! O Zé é um cara legal e ele merece essa mina!

Todos concordam com a cabeça e o rapaz continua:

- Mas isso não quer dizer que eu não queria estar no lugar dele!

Todos caem na gargalhada e pedem mais uma rodada de cerveja.

No apartamento Luciana pega a pequena mecha e a corta com uma faca. Alucinada começa a gritar com o tufo de cabelos agora tingido de vermelho-sangue.

- Pensou que se esconderia de mim não é? Eu sei que você está escondido aí!

Ela arrasta o corpo até um local que considera seguro. Depois de limpar o apartamento lava cuidadosamente a mecha do cabelo.

A amarra junto com as outras formam uma longa corda branca.

- Agora você está preso demônio!! – gargalha Luciana em sua loucura.

O corpo mutilado do Zé esfria na cozinha vazia.

No bar seus amigos se divertem e brindam a ele:

- Ao nosso amigo e às melhores intenções!

Tim Tim
Saturno o Vampiro
Enviado por Saturno o Vampiro em 09/09/2007
Código do texto: T644534

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Sobre o autor
Saturno o Vampiro
São Paulo - São Paulo - Brasil, 466 anos
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