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PARQUE TEMÁTICO (EC)

“É tarde”- disse o motoqueiro assim que lhe arrancou o retrovisor do carro. Ela, sem olhar para trás, porque não era mesmo possível, saiu seguindo o rapaz de jaqueta esquisita. Não era fácil acompanhá-lo, mas as cores fortes no capacete permitiram que o avistasse de longe.
 
Perseguiu-o pela ampla marginal até a saída  para a avenida onde predominava o comércio de peças de automóveis . Diante da loja mal iluminada e adornada por rodas e calotas, ele entregou a encomenda. Ela, sem vaga para estacionar, parou em fila dupla desejando fortemente que seu carro fosse uma caixa de sapatos. O que, surpreendentemente, aconteceu. O carro , uma caixa e ela , uma noiva de bolo de casamento.

Segurando o véu e erguendo o vestido esforçava-se por se fazer ver pelo motoqueiro a quem queria cobrar o espelho quebrado. Quase foi pisada pela enorme bota, antes de cair pelo ralo do chão frio de caquinhos vermelhos. Um cheiro horrível a fez perder os sentidos, indo acordar no fim da tubulação de esgoto.

Um rato enorme e sorridente a recebeu. “Vais a uma festa junina?”. Ela se deu conta do traje que vestia e  retrucou : “Se você me ensinar o caminho.”.  O rato de jaqueta preta, tatuagem e brinco, era o motoqueiro. Esqueceu-se do ridículo da roupa e cobrou-lhe o retrovisor. A resposta veio rápida. “É só comprar na loja aí de cima”.
“ Por que comprar se ele é meu ?”. O rato lhe sorriu mostrando um piercing brilhante no dente pontiagudo. “É a lei do lugar e se quiser sair é só escolher o cano certo.”.

“Qual?” perguntou a moça vertendo lágrimas como a chuva do fim de semana. “Isto você vai descobrir. A dica é esta pizza com dois sabores . Agora vou fumar meu narguilé  porque, aqui  dentro, a lei da rainha não permite.”.

 Ela ainda tentou acompanhá-lo para descobrir a saída, mas ele desapareceu mergulhando no rio de lágrimas.  Mesmo triste e amedrontada, entendeu que não adiantava ficar chorando. Pequena do jeito que estava, morreria afogada em minutos. Ajeitou o véu e a maquiagem borrada, alcançou um pneu que seguia a correnteza, sentou-se e abriu a embalagem da pizza.

Por que estaria ali a saída? Mordeu um pequeno pedaço da mussarela e percebeu seu corpo crescer, mas crescer tão sem controle que intuitivamente mudou para o sabor alicci.  Um pedaço de cada e ela voltou ao tamanho normal. Mas onde a saída? Só então notou o brinde na embalagem. O quadrinho pontilhado era  o ingresso para um parque temático.

Feliz  em seu tamanho natural, cortou o papelzinho e seguiu sobre o pneu até o cano indicado. Sentiu culpa em não encontrar um cesto de lixo reciclável para o restante da embalagem, mas era preciso sair.  Deixou o papelão boiando, assim que avistou o cano indicado.

À entrada,  lá estava o rato motociclista recolhendo ingressos. “ Vejo que encontrou a saída.”  “Mas aqui diz  “Parque Temático”. É isto mesmo?"- ela perguntou. “ Pois entre e verá”, respondeu o roedor.

A moça, ainda acomodada sobre o pneu, seguiu a tubulação, ansiosa pela saída. Pouco lhe importavam as atrações. Queria a luz do dia.

Assim, nem notou a coreografia das cartas de baralho, o jogo de críquete , a reprodução da mesa de chá, a decoração natalina, o anúncio do shopping, os pequenos vídeos passando o telejornal, os malabarismos do menino, o pacote de balas em seu retrovisor.

Retrovisor?

“Moça, moça!. É tarde!” – o rapaz batia no vidro para chamar-lhe a atenção. “ A água lá na frente  baixou e os carros já podem seguir. Acho que a senhora dormiu”.

Assustada, olhou para o rapaz de capacete colorido, nem agradeceu, ligou o carro e partiu.

O moço ainda perguntou sem sucesso na resposta:

“Este buquê é seu?”
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Este texto faz parte do Exercício Criativo - Conte-me um Conto.
Saiba mais, conheça os outros textos: http://encantodasletras.50webs.com/conteumconto.htm
Maria Alice Zocchio
Enviado por Maria Alice Zocchio em 08/01/2010
Reeditado em 08/01/2010
Código do texto: T2017832
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Alice Zocchio
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Maria Alice Zocchio