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Parte 1 - Crônicas de um Homem do Tempo - Capítulo 9457 - O Assalto do Paradoxo

"Foda-se, pegue-me se você puder, mate-me como um homem
Tenho o dedo no gatilho, sua vida está em minhas mãos"
Doubelieveingod, Natas



- Me passa a carteira de novo, seu filho da puta! - berrou o bandido, apontando o revólver para aquele jovem de gravata vermelho-vinho, camisa branca e calça cinzenta. - Querendo ferrar comigo, hein?

Aproximou-se e meteu a mão no bolso volumoso da calça onde estava a carteira do jovem, removendo-a pela segunda vez.

Ora... ele era um assaltante. Seu trabalho era encurralar as pessoas boazinhas em um canto e pedir, ou exigir, que contribuíssem com sua nobre causa. Era um trabalho rude e simples, e com a experiência de dezenas de assaltos, suas investidas sempre tinham sido certeiras, os desfechos rápidos e previsíveis, e a fuga, fácil. Não seria diferente desta vez.

Talvez tivesse calculado mal, ou se distraído em algum momento durante a performance do ato. O fato é que roubara a carteira desse mesmo rapaz, um mauricinho boa pinta de uns vinte, vinte e cinco anos, há não mais de dez minutos. Lembrava de toda a situação. Tudo muito fácil e rápido, como de costume. "Pare! É um assalto! Passe a carteira!"

Carteira bege de couro que ele conferia outra vez, verificando que ali havia o que houvera antes. Cédulas graúdas, cartões de crédito, documentos... Tudo exatamente igual ao que vira dez minutos atrás.

- Quieto aí! - grunhiu, fechando a carteira, usando de destreza para não deixar de apontar o revólver para o alvo. - Não quero ter de gastar uma bala com um tipo como você.

- Não pretendo forçá-lo a tanto - respondeu o jovem.

- CALA A BOCA, SEU VIADO! - berrou o outro, furioso. - Aqui o único que fala sou eu! Não sei como isso veio parar de volta dentro do seu bolso, mas pode ter certeza que não vai vê-la de novo. Vire para a parede e fique parado aí!

O jovem virou-se, sendo empurrado de encontro à parede pelo bandido, que colou o cano da pistola em sua nuca. - Você só sai daí quando eu voltar, compreendeu?

Sentindo que a situação estava sob controle, o ladrão meteu a carteira no bolso e saiu correndo beco afora, não sem antes ouvir o rapaz de gravata balbuciar...

- Até a próxima...

Aquela conduta despreocupada incomodava tremendamente o bandido, que ficaria satisfeito em poder esvaziar o tambor do calibre 38 naquele magricela almofadinha de meia tigela. "Eu devia voltar e mostrar quem manda para esse saco de estrume...", pensou ele, sorrindo, enquanto ganhava as ruas e misturava-se à multidão do início da noite, o revólver já escondido debaixo do largo sobretudo.

*****

Depois de ter caminhado por alguns quarteirões, o ladrão acabou entrando em um bar, cujo interior esfumaçado cheirava a suor, urina, cigarro, álcool fermentado e a todos os outros aromas secundários que pudessem se originar da mistura destes. Sentou-se em uma das cadeiras giratórias redondas que ficavam suspensas em um trilho metálico, junto ao balcão, e pediu uma cerveja.

O aroma carregado do lugar fê-lo lembrar daquele pobre almofadinha que assaltara minutos atrás. "O cara tinha colhões...", imaginou ele, recordando-se de que o idiota permanecera calmo, sem deixar pingar uma gota de suor sequer, mesmo com o cano da pistola enfiado na nuca.

E tinham sido dois assaltos pelo preço de um! Roubara a carteira dele uma primeira vez, e descobrira logo após ter fugido que não a possuía mais.

Na pressa, devia tê-la deixado cair no chão, o que fê-lo retornar pelo mesmo caminho. Por sorte, encontrou o tal jovem no lugar em que o havia deixado pouco antes, recolocando a carteira no bolso, bem a tempo de ser assaltado novamente.

Devia estar perdendo a forma. Precisava mesmo beber, e com a grana que havia na carteira poderia pagar um engradado inteiro, se quisesse. Só gente louca pra andar em vielas escuras como aquela carregando uma mina de ouro dentro da carteira.

Curioso, sentindo que ninguém iria reparar se fizesse uma breve conferência no fruto de seu trabalho, o ladrão puxou a carteira do bolso, abrindo-a.

Quase caiu da cadeira!

NÃO HAVIA NADA ALI! A CARTEIRA ESTAVA COMPLETAMENTE VAZIA!

De olhos arregalados, o homem incrédulo revistou furiosamente os compartimentos onde nem poeira mais existia.

Havia visto o interior da carteira, forrado de grana e papelada. Fora difícil até de fechá-la, de tão cheia que estava. E pior... os poucos trocados que ele próprio possuía também tinham sumido de seus bolsos.

Ele olhou em volta e engoliu em seco. Pensou em revistar o chão, mas isso seria ridículo.

O que diabos estava acontecendo ali?

"Até a próxima..."

Não! Ele NÃO estava ficando louco!

Parecia até uma coisa premeditada. O merdinha havia dito "Até a próxima..." duas vezes, tanto no primeiro quanto no segundo assalto. Havia sido enganado pelo maldito filho da mãe de gravata, talvez duas vezes.

Atento, retomando o controle das próprias emoções, o ladrão se projetou para fora do banco em que estava sentado e correu, logo que o homem que atendia no balcão demonstrou um mínimo sinal de distração. Desviando das pessoas, ele abandonou o bar como uma sombra, sem pagar pela cerveja, disparando como louco pela rua e embrenhando-se no primeiro beco que encontrou.

