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MINHA VIDA (PARTE III)

 ‘Sr “POLÍCIA”!

.................. CONTINUAÇÃO ......


Data marcada para a apresentação – 29 de abril de 1973 – Quase morri de satisfação ai sim, já não pensei que era “polícia” tinha certeza. Ledo engano. Apresentei-me na sede do DER/SP e como a Polícia Militar tinha absorvido a Guarda Civil, o mesmo ocorreu com a Guarda Rodoviária e, assim, fui enviado para o Sétimo Batalhão da Polícia Militar na Cidade de Sorocaba.
Fomos transportados de São Paulo para Sorocaba num caminhão Ford Velho, da Polícia Militar, o pelotão completo (40 homens), vestidos de calças jeans e camisetas brancas.
Quando descemos no meio daquele imenso pátio – 7o. Batalhão de Infantaria - cercado de pé de mangas, parecíamos extraterrestres, e todos acorreram para nós (os recrutas mais antigos) e nos olhavam com caras de indiferença e pouco caso. Não tardou muito, para um gaiato dizer: essas são as “mocinhas da rodoviária”? Não preciso dizer que o período em que passei lá (dois meses e meio), aprendendo a marchar, fazer continência e conhecer as patentes e graduações militares, fiquei sem poder vim para casa nos finais de semana, pois, toda semana eu tinha a licença cassada (LC) porque na maioria das vezes contestava aquele monte de babaquice; não me conformava com o regime aplicado (RD) Regulamento Disciplinar , nem tão pouco com os “ensinamentos’ (sic...) – aprender hinos: Da Cavalaria
“Cavalariaaaa.... Arma ligeira .......
Cavalariaaaa...., tu és a nossa estrela guia...
Do “Tobias de Aguiar (Patrono da Polícia Militar/SP) –
............ Cento e trinta de trinta e um.........
Esse hino faz referencia a criação da Corporação Militar Paulista, que foi fundada com 130 homens, no ano de 1831, por Tobias de Aguiar. Cuja sede era na Avenida Tiradentes, São Paulo, onde funciona hoje o 1o. Batalhão da Polícia Militar, Batalhão da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguar) – A Polícia de Choque mais temida pelos “malacos” paulistanos.
Eu contestava tudo aquilo. Aprender essas coisas pra que? Hino da PM, da Cavalaria, da Bandeira? Como Policial Rodoviário, não precisava saber nada daquilo. Não teria nenhuma utilidade na estrada. O que precisávamos mesmo aprender era sobre primeiros socorros, legislação de trânsito, mecânica de automóveis, bons costumes (educação mesmo), português, regra de três para calcular a velocidade dos veículos, e outras coisas...
Eu ficava muito aporrinhado com tudo aquilo, e demonstrava meu desinteresse de cidadão de espírito civil cochilando nas calorentas salas de aula, o que me rendia o tal do “LC” (licença casada) e mais um final de semana preso no quartel.
Desde aquela época eu já era visionário, não queria ser um “Soldadinho de Chumbo”; não queria ser “Meganha”. Eu entrei para a Polícia Rodoviária e não para a PM, o meu pelotão, era um pelotão especial, de policiais do Departamento de Estradas de Rodagem, mas, o Comando Geral da PM, fazia questão de nos impor todo aquele inútil “ensinamento”. Na visão dele, nós não éramos Policiais Rodoviários e sim, PMs do recém criado Batalhão de número 39.
Ah! Meu Deus. Ficamos lá aqueles dois meses e poucos dias e finalmente nos mandaram embora, mas, o trauma impingido aos recrutas do DER  foi tão profundo, que depois de “prontos”, se alguém os chamassem de PMs, com certeza receberia um tiro na testa. Graças a Deus, esse tal batalhão de número 39, em pouco tempo foi substituído pelo CPRv. (Comando de Policiamento Rodoviário),  subordinado ao Secretário dos Transportes e dessa data em diante a única ligação que tínhamos com a PM era somente o “hollerits”, (por sinal, levinhoooo...) pois, recebíamos da PM e da Secretaria dos Transportes.
