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O CAIPIRA E O SAPATO NOVO

José Gilmar morava com sua família, esposa e uma única filha, num sitio nas proximidades de uma cidade do interior, carinhosamente chamada de “Cidade Azul”. Vivia do plantio, pequenas lavouras, necessárias para o sustento da família. Um pouco da produção, às vezes, era vendida para, com a arrecadação, comprar outras necessidades para  a manutenção da casa, como roupas, utensílios domésticos, alem de guardar um pouco de dinheiro para suprir outras necessidades, caso viesse precisar. Raramente ia à cidade e, pra falar a verdade, nunca ia. Sempre que era preciso, pedia a colaboração de um vizinho, anotando num bilhete o que era pra ser comprado e algum depósito bancário, aquela reserva mínima que sobrava de vez em quando. Modesto, simples, nunca se preocupou com a vida na cidade e, nesse sentido, também não era cobrado pela esposa e pela filha. Mas, um dia de outubro, José Gilmar viu pela televisão, branca e preta, falar do dia das crianças. Ele nunca havia se dado conta disto, não presenteava, não era presenteado e nunca teve nenhum sonho maior, nenhuma ambição. Mas, vendo repetidas vezes falar dessa comemoração, resolveu fazer uma surpresa para a família, principalmente para a filha querida, que ajudava na lida de todos os dias sem nunca reclamar. Pensou...vou à cidade, compro um presentinho simples e trago de surpresa. Um vestido pra minha esposa, um espelho pra minha filha Grazi e, quem sabe, compro alguma coisa pra mim. E assim fez. Foi até a cidade, a pé, e ficou maravilhado com tudo que via. Entrou numa loja, meio sem jeito e foi atendido por uma das balconistas, simpática, atenciosa, que procurou deixá-lo à vontade. Comprou, então, um vestido e o espelhinho e, incentivado pela balconista, comprou também um par de sapatos. Estava tão empolgado que nem percebeu que a balconista guardou em sua sacola o par de botas velhas que ele estava usando. Pagou, agradeceu e saiu todo feliz. Continuou admirando as coisas da cidade e, tão empolgado, não percebeu o passar das horas. Quando se deu conta já era noite e, todo preocupado, tomou rumo de volta para casa. Tinha que atravessar um caminho, na verdade um trio, no meio do mato, para chegar até o sítio. De repente ficou cismado. Achou que alguém ou algo o estava seguindo. Parou, olhou para os lados, para trás e nada. Quando começava a andar, novamente aquele barulho: nhec...nhec atrás dele. Novamente parava, olhava e nada via. Já estava ficando amedrontado, pois, era só andar e sentia que estava mesmo sendo seguido. Pediu a proteção divina e, como não era atendido, pois o barulho continuava às suas costas, saiu correndo, totalmente apavorado e, quanto mais corria, mas ouvia e sentia a perseguição. Aquele nhec, nhec se tornava mais forte e achou que seria alcançado e adeus presente pra família. Pulou, nem sabe como, a porteira da entrada do sitio e, no desespero, levou a porta da casa no peito, caindo, sobre o sofá velho da sala. A esposa e a filha foram acordadas pelo barulho de sua chegada e queriam saber o que tinha acontecido e José Gilmar somente balbuciava: fecha a porta...fecha a porta...ele está chegando...A esposa ainda deu uma olhadinha pra fora da casa e nada viu. Tudo estava calmo, mas obedeceu, fechando a porta. José Gilmar então resolveu tomar um copo de água. Caminhou até o pote, quando a esposa, Vanderli, falou: Aí, hein !!! comprou um sapato novo...Tá tão novinho que até faz um barulhinho quando você anda: nhec, nhec...José Gilmar, ouvindo a esposa e prestando atenção ao caminhar pela casa, deu um suspiro de alívio e, meio envergonhado falou para esposa e para filha: vamos dormir...amanhã a gente conversa...
Bordin
Enviado por Bordin em 12/10/2007
Reeditado em 03/11/2007
Código do texto: T691028

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Sobre o autor
Bordin
Rio Claro - São Paulo - Brasil, 68 anos
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