Bufando de raiva, imaginava o que faria caso tivesse a chance de encontrar aquele executivo prestidigitador de meia tigela que o tinha enganado DUAS vezes na mesma noite, sem SEQUER tê-lo tocado! Cinco ou seis tiros nas fuças do safado na certa tornariam aquela noite em algo menos miserável, pensou o homem, metendo a mão no bolso e sentindo que faltava algo ali.

A carteira... A maldita carteira havia sumido de novo!

Ele parou de correr, e começou a remexer o sobretudo, sentindo falta de uma outra coisa.

O revólver também não estava mais ali.

- Procurando por isto... - disse a voz do jovem de gravata, que andava sorridente na direção do estupefato bandido, segurando a carteira, aberta, de novo cheia, em uma das mãos... - E por isto? - e a pistola em outra.

*****

- Você deu azar - disse o jovem faceiro, de revólver em punho. - Devia ter escolhido melhor sua vítima da noite.

- Como é que você fez isso, seu... seu... - resmungou o bandido, ajoelhado no chão, braços para trás da cabeça, completamente rendido.

- Os truques? - riu o outro. - Você não viu nada, ainda, meu caro. Você vai ver outros ainda melhores daqui a pouco.
Sirenes de polícia soaram ao longe.

- Outros? - inquiriu o ladrão, nervoso. - Não tenho mais sua carteira, nem minha arma... O que diabos mais você quer de mim?

- Você teve a chance de me matar e não me matou. Eu, ao contrário, não tenho nenhum problema em matar alguém, pois tenho certeza que, com meu... poder... jamais serei pego.

- P-poder? - gaguejou o bandido. - Do que diabos...

- Gosto de testar minhas capacidades, e propus a mim mesmo o seguinte desafio: - o jovem agachou-se e olhou fixamente para o homem ajoelhado. - Vou matá-lo, SEM usar nenhuma arma, SEM puxar nenhum gatilho.

O bandido estremeceu.

O jovem levantou-se e andou alguns passos, afastando-se do bandido. - E para tornar as coisas ainda mais difíceis para mim, vou deixar sua arma bem... aqui. - O jovem abaixou-se e largou a arma no chão, deixando ver a luva fina de couro, cor de pele, na mão que segurara o revólver. - E agora, vou me dirigir para a saída do beco - disse, sorridente, distanciando-se devagar. - Faça o que bem entender. Você vai morrer dentro de alguns segundos, mesmo...

Ruídos de passos apressados e coisas sendo derrubadas nas proximidades.

Com os olhos espocando do jovem incauto para a arma ali perto, o bandido viu que tinha de aproveitar aquela chance. Como um gato, saltou, agarrando o revólver. Mirou nas costas do outro e atirou.

O primeiro policial que fez a curva no beco foi recebido com um tiro no ombro. Tombou, ferido, rolando e procurando proteção.

- Ele está armado! - gritou alguém, longe, e o som de armas sendo engatilhadas foram ouvidos pelo admirado bandido, que piscava os olhos, sem ter como acreditar no que via.

O rapaz de gravata havia sumido. DESAPARECERA, como uma miragem... Simplesmente deixara de existir.

"Cristo Deus! O... o que diabos está acon..."

- Você vai morrer agora - disse uma voz conhecida, vinda ali de perto.

- SEU MALDITO FILHO DA PUTA! - berrou o outro, virando-se e atirando para o lugar de onde vinha a voz.

- Ele está atirando! - alguém berrou. - Mandem bala no desgraçado!

O tiroteio foi intenso e breve, no beco, naquela noite de lua cheia.

*****

Longe dali, um jovem sorridente, de camisa social branca, gravata cor vinho e calça cinzenta caminhava pela noite, folhando as páginas de um espesso jornal daquela capital.

Relembrava as etapas de sua mais recente proeza e as vezes em que precisara usar suas habilidades e parar o tempo para garantir seu sucesso, como sempre fazia. A primeira vez, para chamar anonimamente a polícia, que faria uma batida em um determinado endereço, um certo beco, perto de um certo bar, em um determinado momento... A segunda vez, durante o assalto, para reaver a carteira do bolso do bandido. Mais uma vez, no interior do bar, para remover todo o dinheiro da carteira e dos bolsos do pobre coitado. Uma quarta vez, para desarmá-lo e deixá-lo novamente sem a carteira. E uma última vez, para escapar do tiro. Ah, e ainda havia a advertência final... "Você vai morrer agora".

"Porra! Seis vezes", pensou, vendo a manchete da página policial, que dizia em letras medianas: "Assaltante morto em emboscada policial no centro da cidade". A história dizia que a ação fora motivada por uma denúncia anônima, e que a polícia havia sido recebida com tiros pelo meliante, um foragido conhecido e procurado em vários estados, o qual, apesar de sóbrio, não parecia estar lúcido.

"Seis vezes", pensou ele, ainda insatisfeito, jogando o jornal de DEPOIS DE AMANHÃ em uma lata de lixo que achou pelo caminho. - Devo estar perdendo a forma... - disse. - Preciso praticar mais.

E seguiu seu caminho pela noite da cidade grande, pensando no que poderia fazer com os trocados que herdara do ladrão morto.
Fabian Balbinot
Enviado por Fabian Balbinot em 07/03/2006
Reeditado em 13/11/2014
Código do texto: T119965
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Sobre o autor
Fabian Balbinot
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 44 anos
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Fabian Balbinot