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A Noiva de Marcelo

A noiva de Marcelo


Naquela manhã, quinze dias depois, Marcelo odiava sua vida. Se sentia um desgraçado, um hipócrita, um desalmado. Talvez somente a morte poderia aparar seu erro. A traição. A traição que sua noiva descobrira dias antes do casamento. Só a morte ele merecia. Mas ele sabia que se morresse, iria encontrar com Isabelini lá do outro lado.
Quinze dias se arrastara, e a pequena cidade de Cornélio Procópio ainda vivia do caso. Era o assunto de todos os lugares: nos bares os homens com os copos cheios comentavam e lamentavam o acontecido, nas praças aposentados não falavam em outra coisa, nas janelas as vizinhas fofoqueiras ficavam todo o tempo e até deixavam o arroz queimar no fogão por causa do assunto.
Mas, a vida tem continuar, e mesmo com toda aquela atmosfera melancólica e quase sobrenatural que pairava na cidade, a festa de Hallowen não fora desmarcada. Aqueles dias fúnebres não iriam estragar a grande e tradicional festa.
       Marcelo não aparecia nas ruas, curiosidade havia por parte da população em saber como ele se sentia. Será que ele estava arrependido? Deprimido? Envergonhado?

       Se passara dezoito dias e chegou o Sábado, 30 de outubro!
       Antes dos seres fantasiados chegarem à festa, a magnífica bola amarelada surgiu no céu. Estava cheia e esplêndida, e iluminava toda cidade.
       Já na entrada do clube, a aglomeração dos seres chegava a um ponto de grande tumulto. Todos disputavam um lugar na estreita porta e suas fantasias, cheias de empecilhos, dificultavam a harmonia. Os seres estavam muito animados. Havia esqueletos, bruxas, lobisomens, vampiros e príncipes. Dentro da boate o putz putz putz era extasiante. A boate estava decorada à moda e um ambiente macabro se formava naquele mundo, uma decoração a caráter de dias das bruxas. Tentaram imitar o inferno.
       As luzes, num tom laranja mórbido se permutava com um amarelo terra, e às vezes um surgia uma luz verde, e depois um preto que durava uns cinco segundos. Figuras macabras foram postas nas paredes e nos tetos de modo que, mostrassem o sofrimento dos homens que vão para aquele lugar. Uma imensa fogueira artificial foi posta no centro da boate. Era mais real que um incêndio. As taças em que as pessoas bebiam  tinham aparência demoníaca. Aquele era mesmo o inferno.
       Jhony, que estava fantasiado de príncipe na festa procurava uma garota para a noite se tornar mais agradável. Olhava impiscavelmente para  uma lourinha bruxa, e ela, a impressão que dava, demonstrava um certo interesse pelo rapaz. Mas Jhony foi um pouco paciente, pois um brutamontes fantasiado de lobisomen apareceu, tirou a máscara, abraçou-a e a beijou. Jhony lamentou-se, e procurou outra, e logo fitou uma beldade, de mulher maravilha. As vestes  cobriam-na as mínimas partes, que lhe causaram excitação e, perdendo a paciência desta vez, aproximou. Falou algumas coisas no ouvido, mas sem efeito, pois a moça foi para outro canto, deixando-o sozinho. Ele não desistiria, estava ali para isso, e na festa mulheres haviam o bastante.
       Marcelo, fantasia de vampiro, veio para a festa  com Raquel, a outra. Ninguém o conheceu.
De repente, a temperatura começou a cair, e o ambiente ia tornando-se ainda mais macabro. A temperatura abaixava rapidamente, e os festeiros pensavam que era idéia dos organizadores da festa. Acharam isto bom. Diferente. Um odor de enxofre também enfestou o ar.
E os seres pulavam, dançavam, mais rápido, pois parados começavam a tremer de frio. E O putz putz putz dos djs eram incessante. Tão baixa era a temperatura, que uma  fumacinha se misturava ao hálito da boca das pessoas. O consumo de conhaque tornou-se grande. E Jhony continuava sua busca pela festa, agora se aproximava da oitava mulher, uma vampira. Ao olhá-la por um dez minutos, investiu. Nada novamente.
Foi em direção ao bar, encheu o copo de conhaque e voltou para o meio da pista. Ia dar um tempo. Pesquisar.  Notou que alguns seres muitos estranhos haviam agora na festa. Criaturas que pareciam tão reais! Criaturas que pareciam realmente habitar o inferno.
  O rapaz estava ali, parado, olhando para todas as garotas. O ambiente estava muito frio, fedido, era bom. Os organizadores fizeram a melhor festa de todos os anos. De repente, Jhony percebeu que alguém o olhava para ele. Lentamente foi se virando para trás. Estremeceu com o que viu.
       Era uma garota fantasiada de noiva.
       Seu coração se dissipou. Lembrou-se... Mas era linda. Todos seus pêlos se eriçaram. Ela o encarava e ele também. Todos da festa foram parando para a admirar aquela cena. Os dois no meio da pista se olhando, era como um filme de velho oeste. Cinco metros os separavam.  O inferno agora estava num silêncio  e num estado de atenção. Dava-se para ouvir o coração de Jhony em meio ao putz putz putz inaudíveis.
