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2010 - Saturno o Imperador do Mundo



Faz quase um mês que eles percorrem as florestas da Amazônia. Por duas vezes têm que se desviar do trajeto original para escapar dos Lupinos.
- Malditos Lobisomens! – reclama Saturno em voz baixa.
Acompanha Lars em sua expedição e leva também sua inseparável companheira Ângela

Lars é um vampiro franzino, com cabelos cor de palha descorada, arqueólogo e geógrafo há quinhentos anos. É um inglês refinado que não desgruda de sua pastinha de couro usa terno de Tweed e nunca esquece o chá vespertino.
O inglês ouviu a lenda de Picho-aka pela primeira vez na época de Eduardo III em 1329, Diz à lenda que um poderoso imortal existiu em algum lugar da América do Sul muito antes do aparecimento dos Maias.

Conta-se ainda que este magnífico senhor da noite talvez usasse um elmo místico de ouro puro que o tentava continuamente e lhe garantia imenso poder.
Mas Picho-Aka já era um vampiro Arcano naquela época e muito sábio, pelo que resistiu a todas as tentações.

Cerca de 1000 a.C ele sumiu e a civilização Maia começa a engatinhar.

Os três imortais se esfregam toda noite com a seiva de uma erva que – esperam eles – confunde o apurado olfato dos homens-lobo.
Lars armara essa expedição com o intuito de descobrir os tesouros de um dos vampiros mais velhos do mundo.
Ângela embarcara nessa para acompanhar seu amor e Saturno ainda se perguntava como havia caído no papo mole do Inglês.

Certa noite estrelada, após se alimentarem de uma grande e gorda anta os filhos-da-noite escutam ruídos vindo em direção a eles.
O índio sente os cabelos da nuca se arrepiando. E isso não é um bom sinal.

- Angel. Lars. Vocês se cobriram com a seiva?
O rapaz de longos cabelos negros murmura.
O som do vampiro Inglês engolindo em seco foi resposta suficiente.
- Merda! CORRAM! – grita Saturno.

Disparam pela mata e uma dúzia de Lobisomens salta de entre as árvores.
Apesar da alta velocidade dos vampiros os lupinos se deslocam melhor na mata fechada.
Ângela começa a ficar para trás e seu companheiro a agarra pela cintura.

O pé de Saturno falseia e ele cai junto com Lars e a vampira. Rolam ribanceira abaixo e terminam em um descampado.
Ângela cai dos braços do índio e a primeira coisa que ela vê é uma torre.
- Impossível... – sussurra o filho da noite de cabelos amarelos.

Uma cidade com todas as aparências pré-colombianas naquele lugar era simplesmente impossível.
Todos os sítios arqueológicos estavam na região que envolve a Guatemala ao México.

O Inglês franzino já corre em direção às ruínas. O braço esquerdo do vampiro brasileiro havia sido perfurado por um toco de madeira pontiaguda.
Os Licantropos saltam pela mata correndo em direção aos vampiros.

O índio arranca o toco atirando-a contra o Lupino mais próximo. A besta cai.
A garganta atravessada pela estaca de madeira.
Os grandes lobisomens estão cada vez mais próximos.
Chega a sentir as garras roçando sua pele.
Vendo que os outros dois imortais já estão longe resolve fugir; quase agarrado Saturno pula, caindo ao lado de Ângela.

Volta a agarrá-la com o braço ferido. Grunhe de dor.
Olha para trás e nota que o licantropo que acertou, já está novamente de pé.
A fera espuma de tanta raiva.

- Era só o que me faltava...
Os homens-lobo avançam rapidamente enquanto os três imortais tentam buscar desesperadamente a cidade talhada na pedra.
  A algumas dezenas de passos da cidadela os Lupinos param bruscamente. Estavam a poucos metros de alcançá-los.

Lars continua correndo, mas Saturno logo percebe que eles deixaram de persegui-los.
- O que está acontecendo?
A vampira está confusa.
- Não sei... Mas não é bom...
O índio sabe que quase nada no planeta dá medo em um lobisomem.

Os Licantropos pararam na elevação de uma colina. De lá urram e uivam de frustração.
De longe o Inglês observa ofegante, já próximo às colunas da cidade.
Apesar da insistência da garota que o agarra e tenta detê-lo, o rapaz de longos cabelos negros se aproxima mais e mais dos lobos-homens.

- O que foi? Por que pararam?
As feras urram e jogam poeira para o ar.
Um dos lobos com o pêlo rajado de cinza grita:
- Não lá! Lugar ruim!Lugar morte!

Saturno se volta para a construção imemorial. Seu sentido indígena já havia lhe alertado que havia algo de errado lá.
- Vem! – implora Ângela.
O vampiro vira as costas para os lobisomens.
Aquele lobo que ainda está com a estaca de madeira encravada no pescoço a arranca e atira contra Saturno.

Mira no coração.

Saturno ouve o pedaço de madeira zunindo no ar em sua direção e vira a tempo de pegá-lo.
Solta uma risada desdenhosa e atira o toco no chão.
Os Licantropos uivam com ódio extremo.

Sabem que o que for que exista na cidade tem o poder de acabar com tudo o que há na Terra.
Ângela e seu amado voltam para junto de Lars.
- O que achou aqui? – pergunta a garota.
- Civilização pré–Maia. Totalmente desconhecida!
Continuam a jornada entrando cada vez mais fundo para dentro da cidade.
A vampira ainda deu uma olhada para trás.

Os lobisomens ainda urram ao longe.
Penetram entre os blocos de pedra repletos de alto e baixo-relevos.
Lars retira da maletinha de couro um mini-gravador e começa a enumerar o que vê.
Os três chegam à entrada de uma imensa pirâmide.

Após apreciarem a grandiosidade do lugar eles entram. Andam um bom tempo pelos complexos túneis.
Olham todos os salões abandonados alguns com arcos enormes. Devassam todas as criptas e não encontram sinal algum do vampiro ancestral.
Apesar de levemente decepcionados continuam a caminhada visto que não podem abandonar a cidade.

Ao dobrarem um corredor escuro Saturno se impressiona com uma Estela decorada com rubis vermelhos e elmo de pedra.
Enquanto o Inglês e Ângela continuam, ele inadvertidamente toca um dos olhos de pedras preciosas.
  O índio se espanta, pois ao mesmo tempo em que os olhos da estátua afundam sua boca de pedra se abre.

Dois belos dentes de calcário aparecem.

É uma clara representação de um vampiro.
- Ei. Olhem isso aqui! – grita o rapaz de longos cabelos negros.
Um estrondo enche os corredores e uma enorme parede de rocha o separa dos outros dois vampiros.
Consegue ouvir Ângela e Lars gritando do outro lado da parede.

- Merda! Merda! Merda!
Olha atrás de si. No local onde estava a Estela, uma abertura.
Olhou através da densa negritude. Uma longa escada circular que parece descer até as profundezas da Terra.
- Quem sai na chuva é pra se molhar...
Suspirando, o vampiro índio começa a descer.

Em alguns pontos a escuridão é tão impenetrável que mesmo com sua ótima visão noturna, o imortal tem dificuldade em descer.
A escadaria termina e Saturno segue adiante por um longo corredor escavado nas entranhas da montanha.
Uma câmara guarda um segredo dos olhos dos humanos a muitas eras.

Sobre um altar um crânio e sobre este um elmo.
O penacho de aves raras havia se decomposto há muitos séculos, sobrara apenas o capacete de ouro batido com uma fileira de rubis na linha da testa.
O brasileiro fica impressionado. Não pelo provável valor da peça, mas sim pela sua antiguidade.

Ele toca o capacete coberto por uma espessa camada de poeira.
Seu leve toque produz um efeito imediato.
Dois olhos incandescentes se abrem dentro do crânio morto.

Mesmo seu reflexo vampírico não o livra. Saturno fica a mercê de um poder Arcano.
- Pequenino? Use-me para a sua glória! – ordena o Elmo.
Mesmo se sentindo fraco e desorientado o índio ainda tem forças para resistir:
- N-Não... Quem é você? O que é você?

Após alguns segundos e Elmo se digna a responder:
- Pequenino... Já era Arcano quando aparecestes na face da Terra! Fui um dos barqueiros do Eldorado, em seus dias gloriosos de caminhada sobre este orbe!
O vampiro tenta se livrar da nefasta influência, porém o Antigo elmo tem um poder milenar.

- Eu não quero usá-lo! Não quero mal a ninguém!
O rapaz de cabelos negros grunhe e sua tentando sair do lugar, mas está imobilizado.
- Mal? O que é o mal? Apenas vou lhe dar o poder para realizar o que quiseres... O que resultar dessa escolha é responsabilidade Tua!
  O vampiro sua, sente que aos poucos aproxima o elmo de si.

- E o que quer em troca? – quer saber o índio.
Aquela pergunta parece confundir a peça, pois demora alguns segundos para responder e afrouxa um pouco a pressão sobre seu cativo.
- És sábio pequenino... Quero apenas um lugar ao sol outra vez...
Saturno sente que está sendo enganado.

- Não! Não quero te usar! Estou bem assim!
O vampiro sente - como se fosse possível – que o artefato arcano ri.
- Deixe-me mostrar o que poderia ter sido então!

O indígena é embriagado por sons e aromas nunca experimentado antes.
Começa ater visões que logo se firmam e se se tornando claras como o dia.
  Seu corpo está maior e mais poderoso.

Em instantes leva voando uma surpresa Ângela e um amedrontado Lars ao seu lado, chegando próximo aos Lupinos pousa suavemente.
Eles urram e parecem ameaçadores, mas não ousam atacar, as caudas entre as pernas.
Saturno dirige-se ao maior deles, o líder obviamente.

- Desejo falar com o mestre de seu Clã.
Dois dos lobisomens – ávidos de sangue – sacam seus sabres toscos enfiando-os na carne do índio.
O imortal apenas sorri.
- Tolos... – murmura ele.

Toca suavemente os dois Licantropos que o atacaram e eles começam a se desfazer sob seu olhar severo.
O corpo físico do rapaz de longos cabelos negros cresce imperceptivelmente ao absorver a anima das duas criaturas.
Ele sorri de satisfação.

- Agora, por favor. Leve-me ao seu mestre...
Os lobos-homem o escoltam com uma mistura de medo e admiração até o senhor de seu clã.
Um velho e vigoroso Lupino o mede de alto a baixo farejando-o.
- O antigo Mal foi liberado... – lamenta o líder.
- Engana-se Ancião! Devolverei aos seres míticos o seu lugar de direito! Trarei a paz a este mundo!
Apesar da eloqüência o lobo não parece muito certo disso.

A tribo de feras não levanta uma garra contra eles e os três se vão.
Em segundos estão na cidade de São Paulo, o sol prestes a nascer.
  - O que aconteceu? Como viemos tão rápido?
Lars está espantado e muito amedrontado.
- Sá! O SOL!
A garota também fica extremamente agitada.

O imortal apenas sorri, sabe que o astro-rei não lhe fará mal.
E nem a quem ele queira proteger.
Segura os dois com mais força.
- Me largaaaaa! Eu vou morreeeeer!
Ângela apenas fica em silêncio e retribui o abraço de seu amado. Confia cegamente nele.

O Sol passa sobre os três vampiros.
Eles estão sobre uma calçada em plena Avenida Paulista.
O Inglês histérico tenta se soltar, batendo e mordendo Saturno, como uma criança espancando um rochedo.

Derrepente pára e olha em volta, maravilhado.

- Estou vivo?
Lars se apalpa como se estivesse em um sonho.

Os três andam pela cidade que começa a despertar. Os humanos no metrô voltando da balada noturna olham Saturno com curiosidade.
- Cada doido por aí... – sussurra um Clubber de cabelo rosa shocking.
O índio não retira o Elmo, fonte de seu poder.

Subitamente ele olha para Ângela:
- Gostaria de ser humana novamente?
Surpreendida pela pergunta ela não sabe o que dizer.
Não que ela duvide de que ele tenha esse poder, só não sabe se conseguiria ser mortal novamente, depois de experimentar o néctar delicioso que é o sangue humano e a força dos imortais.

- Quero continuar com você...
Saturno sorri. Não esperava outra resposta da parte dela.
Nas semanas seguintes toma as rédeas do governo no planeta inteiro.

Ele detém esse poder.

Julga todos os seres que cometeram crimes contra seus irmãos.
Aos irrecuperáveis, absorve sua energia vital.
Quando termina o que julga ser uma limpeza, um expurgo, seu corpo físico têm sessenta metros de altura.

Comprime sem dificuldade seu corpo, andando entre seu rebanho com aparência normal.
Caminha pelo mundo inteiro tendo Ângela ao seu lado.
Os seres humanos ao mesmo tempo em que lhe prestam tributos também o temem por seu imenso poder.
Toda a sorte de seres místicos agora se mistura abertamente aos mortais.

