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Pedaços de Evaristo

Em uma praça no centro da cidade, Evaristo sabia muito bem o que fazer. Ainda com pouca idade, não via outra alternativa. Sua mãe o adorava e ele sabia que era o único orgulho do pai. Bonito até demais, Evaristo sorriu ao lembrar das garotas que deixaria. Por um instante começou a se lembrar da infância. Mas não, agora queria apenas se lembrar das causas do acontecimento. Pegou uma folha do caderno e por um momento ficou em dúvida sobre escrever ou não. Por fim, achou que seria melhor deixar palavras-chaves. Aos poucos, elas foram surgindo: miséria, desprezo, intolerância, violência, corrupção, desamor, solidão. Colou a folha no peito e vestiu novamente a camisa. Saiu do parque e no caminho, queria lembrar de quando era criança e ouvia histórias de guerreiros e princesas. Lembrou dos doces preferidos, dos amigos tão especiais, dos risos, das canções, do único amor que não teve, o de Amélia. Isso tudo passou muito rápido e o choro foi inevitável. De tanto chorar, teve que sentar para se recompor. Queria estar mais bonito do que nunca. Enquanto secava o rosto, um senhor apareceu e perguntou se Evaristo sentia bem:
__ Apenas um corte, nada de mais, obrigado.
__ Quer que eu te leve até em casa? __ As palavras do senhor incomodaram Evaristo, por convicção, tinha certeza de que a humanidade não tinha mais jeito. Ficou alguns segundos pensando e respondeu:
__ Não, obrigado. __ O senhor sorriu e saiu andando, catando uma chupeta de neném que caiu sem a mãe ver. Evaristo pensou que isso não era o bastante. Tanta gente já tinha até dado a própria vida e nada adiantou. Levantou um pouco cansado e continuou seu caminho. Olhou uma meia dúzia de pernas que estavam num ponto de ônibus e se sentiu egoísta e homem de novo.
__ Sexo e dinheiro, só isso que eles querem de você. __ Pensou o pobre Evaristo indo até uma loja de revelação de filmes fotográficos. Queria tirar uma foto de estúdio. Algo bem produzido mas que não ficasse exagerado ou patético. Quando a foto ficou pronta, colocou-a no envelope e endereçou à sua mãe. Fez tudo muito rápido pois queria cumprir seu destino antes do anoitecer. Escolheu uma ponte. Achou que assim ficaria legal de aparecer num jornal. Com alguns carros passando, tirou sua camisa, certificou-se de que a folha estava bem agarrada ao peito e pulou. Três segundos e seu corpo inundou uma pequena praça. Crianças saíram correndo. Miolos, pele, braços, tripas, pernas. E as veias foram se expandindo, o sangue mais vermelho que nunca tentava alcançar as mães amedontradas. Em poucos minutos uma rua se alagava, a cabeça de Evaristo esboçava um sorriso e os cabelos também cresciam junto. O peito de Evaristo foi apanhado por um velho que não sabia ler. Apenas largou o papel no chão inundado de sangue, sangue... a cabeça de Evaristo tinha os olhos abertos. O pobre rapaz, um mártire, viu seu papel se dissolvendo, ao seu lado, sem ao menos a chance de ser resgatado pelo dono. Diante disso, só podia gritar.
__ Nossa, que sonho horrível.
__ O que foi, amor?
__ Sonhei que tinha pulado de uma ponte. Quantas horas?
__ Sete e meia.
__ Droga, a reunião era às sete.
D Ana
Enviado por D Ana em 09/08/2006
Reeditado em 22/01/2008
Código do texto: T212867
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Sobre a autora
D Ana
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 29 anos
32 textos (2685 leituras)
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D Ana