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Amor depois da morte

UMA CENA congelada nesse instante. Um homem, jovem, com um ramalhete de rosas nas mãos e uma pá. Até que a cena chegasse nesse ponto muita coisa aconteceu. Aconteceu, mas não deveria ter acontecido.

Paul Pieds-Pierre, nosso homem da cena anterior, era um jovem promissor. De família importante, estudava Direito e iria para a França concluir seus estudos. Tinha uma noiva linda, de nome Catherine Bletsian. Mulher de bons dotes, grande beleza, ao gosto de qualquer escritorzinho romântico. Eram apaixonados, por demais que eram. E tanto amor levaria nosso protagonista a um fim inglório.

Casamento marcado, faltavam poucos dias. Ansiedade, angústia, desespero. Tudo isso reunido em um assomo de esperança e felicidade. Infelizmente alguém maior não iria querer esse desfecho tão bonito.

Havia na cidade um perfume novo chamado Swarts Qina-kunds. Era uma fragrância cara, reservada somente aos melhores bolsos e narizes. Dizia que podia deixar uma pessoa fora de si, de tão extasiado que a pessoa ficaria ao inalar seus odores. Era dado também como o perfume do amor. “L’amour en parfum”, era o que dizia a propaganda. Seu produtor, um grande perfumista chamado Alfonse Auguste de L’Ange dizia ter criado a fragrância perfeita, que com dificuldade sairia do corpo.

Catherine comprou o tal perfume. Seu odor realmente era algo do outro mundo. Decidiu que o usaria no dia do casamento. E assim o fez, sua última ação naquele dia tão terrível.

Chegada a hora do casamento e nada de Catherine. Todos ficaram preocupados, afinal de contas, ela não deveria estar tão atrasada como estava. Esperaram, até que o noivo decidiu, por conta, ir atrás dela, quebrando a tradição.

E por onde procurar? Decididamente não sabia. Resolveu ir atrás da capela, onde tinha uma sala preparada para a noiva se trocar. Nada. Resolveu fazer uma visita à casa de Catherine, talvez ela estivesse lá com algum problema.

Chegando lá uma cena terrível chocou aquele pobre moço. Viu a imagem fantasmal de sua noiva. Seu cadáver estuprado por uma criatura que não era homem e nem bicho. O rosto daquele vulto, que mais parecia um anjo, gritava de dor a cada estocada daquele monstro. Vendo isso, o noivo caiu em estupor. Não podia conceber tamanho ato de repugnância. Contudo, algo maior o fez levantar, conter o grito e correr para um canto, onde pegou o fio de algum eletrodoméstico. Pegou e começou a estrangular o monstro, na tentativa de pará-lo. E assim o fez. Matou o maldito monstro. Seguidamente a alma de sua noiva implorava para que a libertasse, terminando assim com o elo vital que a prendia naquele mundo. Deu-lhe um beijo no rosto para, dali em seguida, finasse a vida daquele seu amor.

Quando deu por si, olhou suas mãos cheias de sangue. E um nojo repugnante tomou conta daquele homem. Tinha sua mulher nas mãos, morta. Segurava o fio de um ferro de passar nas mãos. E ao lado, o cadáver de um primo, que estava apenas ajudando Catherine, que tinha desmaiado com o perfume. Curiosamente, depois do ocorrido, o perfume sumira do local.

Um horror se alastrou pela alma de Paul. Como havia visto aquela cena, aquela alucinação. As coisas não faziam sentido, ainda mais quando telefonou para a polícia, aos soluços, para explicar que alguém matou Catherine e seu primo. Não acreditava no que havia feito.

Alguns dias depois, a polícia tinha feito a perícia e constatou que houve uma tentativa de estupro. O sêmen encontrado era irreconhecível. Mesmo comparando com o do próprio noivo, principal suspeito, nada acusava. Após terminarem as investigações, o corpo foi enterrado. Mas algo ainda não havia morrido, de fato.

Aquele perfume percorria a mente de Paul. Cada vez que lembrava dele uma memória surgia, apagada sempre pelo assassinato brutal. Começava a ter sonhos, sendo acordado, de súbito, em um deles. Sua mulher aparecera, como um espectro. Pedira a ele uma última prova de amor, para poder assim descansar em paz. Para sempre.

Eis que voltamos do começo. Paul trouxe à amada flores. E com golpes de pá começava a cavar a sepultura. Tinha que ser rápido, o sonífero que dera ao coveiro logo passaria. Tirou o caixão com uma força descomunal. Nem mesmo ele sabia de onde a tirara. Rompeu o lacre com um golpe vigoroso de sua ferramenta, abrindo a caixa funerária.

Lá estava a sua querida noiva. Alguns dias depois da sepultura apenas algumas marcas de apodrecimento. Seu belo corpo tinha vermes e larvas de todos os tipos, todos se banqueteando da carne pura e limpa de Catherine. Tirou a roupa do cadáver, que ainda estava intacta. Sentiu aquele mesmo perfume, que cobrira todo o cheiro da putrefação. Beijou os lábios gelados e acariciou-lhe o seio. E fazia amor de forma extremamente grotesca, com os vermes e as doenças correndo o corpo juvenil de Paul. Eis que, no momento do gozo, o cadáver abriu os olhos, para, dali a pouco, fechá-los para sempre junto com os de seu amado noivo...
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 06/10/2007
Reeditado em 06/10/2007
Código do texto: T682637

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo