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Imperfeição

(1). Na livraria

Nunca gostara de contos de terror. A aversão tinha como motivo único bem definido uma imaginação tão forte que o tornava facilmente impressionável, chegando a gerar mal estar físico bem para lá das insónias que afligem qualquer comum mortal. Por isso é com alguma surpresa que entra na livraria e dá por si a espreitar por cima do ombro do homem que folheia. Antes de fixar o olhar ainda pensa que, afinal de contas poderia ter arranjado melhor forma de “matar” o tempo enquanto Margarida, sua filha querida, não chega.
 
O homem que espreita, André, é mais um daqueles aviões de vôo de rota falhada, está pagando caro o rigor desleixado com que sempre encarara os outros na vida profissional e relações familiares. Nunca fora de “engolir sapos” e calar. Mas também nunca conseguira entender o valor de respeitar as devidas hierarquias e proporções. Daí o mal entendido com o chefe do chefe, o tal que levou à chamada repentina ao gabinete do subordinado deste. O discurso suave, cheio de palavras bem escolhidas, incluía as frases que não deixavam margem para dúvidas - Lamento muito mas não existem condições para continuares. Julgo que seria mau para nós e pior para ti – dissera o “chefinho” com aquele ar preocupado, pleno de comiseração.

Em casa a sorte não fora melhor. Depois do início fulgurante a relação com Matilde foi arrefecendo, resistindo como podia à erosão do tempo e ao seu muito mau feitio e excessos ocasionais. Aconteceu o mesmo de muitas vezes - os dois lados seguram a corda e vão puxando, puxando. Julgam que dará sempre para mais um pouquinho. Até que parte de forma mais ou menos inesperada. Naquele dia, chegado ao  apartamento deu com o nada, o vazio. Mais tarde um SMS informou, lacónico da “ida para casa dos meus pais”. Não te preocupes, levei a Margarida, depois o meu advogado contactar-te-á – disseram de forma aparentemente muito  despreocupada as letras pequeninas, redondas, do aparelho.

Entretanto aproveita e vai lendo, de boleia. O companheiro não deu pela sua presença e avança curioso, interessado, para a última história – Perseguição implacável. E vem-lhe à lembrança aquela perseguição vivida por ele próprio. Em silêncio volta uma semana atrás no tempo e conta a si próprio como tudo começou.


(2). Dos incríveis acontecimentos da semana passada

Talvez fosse a solidão, talvez a utilidade do “algum dinheiro extra”. Só sabe que dá por si folheando os anúncios do “vespertino”, a vista percorrendo em ziguezague, os olhos atentos a qualquer oportunidade. Foi assim que encontrou aquele insólito que se lhe cabia e assentava como uma luva. Rezava o texto “O candidato deverá ser homem de meia-idade, bem parecido, desempregado e livre. São quinhentos euros para um 'casting' ”. Ligou, nervoso e seguiu à risca as indicações, a coisa ficava lá para o bairro da Lapa, bem perto da Rua das Trinas.

O apartamento era direito de terceiro andar e a campainha, de tão ineficiente por certo seria muda ou cansada. Estava quase a voltar para trás quando aconteceu

- André Valadares? - perguntou a voz

- Sim, sou eu – atirou, ao que o outro som retorquiu – Olhe, não nos
  conhecemos mas existe algo que lhe quero propor. Vale bem
  quinhentos euros. Ah... pode chamar-me Ana.

Virou-se e viu-a. Alta loira e elegante, óculos escuros da moda, devia andar pelos seus trinta e cinco. Vestia de forma prática, impecável a combinação das cores.

Seguiram em silêncio por duas ou três ruas até encontrarem a porta do pequeno apartamento, quase quarto e sala. No meio, a mesa posta e o ambiente romântico sugerido pelo par de velas não causavam estranheza ao homem baixo, um tailandês entroncado que vestido a rigor se preparava para servir o “Quinta da Bacalhoa” com todos os qui-pro-quo de cerimonial.

- Faça o favor de sentar, disse outra vez a voz - sentaram e a
  conversa iniciou.

A curiosidade da anfitriã era enorme e avançava e alcançava, casava bem com a sua solidão.  De tal modo que ficou a ver com espanto o desfilar despudorado da sua vida, ao ritmo e toque das palavras que eram lançadas e deixadas à sua sorte - umas atrás das outras. Passaram os anos da infância feliz e despreocupada, os tempos de Universidade de borgas e amores e professores austeros. Passou a morena tímida que se chamava Matilde e estudava biologia e a festa onde proferiram ambos os votos solenes e cortaram o bolo e beberam champanhe cruzado após inaugurarem a pista de dança com a valsa. Passou uma barriga em crescendo que, chegado dia do parto se esvaziou na felicidade de pegar o rebento rosado e chorão. Chamar-lhe iam Margarida – nome da avó materna. E chegaram depois, enfim os tempos maus. As dificuldades, as discussões, o acomodar mútuo, a incompreensão partilhada. Chegou o dia que tinha marcado os sentimentos da sua vida mais recente. E quando atingiu este ponto, subitamente a voz calou-se. Tinha passado uma hora cheia, ele ali a falar, falar, falar. À sua frente a mulher escutava atenta. De vez em quando parava e baixava o olhar para tirar anotações no pequeno caderno.

- Senhor, obrigado pelo seu tempo, aqui tem – estendeu-lhe o
  envelope com dez notas de cinquenta.

Que felicidade de dinheiro fácil! Se fossem necessárias mais histórias era só dizer – pensou. Estava neste diálogo interno consigo mesmo quando foi invadido pelo torpor e seu corpo cedeu aos truques de um vinho bom mas adulterado.