A noiva olhava no fundo da alma do rapaz. Ele ficou perplexo. A beleza da noiva expressante. E ele foi caminhando lentamente para ela. Sentiu o perfume que emanava daqueles alvas vestes. Parou. Despiu lentamente o rosto do véu que o encobria e, desvaneceu. Era magnífica. Os lábios rosados desabrocharam um sorriso acalentador  e pediram um beijo. O rapaz lentamente e com uma certa sutileza a beijou. Que boca! Ele pensou. Beijava com ardor, com prazer. A princípio, o  beijo foi doce, muito doce e terno. Com o passar dos segundos, lentamente o beijo foi se tornando perdendo o gosto. Depois, um gosto amargo (nesse momento a mão do rapaz estava na região pubiana), depois terra e, então, sangue. O sabor do beijo era sangue.
Sangue começou a fluir da boca da noiva para a do Jhony. Ele tentou imediatamente desaglutinar-se dos lábios dela, mas prendera a língua do rapaz ficou presa entre os dentes da noiva. Ela mordia com muita força. E o sangue já escorria por todo o peito de Jhony. E coisas começavam a sair da boca da noiva. Vísceras. Ele vomitou naquele momento.
Quando a língua de Jhony se partiu ao meio e saiu de dentro da boca da noiva, os lábios dela ficaram colados ao dele. Jhony puxou sua boca e junto vieram os lábios, a boca, a pele do rosto, e do corpo e a noiva ficou com um rosto escaveirado, que nas profundezas dos buracos dos olhos se via o infinito, o caminho para o desconhecido.
A mandíbula com os dentes à mostra, ria uma gargalhada sem som, satírica, macabra, fazendo com que as pessoas ficassem extremamente apavoradas, e tentassem fugir daquele mundo sobrenatural, agora sim o inferno. Mas os seres que vieram com a noiva de Marcelo trancaram todas as portas.
A pele que estava morta ao chão se desprendeu dos lábios ensaguentados de Jonhy,  e numa velocidade espantadora ergueram-se com uma vida própria e pairaram no ar... lá do alto, a boca pronunciou numa voz cheia de ódio que queria Marcelo.
      Lá do alto, o monte de pele flácida viu o rapaz por entre as pessoas, conseguiu conhecer os traços do noivo mesmo com a fantasia de vampiro. Como que telepaticamente, a criatura de noiva com o rosto esquelético foi em busca do rapaz. Ficaram face a face... Marcelo ficou trêmulo e naquela hora talvez estivesse arrependido do que fizera. O rosto da caveira em sua frente, horrível, causava-lhe um medo e ao mesmo tempo ódio de si. Poderia morrer se pudesse. Ele pensou já estar morto. Ali havia de tudo, fantasmas, lobisomen, zumbis. Era um mundo irreal. De dentro dos orifícios negros dos olhos da noiva, Marcelo viu lágrimas escorrer. O vestido branco, do jeito que ela sempre sonhara, lhe caía tão bem que as curvas de seu corpo eram as mais perfeitas do local. O rapaz sentiu nojo de si e, forçou para seu coração parar de bater. Lágrimas das lacunas do esqueleto continuavam saindo. Era horrível, mas triste.
Então, o monte de pele que no ar, voou direto para o esqueleto. Juntaram-se à noiva. Marcelo estava com a cabeça baixa, em  desabafos e, quando ergueu o rosto, viu a imagem mais linda de toda seu existir. O rosto belo de Isabelini era alvo e meigo. Os lábios a que tanto Marcelo havia beijado estavam ali para ele novamente. Singelos. Os belos olhos azuis eram o espelho da vida, e neles haviam todo encanto apaziguador. Os olhos estavam repletos de amor.
Mas os seres que vieram com a noiva rodearem o casal. E começaram a preparar para levá-la de volta ao mundo dos mortos. Marcelo não queria deixá-la ir, ainda. Ele a amava. Segurou então no braço dela. Apavorou-se,  pois sua mão varou a carne podre da noiva e os dedos dele se encontraram. O braço de Isabelini se separou da mão e esta caiu no chão, um leve mau cheiro evaporou. Marcelo liberou lágrimas. E quis beijá-la. Lentamente aproximou seu rosto do dela e, os lábios grudaram-se...mas ela já estava se definhando. E Marcelo a beijava como nos velhos tempos. Apaixonadamente. Mas ela sumia. E o amante não deixava os lábios da amada. Isabelini não se via mais. E ele continuava a beijar. E quando ela estava sumindo totalmente, todos viram a alma de Marcelo sair de seu corpo e ir com a noiva, pois os lábios permaneceram colados.
O corpo de Marcelo caiu morto no chão.  .
 















Antonio Fabiano Pereira
Enviado por Antonio Fabiano Pereira em 12/01/2006
Reeditado em 13/01/2006
Código do texto: T97852
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Sobre o autor
Antonio Fabiano Pereira
Cornélio Procópio - Paraná - Brasil, 33 anos
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Antonio Fabiano Pereira