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O velho carvalho

ÁRVORES antigas. Nunca confessei a ti meu fascínio pelas árvores dos velhos. Meu avô cuidava de um velho carvalho na fazenda, que apelidara de  Sinista. Seu Sinista, como a gente costumava chamar, era uma planta com ares de rabugice. Nenhuma folha, nenhuma flor, nada crescia naquele corpo. Parecia morto, mas nunca apodreceu. Nunca sequer um cupim ou mesmo um pica-pau mordeu a pele, que estava negra e rígida, mesmo com o passar do tempo.

Morávamos no interior. Evidentemente que as lendas acerca do Seu Sinista eram diversas, muitas até mesmo cômicas. A brincadeira das crianças consistia justamente em subir no tronco do velho e ver a vista que proporcionava. Era divertido, mas meu avô dizia que seu velho amigo se cansava de tanta criancice. Evidentemente que nunca dei muita bola para isso.

Cresci, longe do campo. Meus pais mudaram para uma cidade grande. Cresci adoentado em tecnologia e digitalismos, perdi aquela vontade louca de brincar em cima de uma árvore ou mesmo de pular corda. Fiquei até mesmo mais apático, achava pouca ou nenhuma graça naquelas meninices de garoto de interior.

Com vinte e três anos meu avô parte para outro local. Tivemos um enterro simbólico, uma vez que nunca encontramos o corpo. Foi triste, mesmo com quase uma década de ausência, a morte daquele senhor afligia minha alma. Sentia por ele um amor muito próximo daquele que sinto pelo meu pai e pela minha mãe, juntos. Lembrava das histórias e das coisas que fazíamos juntos.

Seis dias depois recebi um telefonema. Era do escritório de advocacia lá do interior. Com isso sabia que tinha algo relacionado com aquele bom velho. Parti até lá. E descobri que tinha uma herança. Aquela casa, aquelas terras e o Seu Sinista eram todos meus. E deveria ir até a fazenda, para protocolar a papelada. Estranhei. E depois vi que era um dos desejos extravagantes de meu querido avô.

Quando fui até o local, algo estranho aconteceu. Começava a chover de forma intermitente, parando meu carro. Peguei um guarda-chuva e segui os dois quilômetros restantes, pois não havia mais nenhuma casa perto antes da do meu avô. Chegando lá, encontro um bando de jovens cortando o Seu Sinista. Eram os garotos com quem eu brincava e hoje, já moços, depredavam a memória que eu tinha daquele velho. Vi seus machados cortando o Seu Sinista e a cada corte eu via algo sangrar. Algo dentro de mim doía em cada corte, era como algo de ruim acontecesse comigo a cada corte.

Fui lutar contra aqueles vândalos. Um deles me golpeou na cabeça, fazendo-na sangrar em demasia. Desmaiei, sem não antes ouvir os risos daqueles canalhas. Entrei num sonho. Vi a imagem de meu avô naquele velho carvalho e tudo borrado com sangue; em seguida, vultos despedaçados.

Acordei e me deparei com todos aqueles rapazes mortos. Vi sangue escorrendo até meus pés, que estavam imóveis, de medo. Depois disso vi raízes perfurando o solo e quebrando os ossos restantes daqueles que ainda agonizavam. Mas algo estava estranho. Vi que tudo ao redor continuava tetricamente igual. E depois quando dei por mim, algo terrível se abateu sob meus pensamentos.

Eu tinha me tornado a árvore!
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 04/10/2007
Código do texto: T679674

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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6 áudios (1651 audições)
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Fabio Melo