Com o encampamento da “GR” (Guarda Rodoviária) pela PM, criou dentro da corporação Polícia Militar uma animosidade tão imensa entre as duas polícias, que os PMs residentes no interior do Estado, quando se avizinhavam das Bases Operacionais da Polícia Rodoviária para pegar carona eram enxotados pelos antigos Guardas Rodoviários. A coisa era tão feia que o maior castigo que se poderia aplicar a um Guarda Rodoviário era despojá-lo da sua farda e obriga-lo a vestir o uniforme da PM. O individuo se sentia desonrado. É verdade! Eu mesmo passei por isso quando fui envolvido numa “trata” administrativa e me tiraram a farda. Nossa! Só não dei “baixa” por causa das crianças (meus filhos) que eram pequenas. Foi a maior angustia da minha vida. Aquele ato administrativo me transformou em Egun; eu era Rodoviário mas não era um Policial Rodoviário. Com aquele uniforme não poderia ir à pista, estava restrito aos serviços internos do batalhão. Eu era um espírito sem corpo, achando que era encarnado, um verdadeiro Egun.
O Comando de Policiamento Rodoviário era um batalhão politizado, com pessoal, uniformes e viaturas diferenciadas. A própria linguagem e postura da trapa eram diferentes dos da PM, e isso, despertava ciúmes, foram vários e vários entreveros no inicio da convivência, pois a Policia Militar foi criada pela constituição (encampamento) das policias: Força Pública, Guarda Civil, Guarda Noturna e Guarda Rodoviária. Nossa! Deu uma confusão ideológica danada e além do mais, foi equiparado, mantido e elevado o posto ou graduação de cada integrante encampado, causando travamento no almanaque de promoção da Policia Militar. Por outro lado, os policiais da rodoviária ganhavam dois salários, o da Polícia Militar e outro do DER.
Após esses dois meses e meio no Sétimo Batalhão de Infantaria  - aprendendo a fazer continência e aprendi mesmo, pois, no primeiro dia, fiz continência para um Sargentão com a mão esquerda, “putis”! esta foi a minha primeira “falta” e por causa disto, tive a primeira licença cassada, tchau final de semana!!! No mesmo dia falei com o meu instrutor, o 1o. Ten. Pellegrine, que queria “minhas contas”. Queria voltar para casa, ele simplesmente sorriu e passou tantos exercícios de solo que quase me matou, e não contente, juntou os dois pelotões que estavam ao seu comando – quarto e oitavo (o meu era o oitavo) e formou duplas de luta livre. Eu cai com um negrão que mais parecia um armário (de aço pintado de preto) do que gente (aqueles negões fortes, do peito tão largo que os braços não fecham na cintura) . O negrão do quarto pelotão começou a gingar na minha frente e eu simplesmente fiquei parado, em determinado momento pensei, vou dar uma porrada no nariz desse negrão e corro, digo e feito, quando ele abaixou a guarda eu “pumba”, não sei o que deu errado, pois de repente fui atirado para trás e cai uns cinco metros depois, é que o negrão me acertou mo meio da barriga me projetando para trás como se eu fosse um projétil, ai eu danei a chorar e disse para o tenente que iria embora de qualquer jeito, ele disse que isso não era possível, pois eu era “Carga do Estado” e se teimasse seria preso. Como continuei chorando ele encerrou a aula de educação física daquele dia. Só sei que foi um inferno a minha vida, pois a metade do batalhão ficou em cima de mim atazanando a minha vida.  Como dia, após aquele período de aprendizagem militar, fomos apresentados ao Batalhão Rodoviário, como era uma sexta feira, o Coronel Paschoal nos dispensou para retornarmos na segunda e assim, começamos de verdade o curso de policial rodoviário, no prédio da Fatec, na Avenida Santos Dumont.
RAYSAN DE SOUZA
Enviado por RAYSAN DE SOUZA em 08/07/2006
Reeditado em 17/10/2008
Código do texto: T189779
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Sobre o autor
RAYSAN DE SOUZA
São Paulo - São Paulo - Brasil
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