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A serpente

NUNCA tive eu certeza da natureza real das cobras. Nos é ensinado, segundo o livro de Jeová que é a tentação. Para os chineses, contudo, é símbolo de força e esperteza. Ou seria os dois? Uma imagem gerida no subconsciente das pessoas. Apenas isso atrelado ao seu poder venenoso. Somente isso, digo.

E como posso me imaginar contando a história de Caterine Vouloi? Uma mulher que colecionava serpentes, todo o tipo de peçonhento raro. Todo o tipo de coisa que, creio, seria a repugnância de qualquer um de nós. Era estranho ver. E imaginar mais ainda.

Minha curiosidade era enorme. Como jornalista, pedi ao meu patrão para entrevistar aquela criatura. Fascinou-lhe saber de uma pessoa que cuidava de cobras e que, misteriosamente, nunca foi atacada por nenhuma.

Esqueci de lhe dizer como ela era. Possuía cabelos ressequidos, curtos, de um louro extravagante. Devia ter seus mais de setenta anos, com olhos verdes que faiscavam um brilho assustador.

Num belo dia entrei. Expliquei a ela que era jornalista, que adoraria entrevistar aquela criatura tão fascinante aos olhos de todos. Pensei que não fosse me receber, já ficara sabendo de jornalistas que foram expulsos simplesmente por falarem com ela. Cria eu que comigo seria igual e que meu trabalho seria todo em vão.

Minha surpresa foi enorme. Fui recebido com honras. Serviu-me um chá gostoso, que não me atrevi a perguntar de que era. Senti meu corpo relaxado, quando uma serpente se acostou em mim. Tremi de medo, senti o suor correr meus dedos, apenas para que a víbora lambesse com sua língua  e me trouxesse ainda mais horror.

A velha pediu para que parasse de tremer. Explicou uma coisa que agora não consigo lembrar, era algo como não sucumbir a nosso próprio desejo de morte. E deu a mim um bolinho de chocolate.

Ouvi com calma aquela senhora, suas motivações, suas ambições em querer criar tantos animais peçonhentos. E com igual temor senti minha mão em cima de uma cobra gigantesca. Suas escamas eram macias como a pele de uma mulher. Eram geladas como ferro. Aquilo trouxe a meu ser um horror tremendo, misturado com uma sensação de prazer.

Resolvi ir embora, levando minha gravação e prometendo voltar no dia seguinte. Perguntei-lhe qual o melhor horário, escolhi noite. Havia algumas coisas na redação que precisava fazer e preferia usar meu horário de saída para, com isso, terminar minha entrevista. E parei para ouvir a conversa que tivemos, para preparar a pauta da noite seguinte.
— Penso que a senhora deva ter alguma razão...
— Para as cobras? Sim tenho.
— Como...
— Soube? Todos aqui fazem essa mesma pergunta. E tenho certeza que nunca respondi a ninguém. Mas você é, certamente, especial. E merece cada segundo de explicação.
— Sim, prossiga.
— Tenho certeza que as pessoas as temem. E por que as temem? Por que a cobra é poder máximo de todo o homem. Todos nós tememos nossas paixões. E nossas maiores paixões estão na mordida dessa boca forte, nessa língua que te trouxe tanto êxtase e medo.
— Culpa? Por que, meu rapaz, isso te traz sentimento de culpa?

Parei nesse ponto. Fiquei com um calafrio enorme. Senti novamente aquele calafrio. Precisava de alguma forma terminar isso.

Voltei e a porta estava aberta. Perguntei pela dona e disse que me esperava. Um incenso empalidecia o ar noturno daquela casa. Seus aromas derrubavam meus sentidos por completo e quase adormeci. Chegando mais adentro, entrei num quarto. E vi diversas serpentes, em um enorme ninho. Aquela visão grotesca fez eu correr de medo, somente para, olhando mais atentamente, ver cada uma daquelas cobras se transfigurar numa linda mulher. Aquela serpente que lambera minha mão transformou a si mesma numa jovem de longos cabelos vermelhos. E seus lábios roçaram nos meus, deixando um sabor exótico, forte. Sua língua beijava minha língua, numa tentativa de tomar conta de minha boca.

Largou-me no chão, apenas para ver a velha Caterine. Aquele corpo de velha começara a rasgar, deixando apenas a imagem deslumbrante de uma jovem, de longos cabelos castanhos e olhos de uma profundidade azul. Senti seus seios tocarem meu corpo, que foi desnudado aos poucos, com seus belos olhos fitando-me o tempo todo.

Era maravilhoso sentir aquela pele nua em contato com a minha. A cada beijo que recebia sentia meus sentidos tontearem, até que senti uma mordida em meu pescoço. E depois dela meu corpo paralisou, em êxtase e em múltiplo orgasmo, que não cessou, mesmo quando ouvi meus ossos se partirem e minha carne ser disputada a nacos por cada uma daquelas novas Evas...
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 06/12/2007
Código do texto: T767800

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo