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O Cálice

NUM BAZAR em Portugal o senhor Aquiles comprara um velho cálice. Foi de um vendedor que contava lorotas e era famoso por sempre chorar a cada artigo vendido. Pagou barato, uma vez sabendo que, possivelmente, tratava-se de imitação. Imitação do quê, deves estar a me perguntar? De ouro, sem dúvidas. Era fosco demais para ser de tão precioso material. Possuía desenhos estranhos, entalhados de forma grosseiramente rudes. Ou seja, possivelmente o falsário era dos ruins.

Depois de sair com seu cálice, encontra um estranho vendedor de vinhos. Astrobaldo, essa era seu nome. Vendia vinhos raros, de nomes quase nunca conhecidos, nem pelo melhor conhecedor desse tipo de bebida. E teve uma garrafa que lhe chamou a atenção. Era o vinho da família Boamorte; o vendedor fitou-o com um sorriso macabro ao vender o vinho e fez uma recomendação: “Apenas o senhor deve beber desse vinho, somente o senhor. É muito raro e pode despertar a cobiça de outros, pelo sabor único e aveludado”.

Regressando ao Brasil, Aquiles contou a seus amigos sobre a viagem. Mostrou o cálice. Mesmo com sua rudeza de detalhes, era bonito. Exótico, na opinião menos favorável. E com isso teve até mesmo vergonha de assumir que pagou pouco por acusar o vendedor de pilantra.

Aquiles era um homem solitário, desses bons ricos que não têm tempo para filhos, esposas, essas futilidades. Banqueteava-se sozinho. Sempre. Dessa vez resolveu tomar o vinho Boamorte, junto com seu cálice novo, após devorar um pedaço de carne de javali. Abriu a garrafa, com uma cerimônia sem igual, ouvindo o barulho da rolha saindo, como se ela estivesse colada à boca do recipiente. Olhou bem o rótulo. Tinha 20 anos a bebida, uma iguaria rara. E colocou-na dentro do cálice.

Sorveu o primeiro gole. Uma sensação de prazer deixou seu corpo fraco por um instante. Bebeu mais um gole e outro, e outro. Até seu corpo cair alcoolizado. Acordou no dia seguinte, com sua garrafa ainda pela metade. Era um vinho forte, sem sombra de dúvidas. E precisava tomar mais, muito mais.

Arrumou-se e resolveu sair pelas ruas. Uma estranha alucinação, em imagens cacofônicas, confundia sua mente. Sentia um impulso forte, uma êxtase macabro ao lembrar do vinho. Foi um impulso tão forte que o obrigou a voltar para casa e tomar mais um pouco do vinho Boamorte. E mais um pouco. E mais, até desmaiar novamente.

Acordou dois dias depois. Estava pálido. Fraco. E faltava um quarto para  acabar a maldita garrafa. Como um vinho desses pode ser tão bom e tão forte. Foi olhar o cálice e tinha nele muito vinho. Como pudera, ele, um degustador de vinhos finos deixar tanto nesse cálice! Estragaria, certamente estragaria. Sorveu mais um gole, até tomar o último gole do Boamorte e cair morto, no chão. Naquele momento, meus queridos, Aquiles sorvera a última gota de si mesmo, acabando, enfim, com o vinho Boamorte.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 05/10/2007
Código do texto: T681160

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo