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INFILOSÓFICO FLOREIO DA ALMA

Caio Silvino avistou um vulcão em atividade e decidiu escalar a montanha. Queria constatar o perigo iminente que denotava espanto e beleza. Enquanto andava, permitiu-se uma reflexão sobre suas consecutivas derrotas que haviam deixado um rastro de mediocridade gritante. No balanço da vida as perdas se avolumavam; perfazendo um caótico cenário onde as chagas da melancolia que estavam incrustadas no inócuo coração, que jamais conhecera, sequer, um segundo de felicidade, lhe incomodavam.  Para caio Silvino, o mundo era um sepulcro de proporções infinitas. Para ele, que não vislumbrara luz, a penumbra que indicava tragédias era um alento que otimizava o providencial destrato da errante alma.

- Desprezível estadia.

Por mais que mentalizasse a extensão devastadora do universo, incompreendia o propósito da vida. Qual seria sua missão, se é que a tivesse, nesta famigerada passagem apelidada de reencarnação ou existência pré-estabelecida por alguma divindade.

- Tenho que dar um fim nisso!

Enquanto subia, sentiu a temperatura aumentar repentinamente. Avistou o mar da lava irrompendo montanha abaixo. Se havia algum sentido em sua trajetória, ele encerraria o ciclo de animosidades. Durante muito tempo havia experimentado o surgimento de ferimentos de natureza psíquica em razão de moradia em inúmeros hospícios.

- Hoje me libertarei desta amarra existencial.

Argumentou o imbróglio que pairava sobre o fenecimento final da matéria e o conseqüente retorno da alma. Não seria uma posição sintomática para refrear o povoamento na terra? Se todos as almas tivessem a missão de reencarnar, certamente a população mundial se manteria em igual número desde os primórdios da concepção humana. Entranhava o fato do crescimento populacional. Talvez partes das almas incorreriam à doutrina espíritas, sendo as demais descartadas como auras inúteis. Se assim o fosse, ele, Caio Silvino, estaria inserido no contexto do insurgismo.

- Se as agruras denotam crescimento, sinto-me diminuído.

No inconteste de sua revolta, Caio Silvino sentiu a lava deslizar sob seus pés. Uma arrebatadora temperatura consumiu sua epiderme, alcançou a derme e degenerou a tela subcutânea. Agora seus pés não captavam estímulo alguma. Apenas os ossos se movimentavam.

- Qual divindade vai interceder a meu favor?

Continuou o trajeto. A lava havia consumido toda a matéria até a extensão que limitava a articulação da coxa com a perna, de que participam o fêmur, a tíbia e a rótula. Caio Silvino não havia sentido a presença sintomática da dor. Os ossos continuavam a obedecer a seus comandos. O excessivo calor propiciava uma brisa que o envolvia de incontida euforia. De repente o gigante desistiu da erupção. A magma e seus gases associados se retiraram da superfície. Toda a lava solidificou-se

- Praga de vulcão sem atitude, onde já se viu parar assim um espetáculo tão grandioso?

Caio Silvino olhou para seus  ossos que estavam expostos até o joelho e viu a lava se firmar em estado sólido e encobrir os ossos, perfazendo uma camada áspera. Parecia nova musculação, mais resistente que a anterior, com um peso extra.

- Porcaria de vida! Porque não me deixaram morrer?

Talvez seu momento ainda não fosse aquele, ou fora poupado pela morte. Finalmente chegou ao topo da montanha. Desceu e andou pela abertura da erupção. Com ódio exagerado estampado na sisuda face, iniciou uma sessão de chutes. Viu que o revestimento de seus pés era mais potente que a rocha do vulcão. Findou por desmoronar a montanha, havia vencido o vulcão. Num salto, segurou uma potente nuvem e a despejou no coração do vulcão. Ouviu o gigante clamar por ajuda. Novamente impulsionou o corpo e despejou uma enorme nuvem no  orifício do vulcão. Após centenas de nuvens introduzidas no coração do desvalido vulcão, ouviu o mesmo se despedir num uivo final.

