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O Feitiço do Amor

AS MULHERES são o tipo de criatura mais cruel que conheço. Possuem em suas almas uma maledicência que até hoje me faz tremer os ossos. Entendam uma coisa, meus queridos e queridas, tenho medo das criaturas mais fascinantes desse mundo, pois essas nos destroem e destroem as que cruzam seu caminho.

Rafaela, uma linda jovem, havia se apaixonado por Rodrigo. Trocaram alguns beijos e promessas de amor. Ela, como boa parte das mulheres à moda antiga, adorava um certo romantismo, algo que vai contra nosso conceito moderno de amor. Sim, sabe, amar aquele beijo mas cansar rapidamente quando a pessoa “sai da moda”. E Rodrigo era moderno e cansou logo da nossa menina. Desapareceu, sem nem ao menos se explicar.

Era evidente, meus caros, que ela não aceitou tamanha desfeita. Chorou durante dias, com seu coração partido em pedaços menores que migalhas de pão. Pena, era uma mulher bonita, branquinha de olhos claros, cabelos avermelhados, era bonita mesmo. E olhando a si mesma no espelho não entendia o porquê disso tudo.

Rodrigo se apaixonou por uma menina chamada Isabel. Moça simples, caseira, bonitinha, para os padrões da maioria dos homens. Só que a mesma o desprezava e aquilo o consumia de um modo voraz, terrível. Aquela imagem de menina invadia-lhe os devaneios, consumindo suas noites de sono e era muito mal-dormidas, tristes. Mandava flores, para vê-las jogadas na lata do lixo. Mandava cartas enormes com poemas copiados de um livro barato, apenas observando-a usá-los para forrar a gaiola do passarinho. Tudo parecia perdido para aquele rapaz bonito, galante, de boa fala e rico. Como não conseguia ter aquele tesouro em forma de gente, como perder aquela preciosidade.

— Tenho algo que vai impressionar a jovem – disse uma voz no escuro de uma viela.
— Mas quem é você?
Dirigindo até o fundo da viela encontrou uma velha entrevada sentada. Parecia algum tipo de camelô. E ofereceu a Rodrigo um anel, com uma pedra escura e outra vermelha. Disse que aquilo traria o amor daquela jovem a ele, bastava usar ele durante um dia inteiro. Era uma simpatia. Rodrigo concordou e pagou pela simpatia, meio descrente.

Depois de um dia de uso, percebeu que funcionava. Isabel sorriu para ele uma vez. E viu que teria mais chances, caso continuasse a usar o anel. Conversou um pouco com Isabel, que concordou em sair com ele dali uns dias.

Deu certo, era o que ele gritava o tempo todo. Quando foi procurar a velha para agradecer e pagar mais pela simpatia, ela desaparecera. Bem, não importava mais nada nesse mundo, apenas ter o amor daquela jovem.

No dia seguinte Rodrigo acordou assustado. Olhou para si, estava sujo de sangue. O que teria acontecido, ela se perguntaria, se não tivesse visto uma bela jovem morta, com seu peito estourado. Aquilo trouxe um horror tremendo a ele, que prontamente se desfez do cadáver e lavou-se. Dia após dia acordava com um corpo diferente e o peito dilacerado. E cada vez mais via que o anel trazia o amor de Isabel a ele. Até que chegou o dia do encontro entre ambos e Rodrigo visivelmente estava diferente. A constante ingestão de corações humanos o fizera parecer um monstro. Estava totalmente insensível, totalmente louco, apenas com aquele amor segurando-o. Então, por conta própria decidiu que não podia matar sua amada. Foi até o alto de um prédio e jogou seu corpo de lá, para não mais matar ninguém, não mais matar e devorar o coração...

Cometeu suicídio. Em nome do amor.

Teoricamente a história acaba aqui. Mas do alto de um outro prédio um corpo feminino observa aquilo com um sorriso maldoso. Era Rafaela, que fizera um feitiço para que a paixão consumisse aquele jovem com tanto ardor que o fizesse matar. Aquele anel era somente para fazer com que ele sofresse a cada coração que destruía...
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 15/10/2007
Código do texto: T695907

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
799 textos (267251 leituras)
6 áudios (1647 audições)
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Fabio Melo