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A forca

DIVERSOS tiranos passaram, fato consumado. Consumado também foi, certamente, o extermínio por meio de um forcado. Nada mais simples, nada mais alegórico, nada mais, simplesmente.

Então, quando revejo esses prontuários de execução, antigos, arcaicos, ancestrais, sempre lembro de como meu pai matava aqueles desgraçados. Trazia a minha mente um nojo enorme ver aquelas pessoas morrerem, de forma tão cruel. Meu pai era um assassino! Sim, e dos melhores, um genocida. E os seus “companheiros” eram totalmente leais: a corda e a força.

Só que nesses tempos modernos de liberalidades e de direitos humanos, houve uma certa inutilidade para o forcado. Talvez a depressão, talvez a loucura ou mesmo a inutilidade daquele ser o fez virar um monstro. Um ser que, decerto, era anti-social por natureza. Agora via seu oficio apagar em fogos, que comemoravam a liberdade humana.

Pobre coitado. Via naquela forca uma amiga, uma companheira. E ouviu-a chamar, clamar por sangue e por justiça. Assim criou-se o mais novo assassino, o “homem da forca”.

Jeremias foi o primeiro. Estuprador, havia deflorado a filha mais nova da dona da mercearia. Encontraram-no morto, com o pênis arrancado e seu pescoço quebrado. Dez dias depois um assassino em série foi morto, com sua faca encravada no peito. Assim foram as pessoas julgadas pelo “homem da forca”. A polícia queria a cabeça desse homem, sabiam que era meu pai. Sabiam que ele precisava ser parado.

O povo comum o adorava, aquele monstro social dava fim naquela corja de vagabundos que faziam mal as pessoas. Talvez o maior erro de papai foi, sem dúvidas, ele ter matado o filho corrupto do prefeito. Não tivermos sossego e, mesmo com a fuga de meu pai, as coisas não melhoraram. Fomos presos como bandidos e minha mãe morreu doente. Aquilo trouxe um ódio ao meu coração de menino, um ódio imenso.

Meu querido pai matou o delegado que nos prendera em tão péssimas condições. Resgatou a mim e a minha irmã, fugindo para fora da cidade. Paramos perto de um cemitério, local onde eram sepultados a todos na cidade. Havia um medo tremendo com relação ao lugarejo. As pessoas evitavam andar por lá. Nosso pai prometeu que as coisas seriam diferentes, mas era tarde. Cada tumba daquele lugar se abriu, deixando vazar espectros famintos. Eram homens e mulheres, deformados pelo ódio, querendo sangue. Vi aquela massa multiforme segurar cada centímetro de pele e vi cada detalhe mórbido de sua execução.

Meu medo fez-me desmaiar. Acordei no dia seguinte, vendo o corpo de meu velho pai dependurado por uma corda e devorado. A polícia registrou como suicídio. Talvez tenha sido, nunca saberei ao certo. Exceto que meus pesadelos sempre mostraram a face daquelas almas famintas dando um fim inglório àquele louco homem, que havia perdido sua função na grande máquina social.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 14/10/2007
Código do texto: T693417

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo