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“In the greenest of our valleys
By good angels tenanted,
Once a fair and stately palace—
Radiant palace—reared its head.
In the monarch Thought's dominion—
It stood there!
Never seraph spread a pinion
Over fabric half so fair!
EDGAR ALAN POE”

O TERROR que passou naquela noite foi algo inesquecível. Mesmo com anos de diferença entre hoje e aquele momento, lembro-me nitidamente de todos os detalhes daquilo que estuprou tudo que me foi possível.

Era uma noite, dessas de verão. Estávamos eu, meu amigo Miguel, sua irmã Rafaela e mais alguns outros amigos que não quero citar nomes. Devíamos estar em uns seis, sete talvez, não recordo das pessoas no momento. Éramos jovens, desses adolescentes que enchem a cara e saem para a farra, prontos para se divertir em brincadeiras inconseqüentes.

Férias. Meio que um prenúncio dela. Chame como preferir, era nosso último dia letivo. Fomos comemorar, naquele esquema bem clichê dos filmes de Hollywood. Mas ninguém dirigia um carro e nem sabia o que fizemos no verão passado, então esqueça essa baboseira. O que vou te contar é real. Real demais.

Havia perto da escola uma casa grande. Velha, com uma velha senhora, com seus já oitenta e poucos anos. Cabelos grisalhos, olhar tétrico, dessa que dava medo nos meninos da região. Ela nunca saía. Nunca conversava com ninguém, não participava de nada. Nem sabíamos seu nome, quem era ou se tinha parentes vivos. Sempre víamos entrar pessoas estranhas naquela residência, mas essas nos ignoravam.

Eis que uma noite resolvemos invadir a casa daquela velha maldita. Precisávamos saber o que escondia debaixo daquele teto. Claro, nenhum de nós era corajoso o suficiente de fazer isso durante o período das aulas, sabíamos que os comentários correriam a escola e tínhamos mais medo de nossas reputações do que daquela senhora. Escolhemos as férias pois, caso alguém soubesse, o caso rapidamente seria esquecido e nossas vidas correriam tranqüilas.

Chegamos. Da rua não dava para ver aquele jardim, que guardava uma beleza fúnebre. Um salgueiro morto, uma macieira e algumas flores completavam aquele cenário. Mal dava para acreditar que aquilo era o jardim de uma casa habitada.

Pulamos aquele portão de grades sem lanças. Por mais que a casa grande pudesse chamar ladrões, aquele estado de abandono fazia com que as pessoas não tivessem vontade de entrar.

Ao colocar os pés naquele jardim, nosso grupo, armado com lanternas e câmeras fotográficas, começava a vasculhar aquilo. Eu tinha um canivete, caso precisasse lutar contra alguma coisa. Nosso grupo não tinha medo algum de fazer barulho, pois nem mesmo a polícia acreditava que a casa fosse mesmo habitada.

Perto do salgueiro eu vi um abutre. Aproximando-me dele, senti um nauseante cheiro de putrefação vindo de perto dele. Olhei e vi um cadáver semidecomposto, cheio de vermes correndo pelas suas carnes. Senti um nojo enorme, maior ainda ao perceber que aquele corpo não devia ser de algum animal que eu conhecia. Corri assustado, suando ligeiramente. Meus amigos perguntaram o que era, ignorei e disse que não era nada.

Seguimos. E a cada passo senti um arrependimento, uma culpa por algo ruim que, decerto, iria acontecer. Ao adentrar naquela casa vimos vários homens, todos trajando umas roupas estranhas. Tentei correr, somente para ver aquele corpo semidecomposto levantar-se e nos atacar. Todos pareciam famintos, tinham um olhar de desejo, de fome. Consegui fugir, não sem antes ver aqueles monstros agarrando a todos os outros e os devorando, com um apetite sem igual. Pareciam felizes, de certo modo, com tudo aquilo e fugi. Fugi com a lembrança de vê-los em seus ossos, limpos de toda e qualquer carne, descansando em paz debaixo daquele salgueiro.

Retornei àquele local sinistro, com muito medo. Tentei procurar algum sinal de que havia gente naquela casa, somente para me deparar com um retrato e ter uma revelação tétrica daquilo tudo.

Aquela velha havia morrido há mais de cem anos.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 07/10/2007
Código do texto: T684968

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo