Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O Estrangeiro

NAQUELA vila era eu um estrangeiro. Estranhamente as pessoas achavam meu comportamento comprometedoramente insano. Não vejo mal algum em usar alguns dos costumes de minha terra. Infelizmente eles pensavam oposto.

Deixe-me começar pelo início de tudo, meu amigo. Sou Gustave de La Saga, espanhol. Quer dizer, nasci lá. Meu sangue, contudo, já era estrangeiro naquele país. Era filho de ciganos e com eles herdei meu gosto pelas viagens. Viagens essas, aliás, que conduziram a mim até onde estamos agora, nesse mesmo vilarejo. E fique calmo, a história é bem curta, se o tempo lhe preocupa. Acho que tempo não deves ter, enfim.

A bem da verdade acredito que seus pais também estiveram lá. Como? Não é importante apressar as coisas, logo saberás e entenderás tudo. Sei do teu nervosismo, de tudo isso. Mas fique tranqüilizado. Tudo acaba, não é verdade? Então minha história, bem, onde estávamos?

Ah sim, bem lembrado. As pessoas daqui são supersticiosas. Não lhes tiro a razão, não mais depois do que aconteceu comigo. Não sei bem o que aconteceu, mas uma mulher morreu na cidade. E adivinha de quem foi a culpa? Exatamente, ganhou um doce dessa vez, pena que não vai poder sentir o sabor dele no momento...

Curiosamente eu tinha me deitado com aquela vagabunda. Senti seus aromas, suas fragrâncias de mulher, era deliciosa. Sim, podia bem ter sido alguma parente sua, vai saber. O que importa é que aos poucos as pessoas foram ficando com medo e querendo acabar com o assassino (no caso, eu). Mesmo o estrangeiro aqui não possuindo culpa. Mesmo não possuindo absolutamente nada. E escolheram algumas pessoas mais fortes e valentes para darem cabo de mim.

Eram seis. Arrombaram a porta da hospedaria. Dois golpes na cabeça. Fiquei desacordado, sem não antes sentir o sangue quente jorrando da abertura. Logo em seguida, pensando que eu tinha morrido, lacraram meu corpo em um caixão de ferro. Soldaram ele inteiro e jogaram a sete palmos. Gritei de dor, gritei até não sentir mais meus pulmões. Dormi.

Acordei do outro lado, fora do caixão. Com isso, pensei, minha força conseguiu abrir aquela caixa de ferro. E sai em busca de vingança, querendo a cabeça dos desgraçados que me enterraram daquele jeito.

Fui atrás do primeiro. Era um senhor, de aproximadamente 50 anos. Ao me ver o susto foi tamanho que ele morreu do coração. Senti uma força preenchendo meu corpo, um prazer indescritível. Sabe quando você trepa com aquela vadia bem gostosa? É mais delicioso que isso. Você sente dentro de si um êxtase supremo.

Segui matando os outros, os desgraçados que me fizeram isso. O padre tentou me mandar para longe com suas rezas, apenas para que eu o atravessasse com uma das lanças do portão da igreja. O mercador morreu tentando me dar tiros, que nada puderam fazer quando esmaguei seu coração.

Sim, deves estar com medo agora. Sim, tem que estar. O desgraçado do teu pai fugiu da cidade. Então, como castigo, quero que aprecie seu último momento, pois eles estão te enterrando vivo. Dê teu último suspiro, pois ninguém irá ouvir teu pranto e nem teu lamento. Quanto a mim, bem, eu fugi desse caixão. Talvez você fuja para ver, como eu os vermes famélicos devorando a carne, enquanto as pessoas lá de cima esperam, incessantes, que sua alma descanse em paz...
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 10/10/2007
Código do texto: T687914

Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
799 textos (270721 leituras)
6 áudios (1651 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/10/17 09:48)
Fabio Melo