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Vampiros

        Ficava pensando na minha vida… ou o que restou dela. A noite chegava e me encontrava deitado em minha cama, fraco, submisso, acabado. Minhas forças foram se extinguindo. No meu pescoço havia dois furos.
Estava me transformando em um vampiro, eu sabia disto. Só eu sabia. Eu e a prostituta das trevas por quem me apaixonei. Sentia saudade do tempo em que eu era dono da minha própria vida, dos meus atos, dos meus sentimentos. Depois que perdi o controle de tudo, descobri que nunca dei valor a estas coisas tão básicas.
A janela estava aberta e ela poderia entrar a qualquer momento. Nunca amei tanto uma mulher. E nunca odiei tanto. Estava sendo levado para o inferno e não conseguia fazer nada a respeito. Passarei a eternidade afora buscando sangue, num tomento sem fim, apenas porque me apaixonei por uma bela mulher que me prometeu a vida eterna. Como eu iria saber que ela era uma vampira?
Quem me dera voltar ao meu passado, para a minha vida normal, onde minha fome e minha sede eram saciadas rapidamente. Não tinha forças para me levantar e fechar a vidraça. Temia que ela entrasse a qualquer momento e me levasse de vez embora daqui, da minha casa, dos braços dos meus pais. A fome e a sede de sangue que eu sentia era quase enlouquecedora.
Ela entraria de qualquer jeito. E eu sentia a falta do corpo dela, daqueles olhos profundos, dos cabelos vermelhos. Minha princesa. Minha princesa das trevas. Por que, entre tantos homens, eu tive que ser justamente o escolhido? Por que? Por que? Quem me salvaria?
Reuni minhas últimas forças e sentei-me na cama. Até a janela seriam quatro passos, calculei mentalmente. Haveria alguma chance de fechá-la e eu escapar? Depois, eu poderia descer cambaleante até a sala da minha casa, pedir ajuda para meus pais e explicar tudo. Eles não acreditariam, mas poderiam, sim, me levar para algum lugar bem longe daqui, para tratar o filho mais jovem que andava ultimamente louco da cabeça. Sim, esta poderia ser a saída.
Foram quatro passos dolorosos até a janela, onde fechei a vidraça e cerrei as cortinas, puxando todo o ar que tinha dentro dos meus pulmões. Então a fraqueza tomou conta de mim por completo. Tonteei. Senti que iria desabar no chão.
Mãos me seguraram, apoiando-me. Eu estava tonto, de olhos fechados. Mas eu sabia quem era, quem me segurava. Fiquei feliz e ao mesmo tempo desesperado. Não havia escapatória, jamais houvera. A voz da única mulher que amei na vida sussurrou no meu ouvido:
- Você jamais fugirá de mim.
E será que eu queria mesmo fugir? Abri meus olhos e a encarei, a tontura ainda de leve martelando na minha cabeça. Murmurei, sentindo a morte me espreitar:
- Sinto medo… quem me dera voltar a ser quem eu era.
Como resposta aos meus terrores, os caninos dela se cravaram em meu pescoço. Senti uma dor aguda, minhas unhas se cravaram em suas costas e meus joelhos dobraram. Transformei-me em um vampiro naquela noite. Sou um caminhante das trevas. Eu e minha legião avançamos pelo mundo, sem dó nem piedade. Filmes são feitos, histórias são contadas. Tratam-nos como lenda, pensam que não existimos.
Mas eu estou ao seu lado. Agora.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 28/05/2006
Código do texto: T164655
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37918 leituras)
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Patrícia da Fonseca