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Visita prematura

Au au au!, pedindo meu Pitchou para abrir a porta, obedeci co's olhos cheios de sono.
Era o Sr. Progresso, totalmente desestabilizado e tristonho, rosto sulcado por tentativas vãs de poder, ansiando refugiar-se nos aposentos anti-globalistas, que lhe possibilitassem reaver intentos e ações de equilíbrio.
Eu o recebi  com um cafezinho estimulante, embora muitos patenteassem outras drogas de efeito fulminante, mas meu espírito psiquiátrico faliu diante de argumentos inexoravelmente fundamentados.

-A mim, dizia o velho num sopro apagado, tudo começou errado com meu nascimento desprogramado e meu crescimento desordenado, sem diretrizes nem equilíbrio de causas e efeitos.
Foi quando lhe passei minha impressão anatômica, de que após a instituição do Sr. Progresso, mais fácil seria aparar toda e qualquer aresta, similar  a subirmos uma escada íngreme pulando os primeiros difíceis degraus.

-De modo algum  tal atitude impensada prolongaria minha vida, pois o que preciso, precisava, pois agora minhas forças se aposentaram, eram etapas transitórias para alicerçar e solidificar minhas raízes. Sou um fadado suicida covarde, desgostoso de ver minha patente usada para a destruição incônscia, sentindo delinqüente o meu nascimento.

O Sr. Progresso me deixava de orelhas em pé...

-Para sucesso real são imprescindíveis etapas estruturais humildes, contrariando a  cavalgada galopante, que abrevia detalhes aplicáveis às relações politicas, economias, sexuais, espirituais...

-Mas nós, disse eu, somos cobrados por nós mesmos, de resultados absurdamente compensadores a curtíssimo prazo, e cumprindo reciprocidade anacrônica revertemos nosso desaprendizado,  legando uma herança desumana errônea. Numa sociedade reprimida e sem voz, instaurado o regime democrático - ainda que entre aspas - ingratos à  conquista louvável, reinvidicamos o impossível, exigimos com presteza, revoltamo-nos com a normal lentidão dos fatos, impugnamos o gorvernante, cuja substituição semelhante torna tudo sempre igual, simplesmente porque os problemas umbiliais não sanados vertem paralisia total.
Eu verde de indignação com a dura realidade, Sr. Progresso bocejando, como quem assistia um filme insosso pela enézima vez:

-De que adianta um progresso galopante?, faz-se a revolução, mata-se e morre-se pelo poder, vitória sequelada e irremediavelmente abalada pelos derrotados. Parece antagônico despretigiar a vitória, porém ela não é perene e enquanto são exibidos seus louros, derrotados e afins, temendo ser espremidos,  organizam disfarçado revanchismo social (econômico, políti, cultural... ) e a remota vitória não se conclui, ao contrario, abre portas alternativas de bem e mal, num infinito recomeçar, outrossim ... Valha-me Deus, sou um velho e preciso respirar, já me cansei disto

Au au au, Pitchou cheio de tanto  blá blá blá, cobrou-me a hora do seu pipi e disse que:
-Afinal de contas este veinho chamado Progresso já tão véio que ninguém  sabe o que fazer com ele, tu choras e confunde tudo. POR FAVOR, eu preciso alinhavar minha vida caninha, educação que tenho quero mostrar no parque de todas as tardes;
E em meio a tanto blá blá blá ... larguei o Sr. Progresso pra lá, beijei o Pitchou que abanava o rabinho e ao chegarmos ao Parque, latíamos instintivamente.
Como é fácil a vida dum  cãozinho!

Grenoble-Fr-23/05/2006
Inês Marucci
Enviado por Inês Marucci em 23/05/2006
Código do texto: T161132
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Sobre a autora
Inês Marucci
Santos - São Paulo - Brasil, 54 anos
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Inês Marucci