É inevitável que logo tudo fuja ao seu minucioso controle. Os primeiros a se voltarem contra o Deus-vampiro são os Iniciados e os Despertos.
Magos e bruxas, santos e iluminados, detentores de poderes sem igual.

Eles atacam primeiro. De surpresa.
Pego desprevenido, o Senhor dos Vampiros quase é derrotado.
Porém depois, furioso, acaba com todos os Despertos.

Absorvendo-os, seu poder se torna sem limites.
Como o velho líder dos Lupinos profetizara, o Mal foi liberado.

Saturno torna-se sombrio.

Ouve continuamente os lamentos das almas, que guarda presas em sua essência.
Enxerga conspirações e complôs em todo lugar, pune qualquer inocente arbitrariamente.
Todas as criaturas, seres místicos e mortais voltam-se contra ele.

A China atira uma bomba atômica que é engolida vorazmente pelo índio.
Enfurecido Saturno devora a todos, acabando com a nação mais populosa da Terra.
Em um ataque desesperado todo o planeta o ataca da maneira que pode.

Lobisomens escalam os oitocentos metros de altura que formam a torre vampira de seu inimigo.
Os vampiros tentam chupar o sangue cavando a pele de um metro de espessura.
Os humanos atacam com toda sua artilharia.

Enfurecido além dos limites da imaginação, o imortal os devora a todos.

Sente então a alma de Ângela, sua amada imortal, contorcendo-se em agonia.
Ele não consegue libertá-la. Está fundida junto a si.
Não consegue libertar nenhum deles.

Seu sofrimento e angústia não têm limites. Culpa a si mesmo, a todos os seres viventes e a Deus também.
Expande seu corpo até ficar maior que o planeta sugando todas as almas restantes.
Quebra o globo entre as mãos como um torrão imundo.

Suga ao próprio Sol devastando toda a energia que encontra em seu caminho.
Estende seu corpo aos limites conhecidos de nosso universo. E o ultrapassa.
Suga galáxias e mais galáxias em sua passagem.
Seu tamanho é incomensurável.

Quando nada mais há para devastar sente uma poderosa presença diante de si.
Tenta atacar ao próprio Deus acreditando-se Superior, mas é imobilizado como um mosquito.
Só então percebe como é fraco e pequeno em comparação a ele.

Saturno, o carrasco de todos os universos.
Nada é frente à glória de Deus.

A voz alienígena fala diretamente em sua mente expandida por todas as consciências existentes.
- “Grande é seu pecado. Grande será a punição”.
A voz é sem inflexão. Sem emoção alguma.

Saturno é arrastado por um turbilhão que parece durar uma eternidade.
Derrepente para.
Tudo em volta é escuridão.

Ele se move lentamente. Cada batida de seu coração inumano leva mais tempo do que a existência do universo.
- Isto não aconteceu... – avisa uma voz melíflua.
Saturno se vira, levando para isso várias eternidades.
Um belíssimo homem louro de traços delicados está a sua frente.

- Quem é você?
Cada palavra de cada sílaba demora mais do que o aparecimento e declínio de toda a raça humana.
O homem sorri. Seu rosto é luminoso, mas algo nele emana o Mal.

- Saturno... Você ainda pode desistir. Isto não aconteceu. Eu pelo contrário, já estou aqui à mais tempo do que tudo pagando minha afronta...
Ele se vira de costas para partir. Os cachos anelados na altura dos ombros.

O índio vê claramente duas feridas que sangram ainda no local onde estivera um par de asas.

Aquele não é outro senão Lúcifer.
- Lembre-se! Não ponha o Elmo! – avisa o anjo caído afastando-se no nada.
Saturno grita. E com toda a força possível rira o artefato Arcano.

Ele pisca.
 
  Ao abrir o olho está no mausoléu. Encharcado de suor.
Está a poucos centímetros de usar o Elmo.

Joga o artefato perverso sobre o altar cerimonial.
- NÃÃÃOOO! – urra a peça maligna.
Dois olhos luminosos começam a arder dentro do elmo.

Em instantes o rapaz de longos cabelos negros sobe a escadaria imersa na penumbra.
A cidade começa a tremer e a parede bloqueada desaba.
O mais rápido possível o vampiro índio abandona a pirâmide.
Vê sua amada e praticamente voa a seu encontro.

- Cadê o Lars? Vamos sair fora!
Ângela está muito assustada e agarra seu companheiro com força.
- Ele voltou pra te procurar!

A pirâmide desaba. Junto com o resto da cidade.
- Ah merda!
Os Licantropos deixando o medo de lado começam a avançar em direção aos dois imortais.

Ângela e Saturno sacam suas armas.

Uma tremenda explosão atira pedaços de rocha em todas as direções. Todos vão ao chão.
Vários metros abaixo do solo um poderoso ente adormecido mexe-se em seu sono de séculos perdidos.
A garota puxa seu homem e logo em seguida um enorme bloco cai no local onde estavam.
Um lobo-homem não tem a mesma sorte e é esmagado pela enorme cabeça de uma estátua.


Recuperando-se imediatamente, os dois filhos da noite se preparam para fugir.
De dentro da pirâmide explodida um facho de luz alcança o céu, rompendo o negrume da noite.
Uma figura sai flutuando de dentro do lugar.

É Lars.
Está maior.
Usa o Elmo.

Os Lupinos recuam alguns passos, temerosos.
- Lars! Tira isso agora! – grita Saturno.
Sente-se certo desespero na sua voz.

O vampiro inglês gargalha.

- Agora que consegue o que querer?
Os dois imortais crispam as garras. Haviam sido enganados.
Lars fizera com que acreditassem que buscavam um vampiro ancestral.

- E Picho-aka? – grita Ângela.
O sugador de cabelos amarelados volta a rir.
- Vocês achar que ele existe? Mesmo que a lenda for verdadeira, ele já se decompôs assim como estas malditas ruínas.

Sem aviso Saturno avança sobre seu ex-companheiro de expedição com a velocidade de um raio.
- Vou arrancar isso! Por bem ou pro mal!
Fazendo um simples gesto Lars atira o índio longe.

O vampiro brasileiro se levanta. Fica muito espantado ao ver o Inglês a sua frente.
Saturno leva um soco no estômago que vara seu corpo e voa quase um quilômetro no ar.
Imediatamente o Inglês está junto dele.
- Não sei como você teve coragem de recusar uma dádiva como essa... – censura Lars.

Por trás do índio acerta-o violentamente.
O vampiro cai entre os Lupinos.
As feras se afastam ganindo.

Saturno tenta se levantar apalpando as tripas soltas.
Vários metros abaixo do solo um ente adormecido há milênios abre os olhos.
Lars agarra o vampiro índio pela cabeça.

- Sabe... Eu sempre te odiar. Você sempre ser melhor em tudo, filho de Euronimous!
Um dos Lobisomens, pouca coisa mais corajoso do que os outros, crava um tosco sabre nas costas do Inglês.
Lars o olha e sorri.

Assopra de leve e o Lupino vira um bloco de granito.
O ente começa a subir rumo à superfície.
- Agora eu ter o poder pra te matar! – sorri Lars.
Começa a apertar a cabeça de Saturno.

Seus dedos começam a afundar no crânio do vampiro índio.
- Pára! – grita a garota.
A vampira empurra o restante do sabre que sai pelo peito de Lars.

O Inglês olha a garota com o canto dos olhos.
- Não ser inconveniente, mocinha...
Com um gesto atira Ângela longe.

A imortal cai rolando com os braços torcidos em ângulos impossíveis.
- E quanto a você... Não merecer minha atenção...
Saturno cai de joelhos. Sabe que não pode enfrentá-lo.

O vampiro inglês caminha falando sozinho.

  - Vocês ser menos que nada... Posso escravizar o mundo! Não! O universo! – grita Lars apontando os céus.
Uma voz ordena o contrário:
- Não.

Todos se voltam ao sentir a aura milenar.
Um senhor de barba e cabelos compridos com traços inegavelmente indígenas.
Usa um tipo de camisolão de lã grossa, desfazendo-se com os séculos de uso.

- Posso saber quem você?
Lars destila desprezo, porém sente um pouco de curiosidade.
Quem é aquele que desafia seu recém-adquirido poder?
- Eu Sou Picho-aka. – responde serenamente.
Pequeno e magro, esse vampiro arcano não têm uma aparência poderosa.

Mas sua aura é muito antiga, mais antiga do que qualquer um deles já tenha visto ou sentido.
O poder nos torna arrogantes e com os vampiros não é diferente.
- Ah é? Cai fora seu índio sujo!

