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O Retrato

A FAMÍLIA  Ferrini encomendara um retrato de sua família. Contratara um pintor, de nome Miguel dos Anjos, um espanhol muito hábil e muito competente. Infelizmente os Ferrini resolveram que não iriam pagar pelo retrato, uma vez que seria uma honra para tal pintor ter um retrato feito para pessoas de tal estirpe. Expulsaram a pontapés aquele magnífico senhor, dono de uma arte e de uma expressão tamanha que comovia multidões.

Nunca uma desfeita como essa fora feita contra ele. Evidentemente que prometeu e jurou vingança. E ela seria a mais maligna de todas.

Vamos ao retrato. Os Ferrini descendiam de uma longa linhagem de cavaleiros espanhóis. Tinham o soldo, a barriga e a arrogância de um nobre. Pena que venderam a nobreza por alguns dobrões, séculos antes...

A filha, de nome Antonieta, fora retratada como uma menina loura e bonita, com traços fortes de mulher. Com seus 15 anos era uma mulher de corpo e uma velha cobra de espírito. Talvez seja por isso que do lado dela está o irmão, Rubens. Mais velho, mais moço e mais canalha, esse maldito possuía um olhar fortemente voraz. Devorava a todos e a todas com suas artimanhas. Era um ser socialmente tenebroso, mas igualmente forte, melhor que essa cambada de bundas moles que se protegem em suas maquiagens de cordialidade.

E o pai, um velho chamado Alejandro. Forte, gordo, parrudo, tinha orgulho de ter servido ao exército durante muito tempo. Ele não possuía a forma, apenas a patente, somente para poder impor nessa sociedade onde um corpo bonito de vidro faz mais sentido que um forte e gasto corpo de aço. Sua mulher, Éster, era linda. Seios fartos, cabelos escuros e longos, lábios de cor vermelho sangue. Retratada como uma senhora de poder e prestigio.

Eis que alguma coisa acontece seis dias depois da dispensa do pintor. Antonieta é encontrada morta, no banheiro, com uma faca em suas mãos. Escrevera no espelho, com sangue “eu não agüento mais”. Seu irmão sentia culpa, um remorso imenso. Lembrava a si mesmo de todas as orgias que fizeram com sua irmã querida e sua culpa cristã o consumia. Era nítido que sentia uma incômoda sensação de remorso. Lembrava com dor como ele tirara a virgindade daquela moça, com seus onze anos e a ensinara a ficar viciada em sexo e prazer.

No dia seguinte o seu corpo acordara morto, encharcado numa poça de sangue vivo.

Alguma coisa o matou durante a noite. A única coisa encontrada junto ao corpo foi um retrato de Antonieta e um terço. Aquela imagem causou um asco nefando naquele casal, ambos os filhos estavam mortos e sepultados, em covas separadas. Passou cerca de uma semana, quando outra coisa acontecera. Alejandro chegava em casa, quando vira sua mulher na cama com outro homem. Era mais alto, mais forte, mais jovem e ambos transavam loucamente. Voltou silenciosamente para fora da casa, procurou suas ferramentas e pegou um machado. Voltou e com um golpe decapitou o jovem rapaz. O sangue e o horror mancharam aquela pele clara e macia da esposa, que gritava em pânico. Tentou se levantar, quando tomou um golpe que lhe rachou a cabeça. A tristeza por tal ato fez com que Alejandro enlouquecesse. Botou fogo na casa e, logo em seguida foi despedir-se da esposa morta. ficou dentro da casa e resolveu ter uma última sensação de amor. Sentiu o sangue escorrer pelo seu corpo a medida em que espetava a mulher. O corpo ainda estava quente e não se mexia, mesmo com os gemidos surdos do homem. E no êxtase do gozo, uma viga de madeira caiu-lhe na cabeça, terminando de queimar e purificando aquele ambiente.

Os bombeiros chegaram. Contiveram o fogo. As pessoas não entenderam o porquê daquilo tudo. E , logo após sair a multidão, um homem se aproxima das cinzas. Era um vulto alourado, com seu guarda-pó. Pegou o retrato e tirou o pó, sorrindo. Vira que cada rosto estava borrado e as cores haviam empalidecido, estavam mortas.

O retrato daquela família havia morrido.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 21/10/2007
Código do texto: T704155

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo