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Nem tudo que reluz é ouro.

Entre o sabido e o vivido há uma distância abismal. Hildebrando sabia disso; mas, só sabia, não havia vivido isso ainda. Digo ainda porque, depois daquela manhã de sábado de céu azul, aos 34 anos, Hildebrando, ou Hildo, como nós, os amigos, o chamamos, teve a certeza, e sempre que havia ocasião nos lembrava disso, de que ninguém sabe ao certo, ao acordar,  o que lhe reserva o dia; por mais fértil que seja a imaginação de qualquer um, esta não dá conta das situações inverossímeis que podemos viver nas próximas horas, nos próximos minutos. Pois bem, Hildo viveu uma dessas que, como se diz, contando é difícil de acreditar. Contínuo de um cartório localizado no centro da cidade, já há alguns meses que ele almejava tirar umas férias do trabalho. E elas chegaram no mês de abril . Porém, quem já passou pela amarga experiência de receber um salário mínimo -é o caso de Hildo-, sabe que a alegria de sair de férias de um assalariado tem vida curta, do tamanho do seu salário. No primeiro dia de férias do nosso amigo ele fez, como sempre faz todos os meses, a sua feirinha mensal No segundo dia foi à cidade fazer alguns pagamentos, e... foi exatamente aí que o improvável veio lhe encontrar em pleno centro da cidade do Recife. Pago o que deveria ser pago, Hildo voltava pra casa ensimesmado, mão no bolso, riso lento, a manhã passando devagar, pensando no que faria durante os próximos 28 dias com os 20 reais que haviam sobrado pro mês. Conta nada fácil de ser respondida. Mas, de uma coisa ele sabia: um quartinho e uma cerveja lhe esperavam no Mercado de São José. Pensou em ligar para o colega de trabalho que gostava de tomar umas e morava, como dizia, "nos arrabaldes do centro". Aproximou-se do orelhão e... não acreditou. Dizem que quando estamos morrendo toda a nossa vida passa, em frações de segundos, diante de nós. O que Hildo viu sobre o telefone no momento em que se aproximou, deixou-o catatônico por, talvez, três segundos. E quantos pensamentos não lhe passaram pela cabeça nesses três segundos.  Algo do naipe daquilo que acontece, dizem, no nosso momento derradeiro. Um envelope de deposito bancário, no valor de novecentos reais, devidamente preenchido e lacrado, gordinho como que contendo muitas cédulas de dez e vinte, repousava,  tacitamente, sobre o telefone. Rápido como se rouba – não era o caso – Hildo levantou a camisa e pôs o envelope na cintura, olhou pros lados certificando-se de que ninguém testemunhara seu gesto furtivo, e saiu sem saber pra onde. Nos minutos que se seguiram Hildo mergulho num delírio, isso ouvi de sua própria boca, difícil de descrever. O pensamento primeiro era de que precisava sair, o mais rápido possível, para o mais longe possível; assim, saiu fazendo um trajeto que não tinha lógica alguma, só o desejo de afastar-se pra bem longe daquele telefone, daquela avenida, que lhe renderam uma história que morrerá contando. Pensou em pegar um táxi e ir pra casa; esta seria a forma mais rápida de ir pra um lugar seguro que pudesse conferir o dinheiro e replanejar suas férias. Um receio incrível de que alguém lhe interpelasse naquele instante, lhe furtou a tranqüilidade necessária para que parasse e tomasse um táxi. Caminhava sem olhar pra trás, certo do que estava vivendo, pois sentia o volume das cédulas em sua cintura. Deu uma caminhada boa, pois quando se deu conta já estava próximo do Mercado Público da Boa Vista. Decidiu entrar e escolheu o boteco mais tranqüilo naquele momento; sentou à mesa mais retraída e retomou o projeto de há vinte minutos. Com a tranqüilidade e conforto de quem acabou de achar novecentos reais quando dispunha de vinte pro mês que se iniciava –  conta, diferente da anterior, de bem mais fácil resolução – pediu uma cerveja, um quartinho e um guisado de porco. Ria, consigo mesmo, de como tudo pode estar por um triz, por um ponto; de como o acaso, se é que ele existe, tinha sido seu camarada naquela manhã. Olhou ao redor pra ter a certeza de que não era alvo da atenção alheia... e tirou, discretamente, o envelope de depósito bancário contendo os novecentos reais. Colocou-o sobre a mesa e fitou-o demoradamente, ainda convencendo-se do que lhe acontecera. Por fim, dispôs-se a abri-lo; segurou-o firmemente, como a uma taça de cristal, e já pensava no presente que compraria à sua noiva, Clara. Estava entretido nesse pensamento quando rasgou a parte superior do envelope e retirou as oníricas cédulas. Ficou sem palavras. Não conseguia pensar e dizer nada, só olhar... e não acreditar. As cédulas de dez, vinte e cinqüenta reais eram daquelas utilizadas em panfletagem de crédito “fácil” para aposentados, pensionistas e funcionários públicos. Não bastasse, em uma delas havia sido escrito o seguinte recado: “Otário, babaca, quer ganhar dinheiro fácil? Vai trabalhar, vagabundo!!!”. Pela segunda vez, em trinta minutos, quase todos os sentidos lhe fugiram por alguns segundos. Tudo não passara de uma “pegadinha”.  Hildo, que é dado a frases lapidares, em  uma delas afirma que “um dos piores defeitos que uma pessoa pode ter é a caturrice, a incapacidade de rir de si mesma”.  Em homenagem ao acontecido, tomou outra cerveja, divertiu-se com o ocorrido e teve uma idéia: chamou o garçom, pediu a conta e foi procurar um telefone público.


Alexandre Valdevino
Enviado por Alexandre Valdevino em 01/05/2006
Reeditado em 11/10/2009
Código do texto: T148384

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Sobre o autor
Alexandre Valdevino
Recife - Pernambuco - Brasil, 44 anos
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Alexandre Valdevino