O ancestral avança tão rápido que não passa de um vulto.
Derruba Lars que fica furioso.
- Quer ver quem é mais forte então?
O inglês começa a atacar Picho-aka com força jogando-o por terra.

O velho vampiro é duramente espancado. Acaba no solo lamacento.
Com um sorriso de desdém o vampiro britânico se aproxima.
- Acredito que os inferiores devem pedir perdão...
O Arcano levanta o rosto. A barba suja de terra.

- Também acredito.
Picho-aka se levanta.
Cruzando os braços o Inglês espera.
Saturno e Ângela apenas observam impotentes.

O vampiro Ancião salta arrancando o Elmo de Lars.
Junto sai também um bocado de cabelo e pele, pois o artefato estava quase se fundindo ao vampiro de cabelos cor de palha.
- NÃO! Maldição!
Ele tenta agarrar o Arcano sem sucesso.

Picho-aka coloca o Elmo da Realidade.
Por um instante seu corpo estremece e resplandecendo em seguida cresce quase um metro.
Repele o aterrorizado vampiro inglês.
- Eu te dou meu perdão. – avisa o Ancião.

O corpo de Lars, perdida a fonte de poder, murcha como uma bexiga furada.
A garota de cabelos encaracolados e Saturno se aproximam de Picho-aka.
Inquietos, os Lupinos apenas gemem de terror e confusão.

- Gostaríamos de conhecê-lo! – pede Ângela.
O velho vampiro de desvanece no ar e suas palavras ficam com a brisa leve:
- Mais tarde... Haverá muito tempo ainda...

Eles olham em volta, estupefatos, sua presença marcante sumira.
  Lars corre em direção aos companheiros. Cai de joelhos.
- Saturno! Grande amigo o Elmo me dominou! Não era eu falando!
Ele suplica pateticamente.

Ângela saca a sua machadinha, furiosa.
O vampiro índio a contém.
- Temos coisas mais importantes para nos preocupar agora... – sussurra.
Percebendo que Picho-aka se fora, os Lupinos os cercam ameaçadoramente.

Eles avançam e apesar de lutarem furiosamente por suas vidas são subjugados e aprisionados.
Um imenso lobo-homem preto começa a afiar um pesado machado de batalha.
Súbito ele pára. Farejando o ar.

Pouco depois, diversas pegadas chamam as suas atenções.
O mestre do clã dos Licantropos e dezenas de lobisomens vêem em sua direção.
Após ser informado do acontecido fareja os vampiros feridos.

- Você usou o Elmo?
- Não. – Ângela está sendo sincera e ele percebe.
Dirige-se para Saturno:
- Você usou o Elmo?
- Não. Eu não quis aquele poder maligno! – responde o índio baixando os olhos.

A velha fera se coça um pouco se vira para o inglês.
- Você usou o Elmo?
Lars se fez de vítima:
- Ele me dominou! Eu não queria... – se lamuriou ele.

O chefe lobo se apóia em seu cajado e vira as costas peludas para os três.
Delibera um pouco e logo dá seu parecer.
- Solte os dois. Empalem o que portou o Elmo Maldito para ser encontrado pela manhã! – ordena o mestre dos lobos.
Saturno se despede maldosamente do Inglês que chora e implora clemência.

Quando o índio e sua garota se viram dão de cara com a matilha de aparência ameaçadora.
- Vamos te escoltar até o final da nossa floresta... Não volte. Não será bom para você... – avisa um grande lobisomem de pelos dourados.

Saturno engole em seco.
Caminham por muitas semanas até chegarem às imediações de uma cidade ribeirinha no Amazonas.
Após serem abandonados pelas feras vão de barco até Manaus.
Voltando de avião para São Paulo, Ângela levanta uma questão:

- Se você e o Lars foram seduzidos, ou melhor, corrompidos pelo Elmo, o mesmo não vai acontecer com Picho-aka?
Saturno pensa por intermináveis segundos antes de responder:
- Não tenho certeza. Mas além de muito poderoso ele é muito sábio. Coisa que eu não sou...
Os dois seguem o restante da viagem em silêncio.


Fim
Saturno o Vampiro
Enviado por Saturno o Vampiro em 27/09/2007
Código do texto: T671559

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Sobre o autor
Saturno o Vampiro
São Paulo - São Paulo - Brasil, 467 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/10/17 21:22)
Saturno o Vampiro