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O Espelho da Vaidade

MULHERES, desde tempos imemoráveis, desde a concepção da beleza, adoram espelhos. Mesmo eles não existindo desde a Criação, sabemos que, por eles, vemos refletidos nossos maiores sonhos e medos. Sim, as mulheres, pobres e doces mulheres mal sabem o quanto da vaidade pode consumir-lhes a alma, como consumiu a alma da nossa menina.

Beatrice era rica. Herdara da família uma soma considerável de dinheiro. Soma essa, aliás, muito vultosa e muito cobiçada. Perdera a conta de quantas noites de amor ela não desfrutou com mestres da enganação, quantos gozos não sentiu somente pelo poder que sua fortuna exercia.

Contudo, algo estava errado. Com as pessoas que nunca ouvira falar de sua grande fortuna sentia uma indiferença. Era curioso, pensava ela, aquela menina linda, de pele clara e cabelos avermelhados sentir tamanho desprezo. E nascera naquela pessoa uma flor chamada vaidade.

Comprava cremes caros, comprava de tudo, fazia plásticas para, quem sabe,  melhorar o aspecto geral de sua aparência. Perdera a conta, decerto, de quantas injeções e de quantos silicones ela já usara. Seu corpo começava a ficar um tanto quanto “feio” se imaginarmos a menina de 23 anos aparentar ter o dobro disso.

Eis que recebera uma herança perdida de sua avó. A velha morrera, alguns anos antes, de causas desconhecidas. Deixara a Beatrice uma boa quantia de dinheiro e uma casa bonita, perto do centro da cidade. E essa casa, diziam os vizinhos, era sempre animada.

Mudou-se para a casa. De fato, uma bela casa, grande e espaçosa. Foi vasculhar no sótão e encontrou um grande espelho, feito de cristal azulado. Ao fitar o objeto, vira sua imagem refletida, como se ela visse além de si. Achava-se linda, achava-se atraente. Só que algo estava errado e precisava se tratar.

Foi com um estranho choque que vira a imagem de sua falecida avó refletida naquele cristal. Ela conversara com Beatrice e falou que a ensinaria como ser bela para sempre. Bastaria seguir alguns passos e conseguir um tratamento especial.

O primeiro seria criar um creme contra os sinais da velhice. E com o ímpeto de crueldade extrema que Beatrice matou a filha de uma empregada e transformou-lhe a gordura numa pomada. Ao passar aquilo no rosto sentia sua pele causticar para, em seguida, renascer como nova. Era como se tivesse menos de 16 anos, uma pele lisa e perfeita.

Era incrível, aquele creme era fantástico, segundo dizia a avó. Resolvera trancar a empregada, que chorava dentro de uma sala no porão, onde ninguém poderia ouvi-la. Depois disso saíra com diversos homens, diferentes, com ares muito superiores, que cobiçavam a sua beleza exótica, magnética. Foi agradecer a avó, quando viu que seu rosto tinha uma ruga. Era nervosismo, segundo a velha. Para curar tal coisa, era preciso banhar a si mesma no sangue de uma mulher jovem, que sumiria aquele sinal maldito.

Matou a empregada com um golpe de machada no pescoço. Um golpe rápido, sem dor, pois não poderia haver sofrimento naquele sangue de mulher. Um banho demorado, decorado com rosas e perfumes exóticos terminou por completar aquele ritual macabro.

Curiosamente a ruga desaparecera e a pele ganhara um tônus fantástico. Era fabuloso aquele espelho, que fazia com que ficasse cada vez mais jovem. E passou a colecionar mulheres e crianças, belas e pobres, apenas para realizar suas orgias e rituais de beleza. Aprendera que esmagar olhos humanos sob os olhos reduzia as olheiras e via nisso um prazer sem limites. Matar pessoas era um passatempo, manter-se bela a todo custo era p seu único ideal. Um ideal macabro, cruel, mesquinho, mas mesmo assim, para ela, matar uma mulher grávida apenas para que sua pele ficasse mais elástica valia a pena e usar sua placenta para curar a celulite, esmagando os restos do feto, não existia nada mais perfeito. Vidas humanas são curtas e porque não encurtar a vida daquelas miseráveis.

Eis que um dia foi olhar-se num espelho. A polícia estava em seu encalço, tinha provas de que mantinha pessoas em cárcere privado apenas para fazer delas produtos de beleza. Beatrice caiu ao se ver no espelho, que ficara mais claro e cristalino. E a polícia arrombou a porta da casa da milionária, com um mandato de busca e apreensão.

Encontraram, perto de um espelho, apenas um cadáver ressequido de uma velha.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 18/10/2007
Código do texto: T699002

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo