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A porta

QUANTAS as oportunidades nos são abertas juntas das portas do Infinito? Em todas as culturas do homem, a porta nos serve tanto quanto boas-vindas quanto para nos proteger dos perigos do outro lado.

Penso nisso sempre que me vem à memória a carta que recebi de William Dias. Sem dúvida, um longo relato de um homem louco, sempre dando a minha fibra masculina a vontade de tentar encontrar este homem singular, de maneiras exóticas. Qual foi a minha surpresa em saber, por aquele ser que a casa de Ana Catarina estava em patrimônio indígena. Quem diria que aquela velha era mesquinha a tal ponto. Quantos não morreram para que ela pudesse morar e terminar seus decrépitos dias por aquele local?

William queria aquela casa. E misteriosamente teve seu nome citado no testamento da senil senhora. Era certo que o rapaz nunca me contaria quais as razões disso, apenas soube, anos mais tarde, que ela era o mais competente dos seus empregados, dando a ela serviços especiais, aos quais não desejo, de forma alguma, saber;

Meu amigo era um homem alto, forte, um pouco obeso, de cara má. Talvez isso remonte a meia dúzia de homens brutos que conhecemos por aí, mas ele era diferente. Tinha um olhar mais educado, decerto mais do que a média. Decerto também seu vício em charuto, coisa que me incomodava um bocado, mas que nunca interferiu em nossa amizade. Ele também não gostava quando eu mascava fumo, achava isso antiquado demais para nossos tempos tão turbulentos.

Eis que um dia ele nunca mais foi visto na cidade. Passei perto da casa de Ana Catarina e um homem velho me deu uma carta, pedindo para que a lesse depois que saísse de lá. E havia uma ordem da prefeitura para a demolição daquele local, então tive que ser rápido.

E hoje descrevo, nessas linhas, querido editor, o que William quis me dizer.

“É de vossa natureza curiosa saber o que eu ando a fazer, certo? Veja, escrevendo em uma linguagem mais formal, como a sua fala, meu querido. Talvez seja o efeito da morfina que tomei para não enlouquecer. Talvez seja a minha loucura. Não sei. E sinceramente quero acabar logo com isso, pois talvez nunca mais eu veja a luz maldita do sol.

Talvez eu devesse lhe dizer que essa casa é diferente. As portas sempre me levam aonde não quero ir. Nunca consegui, até hoje, abrir a porta do porão, onde a velha devia guardar o seu tesouro.

Sim, como deves saber, já fui empregado daquela desgraçada. Fui humilhado, junto de meu pai, durante anos. Era quase um escravo, com a diferença de que nunca recebi um trocado pelo meu pensamento. Devesse sim saber das torturas que passei por conta dela.

Esqueça isso, vamos ao que lhe interessa.

Não consigo entender essa casa. Tanta coisa velha, tanto pó e qual a maldita razão daquela senhora querer dar a mim a casa. Talvez seja, penso, como uma forma de compensar aquele coração negro cheio de amargura com o mundo.

Claro que descobri estar totalmente enganado.

Um dia, com muito esforço abri aquela porta. Antes disso havia vendido o imóvel para a prefeitura, eles queriam reaproveitar o terreno. Fui buscar a escritura e dar nas mãos dele. E nesse dia arrombei aquela porta.

Parecia mais pesada que aquela madeira de compensado de que era feita. E em questão de instantes vi um amontoado de esqueletos, empilhados. Eram dos corpos de antigos escravos mortos. E muitos estavam ali por minha culpa.

Nunca lhe contei que serviços fiz para aquela desgraçada. Era caçador de escravos que fugiam. Matei pelo menos uns cem nas caçadas, sob as ordens de Ana. E eu era bom nisso. Matava porque era pedido para que voltassem mortos os fugitivos.

Essa porta mostrou a mim uma figura tétrica, esquelética. Velho como o tempo, aquele senhor encarava-me com um olhar de morte. E depois disso corri, tentando fechar a porta.

Fugi. E percebi que minha saída estava trancada. Nenhuma porta abriria, estava preso para sempre naquele calabouço. Alguns daqueles ossos querem minha carne! Quero fugir daqui e somente alguém de fora pode me abrir uma porta. Tem que ser alguém sem a marca da morte na carne e na alma. Mandei um capataz que morava na casa do lado entregar essa carta que lês agora. Por favor, salve-me daqui! Abra a porta e me liberte.

Atenciosamente

William Dias”

E depois de ler isso vi a casa se tornar uma nuvem de pó branco.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 04/11/2007
Código do texto: T722516

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo