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O OBSERVADOR

 Tudo começou como uma brincadeira.
 Ele chegou cedo em casa, acendeu as luzes e deitou-se na cama. Estava cansado. Trabalhara o dia inteiro, mas finalmente havia chegado ao seu doce refúgio. A casa era de dois andares, num subúrbio do Rio Grande Do Sul, pequena e aconchegante. Suas paredes brancas contrastavam com a solidão de seu interior vazio e fúnebre. Só possuía 3 peças o casebre. Um banheiro e cozinha embaixo com o quarto na parte superior. Jorge havia se mudado há pouco tempo, não conhecia muita gente, não possuía muitos móveis, mas tinha sua morada como um esconderijo, uma fortaleza. Era o que mais gostava no dia. Poder deitar naquela cama, se espreguiçar pra todos os lados, ninguém pra perturbar. Sequer um bichinho de estimação. Mas como disse, tudo começou como uma brincadeira.
   Lá estava Jorge relaxando, tranqüilo na nova casa, quando ouviu um ruído vindo da basculante. Era um ruído próximo, como se fosse ao lado da cama, mas ele estava  no andar de cima. O que poderia haver do lado de fora da casa? Nem mesmo havia reparado nisso quando a comprou. O barulho persistiu.
   Jorge levantou-se meio sonolento ainda e caminhou naquela direção, tentando descobrir o que fazia aquele som. Aproximando-se da janelinha, pôs os olhos furtivamente sobre o vão do vidro e observou uma deliciosa cena: uma loira de cabelos compridos, alta, seios fartos, cintura perfeita, tomando banho na residência ao lado da sua. Uau!
   Ele ficou estagnado por um momento, quase teve um espasmo de alegria, mas conteve-se refletindo na situação. Será que deveria continuar ali onde estava? Observando como um tarado qualquer que espreita uma cena perniciosa? “Claro que sim!” Pensou ele instintivamente.
    Na verdade tivera a maior sorte da vida. O lugar certo na hora certa. Aquela janela dava para o banheiro de outra casa. E olhando ao seu redor, Jorge notou que haviam outras basculantes como aquela!Quem sabe...Sim! as janelas de seu quarto se direcionavam para outros cômodos de outras casas. Simplesmente perfeito!
  E assim começou a brincadeira deliciosa de Jorge. Todos os dias chegava em casa como um louco e corria para as janelas. Ficava a noite toda lá, espionando, observando. Logo, começou a dedicar os finais de semana inteiros naquela atividade. Depois parou de se alimentar frequentemente para economizar tempo em sua missão. Comprou câmeras, binóculos, anotava e redigia tudo o que via, tudo o que ouvia. Estava paranóico!
  Dois meses depois estava sem emprego, magro e completamente só. Nada deveria atrapalhar sua obsessão. Dias e noites a fio com os olhos ali, controlando tudo o que se passava nas moradias alheias. Um guarda silencioso. Eterno vigia sombrio preso nos pensamentos obscuros da mente insana. Só havia um grava problema que o importunava todas as vezes que se encontrava de tocaia: a intensa vontade dos vizinhos de VIVER!
   Apesar de Jorge ter se isolado totalmente do mundo externo, vivendo de raras refeições, dedicando-se de corpo e alma á sua tarefa,seus nobres vizinhos não compartilhavam do mesmo compromisso para com ele. Como todas as famílias normais saíam para passear, trabalhavam, enfim, possuíam um jeito normal de ser. Foi aí que Jorge resolveu ajuda-los a ter mais responsabilidade e respeito para com os outros.
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  Depois de uma semana presos como ratos numa gaiola, já deveriam estar sentindo o gostinho de como é ficar tanto tempo só, sem poder sair para nada, completamente esquecidos pelo mundo. Agora veriam como era bom! “ Grande idéia soldar as portas, trancafia-los todos de uma só vez. Grande idéia!" Satisfazia-se Jorge por dentro, remoendo consigo mesmo a atitude que tomara para acabar com aquele despeito. Imaginem só, que insolência! Pensar que podiam ficar livres por aí enquanto ele sentia-se tão... preso! Mas agora colhia os louros da vitória. Podia espreitar á vontade. Sem interrupções." Que ótimo!" Só que tudo o que é bom dura pouco tempo.
  “Ai, que droga, calem a boca! Chega de choro, seus idiotas!" Mais uma vez Jorge revirava-se na cama tentando dormir. Mas como se não ficavam quietos! Toda a graça, toda a naturalidade da coisa se perdera por completo. Não era mais como antes. QUE GRANDE DROGA! Não durou muito até que se arrependesse tremendamente de ter feito o que fez. O que fazer? Chamou a polícia (pobre Jorge).
  Passaram-se algumas horas e houve um grande tumulto. Muito barulho. “ quem sabe daqui há um tempo o silêncio não volte a reinar” pensava ele tomando um cafezinho, enquanto observava pela janela as pessoas arrombando a porta na casa ao lado. E na outra. E na outra de novo." Quem sabe não é?”
   De repente o barulho começou a ficar mais forte. E mais intenso. Como se fosse ali mesmo, na própria casa de Jorge. “ Que estranho!" Não tão estranho quanto aquela fumaça que invadiu o local. Nem aqueles homens correndo ao seu encontro. Mais esquisito ainda aquela horrível dor na nuca. O que teria acontecido?
   Agora Jorge estava num lugar minúsculo, deitado em uma espécie de cama com correntes que prendiam seus pés e mãos. de vez em quando surgia  um prato de comida por debaixo da imensa porta de ferro que não o deixava sair. Nada de janelas. Nada de vizinhos. “ Que lugar é este?” Pensava Jorge, apavorado. Á noite, tinha pesadelos horríveis com demônios todos de branco que vinham lhe atormentar com agulhas, alfinetando seu corpo todo sem parar. obrigavam-no a engolir coisas com um gosto estranho que lhe davam arrepios e traziam á memória todo o tipo de sofrimento por que já tinha passado. Jorge sentia-se todo o tempo observado, algemado, como se olhos vivos o vigiassem o tempo todo. Diferente de antes, tudo o que ele queria era SAIR, SAIR,SAIR!
   Do outro lado da sala o enfermeiro da ala psiquiátrica conversava com o médico:
   ‘O que o senhor acha desse caso doutor?'
  “ Meu jovem, é bom que você observe bem. Como pode ver ele está paranóico. Necessita de terapia intensiva. Tome conta especialmente deste paciente. Jamais o deixe sozinho, de maneira nenhuma.”
 ‘ Será que tem solução doutor?’
‘ Não meu amigo. Creio que não. Pela minha experiência, digo que passará o resto de seus dias aqui. Tudo o que lhe resta agora é ser observado constantemente para pesquisas médicas. Mas não se entristeça, olhe o seu histórico mental! Com certeza ele adorará ser vigiado para sempre por nós.'
 
Cayus Marcws pocotirios
Enviado por Cayus Marcws pocotirios em 16/10/2007
Código do texto: T695964

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Sobre o autor
Cayus Marcws pocotirios
Manaus - Amazonas - Brasil, 28 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/10/17 04:11)
Cayus Marcws pocotirios