- Não brinque comigo, eu sou o próprio fogo.

Em apatia, Caio Silvino andou em círculos, contemplando sua vitória. Sentia-se com uma força nunca demonstrada antes. Continuava vivo, mas a descrença existencial ainda pairava sobre ele. Qual seria o sentido de ziguezaguear por estradas infinitas, onde o dissabor da solidão não interpretava seu contrato constitutivo? Não se sentia anexado a nenhuma ordem ou crença. Esta inutilidade da alma que não discorria sobre questão alguma decretava a ausência de qualquer dogma.

- Acho que vou tomar uma cerveja!

Caio Silvino sorveu o liquido gelado e pediu uma picanha como aperitivo. Sentiu uma aura duvidosa tomar chegada e sentar-se à mesa. Em instantes uma chuva de auras negras tingiu o céu e postaram-se à sua volta. Caio Silvino não demonstrava medo algum, sabia que era mais forte que todos.

- Obrigado, Caio Silvino, por ter nos libertado das trevas.

Caio Silvino não deu atenção às pobres criaturas. Sabia que a penumbra estava acima do solo, verificada no torpor diário que evidenciava obediência a deuses da mídia, divindades da política e carrascos apelidados de ditadores.
                             Em seu interior, Caio Silvino havia desistido de achar-se. A   clarividência do oráculo era um reacionário vernáculo reescrito por insanos, que nem mesmo a semântica seria capaz de aclarar o mistério da existência. No pêndulo da filosofia pairava uma absurda compilação de pensamentos.

- Como pode uma divindade estar presente ao mesmo tempo no coração de seis bilhões  de almas! – gritou Caio Silvino.

Pensou que não poderia haver uma totalização do mal. Talvez a metade dos habitantes fosse provida de auras iluminadas, em se procedendo a isto, certamente auxiliavam o criador na proteção da outra metade. Partindo deste prisma a eloqüência da bíblia tinha lá suas verdades. Olhou-se no espelho da vida e verificou que o fato dele existir era um atestado de realização divina.

- Outra cerveja – pediu Caio Silvino.

Incrédulo, Caio Silvino viu uma fumaça ser expelida por suas narinas, era o mal que se retirava de sua mente. Pode constatar a clareza de sua aura. Acreditou que destruindo o vulcão, acabara com todos os espíritos maléficos que haviam se instalado nele. A brisa apaziguadora da alegria beijou sua face. Num estalo de incontida felicidade, se permitiu um duradouro abraço. Fadas escreveram seu nome no céu, preenchendo o ar de notas musicais.

Raquíticos cães perseguiam uma raposa que pilotava uma moto. Um falcão perdeu o bico ao abocanhar uma estatueta de pássaro. O céu ainda reclamava a ausência das nuvens que haviam sido seqüestradas por Caio Silvino. Então, um clarão, acompanhado de um estrondo, trouxe nuvens, dezenas, centenas.

- O ceticismo é um engodo que dissemina a raça humana! – disse Caio Silvino a si mesmo.

Acendeu um cigarro e sorriu para a vida. Estava refletindo sobre sua antiga incompreensão arraigada em falsos deuses. Conceitos contrariados e preconceitos resolvidos. A descrença enterrada no poço da maldade, não mais era solicitada.

O manto negro da noite enlaçou a brisa do entardecer.
As condições atmosféricas evidenciavam a chegada de chuva. Apreciáveis partículas de água escorreram pela face de Caio Silvino. Ele sentiu a lustração da alma. Por um instante pensou tratar-se da enunciação de pranto. Mas não eram lágrimas, e sim, gotas de luar.





******ESCREVO O QUE SINTO, MAS NÃO VIVO O QUE ESCREVO.***
Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 27/01/2006
Reeditado em 17/02/2006
Código do texto: T104785
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Sobre o autor
Paulo Izael
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Paulo Izael

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