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A flor da morte

NUNCA mais dei uma flor de presente a minhas amadas. Estranho eu, Adolfo McCarter, descendente de ingleses, mencionar isso. Justo eu, poeta. Justo eu escritor. Romancista de carteirinha.

Tudo começou quando fomos à floricultura. Eu e Cátia. Queria dar a ela uma flor exótica e a vendedora nos deu um exemplar de uma linda flor amarela. Dizia que a flor viera de uma terra distante, possivelmente do Peru. E que foi um milagre encontrarmos a mesma em bom estado.

Compramos. Sua cor amarela era de um dourado muito bonito. Brilhante. Colocamos a flor dentro de um vaso com água. Ela cresceu, como nunca vimos uma flor crescer. E demos cada dia mais água, chegamos a secar garrafas cheias. Aquilo certamente não era normal. Mas a beleza radiante daquela flor nos fascinava a cada dia, então nem nos importávamos com a água.

Passou três meses, a flor parou de crescer. Era enorme, talvez do tamanho dessa sala, não me lembro ao certo. Tinha um perfume maravilhoso, perfeito. Parecia que estávamos no paraíso terreno. Enfim, tudo isso nos era muito maravilhoso, nos apetecia a alma saber que a flor estava grande.

Aos poucos ela foi morrendo. Tentamos de tudo, mas ela não respondia. Demos adubos caros, demos tudo que possa imaginar ser possível a uma flor, planta e vegetal. Quando não teve mais jeito, enterramos a coitada no jardim de nossa casa. Talvez isso nos servisse de lição para nunca deixar mais nenhuma flor padecer numa prisão com água diária.

Então Cátia sentia a si mesma fraquejar. Sentia dores, parecia estar gripada. Fomos a diversos médicos, nenhum resolvia. Sinceramente queria entender, naquele momento, o que se passava no corpo de minha amada. A cada dia ela fraquejava, os médicos apontavam que estava com anemia. Sabe como é, a falta daqueles malditos glóbulos vermelhos. Recomendou uma dieta com ferro. Seguia a dieta, não melhorava. Voltamos para o consultório, diversos exames. Um deles indicou uma estranha hemorragia.

Mesa de cirurgia. A paciente estava semiconsciente. Dormiu com um tranqüilizante forte. O médico fechou a hemorragia, costurando-a. Em seguida ela precisou de uma transfusão de sangue e eu já tinha oferecido meu sangue. Tipo “O Negativo”, perfeito, intacto, puro. A cirurgia resolveu, deu certo, parou o sangramento.

Ao voltar para casa Cátia se sentiu bem. Ainda fraca, começava a se recuperar. Um dia, voltando alegre estava, com um presente pela melhora dela. Uma caixa com um lindo vestido azul de seda. Íamos sair, como na primeira vez que nos beijamos. Só que, ao entrar em seu quarto, vi algo que nunca mais consegui esquecer.

Seu corpo jazia morto no chão. Sangue por todo o chão, como se algo tivesse estourado-a por dentro. E de seu ventre nascia uma enorme trepadeira, com uma enorme flor dourada. Uma enorme e maldita flor dourada. Aos poucos ela chupava aquele sangue escorrido, deixando o chão seco.

Horrorizado, pensei em queimar a planta. Mas vi na beleza dela o rosto de Cátia. Um rosto angélico naquela flor doente. E como prova de amor, plantei aquela flor no meu jardim, sempre admirando aquilo que, de certo modo, foi o fruto de todo nosso amor e dedicação. E de nossos sangues que dentro dela repousam eternamente. Pois é na morte que os amores eternos florescem.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 09/10/2007
Código do texto: T686443

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo