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PROTOCOLO

                         PROTOCOLO

        Cabe-me o protocolo, escrever as lenga-lengas, nomear os engravatados, elogiar seus dotes, rastrear os presentes, justificar os ausentes. A solenidade começa em seguida, sinto sonolências na platéia, também alguns entusiasmados fãs do presidente.

O texto ganha forma com os rabiscos de última hora. A secretária do presidente esqueceu de incluir dois ministros, não são do partido do homem. Incluo-os. Agora sim, tudo pronto.

Chegam os deputados, os prefeitos dos municípios da redondeza, enchem-se os bastidores. A segurança encarrega-se de admitir quem pode ou não chegar perto do mandatário. Afasta quem quer reclamar dos juros altos. Não vale trazer o assunto da reforma agrária e nem pensar em baixos preços dos produtos agrícolas. Sindicalistas, só na platéia, sem faixas e sem vaias.

A demora da vinda judia meus nervos. Quero desvencilhar-me logo das incumbências que somente aceitei porque sou radialista e amigo do prefeito. Tratei da voz na noite passada, tomei café reforçado, caprichei no visual. E o atraso me deixa o mais solitário dos presentes. Quero ir ao banheiro, sinto uma pressão no baixo-ventre, preciso livrar-me de um peido já. Não dá mais para sair do posto, o cortejo dos puxa-sacos deve trazer já o presidente. Agora é uma dor de barriga mesmo. Suportar o mal-estar chega ao suplício. E a demora prossegue.

Caminho de um lado para o outro. Converso rápido com a rainha da Festa. Ela está divina como as princesas. As duas também deviam ser rainhas, alguém cometeu a injustiça de ver dotes subjetivos nela que justificassem a escolha. Com dois passos alcanço um segurança e suplico-lhe que segure minha pasta com as folhas. Um minuto no banheiro não porá em risco uma solenidade que nunca começa. Num último olhar para a alameda pela qual o presidente assomará. Vejo movimentar-se a turma de engravatados. Uma forte pancada de chuva desaba sobre todos e um trovão soa no ar. Ninguém ouve o barulho do peido que ganha o mundo. Toca o celular. É a assessoria do presidente. Ele não virá mais porque o mau tempo não permite o pouso do novo avião dele no aeroporto local.


Prof Roque
Enviado por Prof Roque em 21/04/2006
Código do texto: T142971
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Prof Roque
Santa Rosa - Rio Grande do Sul - Brasil, 67 anos
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