São cinco da madrugada quando acorda e ergue o olhar. À sua volta o grupo de miúdos com ar rufia, segura os dois “Pit Bull”. O que parece mais velho avança e diz

- Ouve lá ò cota. Aqui é tudo gente boa, do melhor. Por isso vamos
  fazer um trato contigo.

- Hmmm... que trato, onde estou? - em frente o descampado da lezíria.
  Ao fundo, a uns bons quatrocentos metros. a cerca de arame era
  interrompida por um portão.

A gente quer ver como corres, se és como o Obiquelo. Por isso vais fazer uma corrida aqui com os meus dois primos – os primos olhavam ansiosamente, dente afiado, língua de fora.

O magricelas, de óculos, saiu do grupo. Encarou-o, mirou-o de baixo a cima e disse.

- Ei, assim não vale. O gajo está em tão boa forma que os animais não
  terão a menor hipótese. Vamos ter de desgasta-lo um pouco.

Formaram um círculo de onde choveram pontapés e pauladas, transformando-o ao fim de uns minutos naquela massa física desgraçada que implorava descanso. Olhou para cima mesmo a tempo de ver o “caixa de óculos” sorrir e dizer

- Agora sim, o avozinho já está em pé de igualdade com os cães. Mas
  se ele for bom desportista damos-lhe uma vantagem adicional.
  Façam-lhe a pergunta.

A mente confusa começou a imaginar alguns testes possíveis à sua memória e imaginação – Quem eram os “cinco violinos”, em que ano o “Boavista” ganhou o seu primeiro campeonato”, qual era o nome do recordista mundial do triplo salto, todas estas questões surgiram e se impuseram como fortes candidatos, fortes possibilidades. Finalmente quando ela, a questão, chegou, descobriu como se tinha enganado e avaliado mal os interlocutores. Os putos estavam para o desporto como para a  história aquele aluno que, em visita ao Museu do Azulejo e perante o painel magnífico, que mostra a Lisboa anterior ao terramoto de 1755 pergunta – Ó sotora, onde é que fica aí o estádio do Belenenses? Desta vez a questão era bem simples: Qual dos três era o melhor? O Benfica, o Porto ou o Sporting?

A resposta era evidente – o Benfica, com todo o seu historial, levava grande avanço em títulos sobre os outros dois. No entanto era importante que lhes desse o que eles queriam. Jogou mentalmente ao “cara ou coroa” e saiu Porto. A voz fez-se ouvir outra vez – Muito bem, parece que tens a lição bem estudada. Damos-te uma vantagem de... duzentos metros.

E foi lançado para a frente. E correu como um louco, não se atrevendo a olhar para trás. E chegou a pensar que ia conseguir. O portão estava já tão perto, quase ao seu alcance quando sente algo agarrar e puxar a perna esquerda. É uma fracção de segundo após a qual sente o osso a partir como se fosse mero bambu de um qualquer canavial. Mas não se preocupa com isso nem com o sangue que jorra livre dos vasos sanguíneos dilacerados. Preocupa-se mais com o segundo primo, o qual o alcança, atacando num ápice. Ainda coloca as mãos na frente, enfrentando investidas sucessivas das mandíbulas que abrem e fecham e puxam e rasgam. Mas a dor aumenta e é impotente para resistir muito tempo aquela vaga violenta que avança e encontra finalmente o ponto vital, partindo o frágil pescoço. Antes de se ir ainda consegue ouvir ao longe a voz da loira a dizer – Muito bem, rapaziada, aqui está a vossa parte. Agora é comigo.  Isto nunca aconteceu. Nem um pio.


(3). De volta ao livro

Continua a ler. Para descobrir como o personagem principal é lhe estranhamente familiar. Alto lá. Familiar não! É ele, mesmo ele que está ali escarrapachado palavra a palavra, em página de papel. Horrorizado observa o sorriso de satisfação do leitor que fecha o volume e se dirige, decidido para o balcão. O livro é excelente, o conto tão verosímil e cheio de sensações. Vai comprar. Tem de comprar.

Então descobre sobre seu estado actual. Sabe que a Guidinha não virá pois ele também já não está. E sente aquela dor imensa dos que são e não são, que ainda recordam a vida que foi e já nada podem fazer.

Ainda grita ao outro que não gaste o dinheiro em porcarias, que a autora é um embuste e uma assassina. Sem qualquer sucesso. Afinal de contas ele é um fantasma principiante. E não é para principiantes a capacidade de causar manifestações físicas perceptíveis, chamando a atenção dos vivos.


(4). Prólogo

Liliana, a mulher loira que afinal nem se chama Ana está à varanda de seu apartamento de luxo na zona nova da cidade – o Parque das Nações. Bebe um vodka a golos espaçados enquanto enche o olhar com a actividade bela e caótica dos que vêem e que vão junto aos jardins na margem do Tejo. É uma “contista” das boas. Escreve contos. E como qualquer autor, não é perfeita; tem um calcanhar de Aquiles bem fundo - a criação de personagens verosímeis. Mas com o método engenhoso que encontrara para contornar esta imperfeição, ironia das ironias, logra até ser reconhecida e obter distinção pela construção cuidada e verosimilhança dos mesmos.

Ao que parece, o seu novo livro, uma colectânea de histórias de terror onde podemos encontrar títulos como “O Estripador”, “A morte dos gêmeos inocentes”, “Acidente premeditado” e “Perseguição implacável”  está fazendo muito sucesso. Liliana sorri, olha o sol que se põe vagaroso por detrás das costas da estátua do “Cristo Rei” e tenta imaginar como serão seus próximos textos. Uma coisa é certa. Sabe que não serão contos de amor.
José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 26/09/2007
Reeditado em 26/09/2007
Código do texto: T669290

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
155 textos (7495 leituras)
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