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Negócio de morte


_Bom dia.
_Bom dia, senhor. Em que posso ajudá-lo?
_Bem, eu gostaria de fazer um orçamento do plano de morte que vocês tem a oferecer.
_Ah, sim, claro. O senhor já conhece nosso serviço?
_Na verdade não. Um amigo_que Deus o tenha_ antes de partir falou-me a respeito de forma superficial. Parecia muito animado. Pela forma como morreu, havia um quê de felicidade estampado em seu rosto. Acho que lhe valeu o investimento.

_Pois bem. Ammm... temos o plano de morte à vista, com desconto. Nesse plano o senhor morre no ato do pagamento. É rápido e sem burocracias; temos a seguir a morte em suaves prestações: o senhor dá uma entrada e vai morrendo aos poucos de forma a não lhe pesar na consciência o investimento efetuado. Nesse caso, como o senhor evidentemente pode compreender, o não pagamento de uma prestação, automaticamente suspende o processo de morte e o senhor ficará em estado vegetativo consciente controlado, até o pagamento da próxima fatura acrescido de um pequeno juros de praxe.

_Temos também planos mais econômicos como por exemplo o nosso PMT - Plano Morte Temporária: nele o senhor desfruta de um coma induzido que lhe dá uma sensação peculiar de uma , digamos assim... morte temporária. Muitos de nossos clientes ao retornarem_e eles retornam pois senão serão os familiares que assumirão os custos complementares... hum hum_ nos dão testemunhos interessantíssimos de satisfação.

_Diga-me uma coisa: há algum caso onde o cliente ávido por morrer, depois de efetuada a morte, por algum motivo alheio ao estabelecido, tenha retornado e conscientemente relatado o ocorrido no pós morte?
_Olha, isso é meio raro. Em nossos registros há somente dois casos semelhantes: primeiro foi uma senhora de 63 anos que pesava cerca de 112 kgs. Ela pagou à vista e teve morte instantânea_assim parecia que tivesse sido. Após a conclusão dos procedimentos, enquanto a equipe já se preparava para ir embora, os sinais vitais voltaram e ela, totalmente frustrada,retornou.

_ E nesses casos, há o reembolso pelo fato da morte não se consumar?
_Senhor, nosso contrato prevê em seu parágrafo 87, cláusula 21, que o cliente nesses casos não será reembolsado por enquadrar-se em um episódio imponderável que somente quem determina quem morre ou quem viva é que pode lhe responder.
_Quer dizer que nesses casos o que realmente morre é o dinheiro pago.
_Sim senhor.

_Ok, obrigado. Vou fazer o plano à vista.
_Muito bem. Queira assinar aqui... aqui e aqui.
_Posso fazer um telefonema para minha esposa antes?
_Claro. Fique à vontade. Já retornamos para executar os procedimentos.

_Amor, tudo bem? Ó, estou aqui na sala dos procedimentos. Você vai vir me assistir na partida com as crianças?
_Não vai dar amor. Estou indo ao shopping com a Elisa.
_Ah, tá. Então... boas compras e, se a gente não se ver mais, não esquece de acertar o meu blazer preto que deixei na lavanderia.
_Tá bom querido... boa morte... tchau.


_Então, o sr. está pronto?
_Sim.
_O sr. quer dizer algo pra ficar gravado antes de ir?
_Humm... deixa eu ver... Sim.
_Pode começar, está gravando.

_ Aos que me ouvem, gostaria de dizer que enquanto estive vivo eu deixei marcas que... que...

_Olha, por favor, estou sem inspiração. Não sei o que dizer.
_Tudo bem. Se o sr. quiser, temos alguns textos prontos produzidos com a opção de música de funto, desculpe-me, de fundo, acompanhando. O preço é o mesmo.

_É... humm... essa aqui, a número 29.

Eram 20h45 quando o serviço executado, o foi com o sucesso do profissionalismo de sempre. Como teste, podia-se ouvir a mensagem número 29 tocando ao fundo o tema de abertura de Zorro de Walt Disney.

_Não há motivos para tristeza. Não é exatamente medo da morte, mas do momento em que ela ocorre; e isso é único, impagável. Estar vivo quando isso acontecer, não me custou barato.
     
leandro Soriano
Enviado por leandro Soriano em 14/05/2006
Reeditado em 14/05/2006
Código do texto: T156126
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Sobre o autor
leandro Soriano
Santos - São Paulo - Brasil, 59 anos
199 textos (8375 leituras)
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leandro Soriano