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Terra de extremos



Não cessaremos de explorar
E o final de toda exploração
Será chegar aonde começamos
E conhecermos o lugar pela primeira vez.
T. S. Eliot,
Four Quartets, Little Gidding, 1942.




Um deserto infindo, Saaras e Kalaharis, planícies cobertas de sal e uma tempestade de vento que só presta pra cegar os olhos. Um sol sem misericórdia. Quem já atravessou um, sabe, e mesmo certo de onde está, porque esperança é um hábito, você olha para o céu, para certificar-se de novo e de novo que nenhuma chuva vem, inconsolável e paradoxalmente resignado pela necessidade de sobreviver.
Semanas caminhando calado. Chegou a amaldiçoar todos os canalhas ocidentais que fizeram daquele inferno na terra um amontoado de estórias românticas num oriente distante.
As vezes, avistava um tuareg que em árabe quer dizer: “abandonado pelos deuses” embora esse povo nômade chame a si mesmo de “homens livres” mas esses, pouco falam, já tão acostumados a solidão daquelas paragens. Morrendo de sede e exaustão, começou a ter miragens. Via lagos cristalinos, pegava um pouco de água para pôr na boca na esperança de matar sôfrega e rapidamente o que o matava aos poucos, mas de súbito, a água se transformava em areia.
Começou a compreender a mística daquela paisagem de exorcizar demônios e todos que nele habitavam, ele matou, um a um, sem nenhum temor porque isso também se perde - a terrível força do medo que imobiliza. Nas madrugadas estelares ele sentia seu corpo flutuar, seu raciocínio era estranho, primitivamente pensava em círculos, como cíclica é a natureza. Súcubos vorazes o visitavam em sonhos, mulheres incandescentes o seduziam para depois, apavora-lo com línguas de serpente e ele derramava seu semên na areia. Pensou na única mulher que, de fato, amou terna e intensamente e todos os momentos em que viveram juntos, mas ela partira e até esse sentimento de rejeição e dor parecia agora, acolhedor.
Tudo isso é passível de acontecer nesses lugares porque nenhuma alma viva distrai o olhar e tudo o que resta à noite é o céu a ser contemplado como uma mandala de azul intenso salpicada de prata.
Depois de atravessar léguas e léguas sem fim, ele percebeu que já não existia, mas apenas o deserto. Agora, ele era areia infinita estendendo-se como um cordão que quase arrebentava entre dois hemisférios tão distintos e no entanto tão próximos: metafísica e fome, frio e calor. Ele era história calada e inscrita, vertida, mil vezes morta, renascendo de partos, alegria e dor em cada grão, puro nomadismo azul tremulando no véu dos tuaregues, imensidão de dunas que ondulavam lembrando o mar. O vento varria seu corpo e mil e uma noites o refrescavam para aquece-lo à cinqüenta graus no dia seguinte. Ele era terra de extremos e cada rachadura em sua pele ardia. Passava a língua seca nos lábios e imaginando-se um deserto podia sentir o frescor do Nilo e do Rio Amarelo em suas fendas. Graças a essa sensação já não fazia sentido morrer. Homens morrem, desertos não - ele pensava e repetia isso como uma ladainha circular, um amuleto contra a morte, quando, de repente avistou um oásis. Levou alguns segundos para registrar tal maravilha em suas retinas, já secas e queimadas pelo sol. Chegou, mesmo a pensar que algum velho demônio, o mais pérfido e cáustico, tinha sobrevivido só para aterroriza-lo até a morte, mas aquela ilha de vida exuberante nada tinha a ver com deuses e demônios. Era sua própria reserva de água e comida, seu sustento brotando de sua natureza, fonte subterrânea de água pura, jorrando na areia seca, vinda de uma profundidade enorme até romper a aridez que segundos atrás era impiedosa, cruel e no entanto, tão somente vida, sem dizer muito à que veio. Já não conseguia lembrar também quanto tempo havia passado - meses, semanas, minutos... e que importância tinha o deserto de uma alma ou a morte de um homem? O mundo morreu tantas vezes em genocídios silenciosos!
Ele descobrira o caminho de suas veias e aqueles eram os seus poderes. Filosofia ou sede, a única coisa que importava é que a temporada no inferno terminara. Ele estava vivo em seu próprio oásis e dessa vez, não era miragem.

 

Ana Valéria Sessa
Enviado por Ana Valéria Sessa em 19/03/2006
Reeditado em 29/12/2011
Código do texto: T125315

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Sobre a autora
Ana Valéria Sessa
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Ana Valéria Sessa