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O Porteiro do Grand Hotel Royal

Realizei o meu sonho aos 17 anos, quando comecei a trabalhar no Grand Hotel Royal. Iniciei como mensageiro, carregando malas de Getúlio Vargas a Madonna, ora sendo elogiado, ora levando desaforos. O hotel era um marco, trabalhar aqui era um orgulho pessoal. Os hóspedes caminhavam pelo piso de mármore italiano com sapatos caros, apoiavam no balcão da recepção de madeira nobre e faziam check in. O restaurante e o bar estavam sempre lotados de poderosos locais e internacionais, todos conversando num sussurro agradável, de pessoas finas, educadas. Gostava de escutar o barulho do balançar da coqueteleira confeccionando o melhor Dry Martini da cidade. Também deliciava com o tilintar delicado dos gelos no copo de uísque dos senhores barrigudos e engravatados.

Aos 40 anos de trabalho no Grand Hotel Royal, havia chegado ao ápice da minha carreira: capitão-porteiro. Era uma figura marcante, o homem de silk hat, um verdadeiro cavalheiro que recepcionava todos que entrava no hotel. As luvas, branquíssimas, eram retiradas quando algum hóspede conhecido vinha me cumprimentar. Era um trabalho que requeria muito sorriso, rapidez, criatividade e humildade. Já cheguei a proteger uma hóspede de um assalto ousado em frente ao hotel. Fui fotografado e saí numa revista, dessas de celebridades, ao lado da bela Claudia Schiffer, a revista, claro, guardei com carinho. Recebia presentes de clientes, de pelúcia de canguru (“para sua filha...”) a jogo de saquê japonês. Pois os hóspedes conheciam a minha vida, gostos, hábitos.

Com esse emprego, criei três filhas, todas formadas. Batalhei para que elas estudassem, pois, se eu tivesse estudado mais teria chegado a Gerência Geral do hotel. A minha esposa faleceu quando elas estavam na adolescência e tive que atuar no papel de pai e mãe. Graças ao meu esforço e claro delas e da minha mulher que nos protegiam do céu, elas se casaram bem e geraram vários netos para mim. Eu estava feliz.

Porém, um certo dia, nós devotados funcionários do Grand Hotel Royal, recebemos uma notícia chocante: que o hotel seria vendido. Mas não para um outro hoteleiro, e sim para uma empresa, onde iria transformar as belas e aconchegantes acomodações em escritórios frios, de carpete cinza e iluminação fosforescente.

Fiquei em estado de choque. Como uma segunda morte da minha mulher. Dediquei tanto ao oficio, fiz tudo com carinho, e o hotel iria virar um pedaço de concreto onde centenas de engravatados estariam teclando as calculadoras para “aumentar o faturamento” e “atingir a meta” da empresa.

Já vivia só, num flat perto do hotel, toda a família encaminhada para seguir seus passos, ou seja, senti que a minha missão estava cumprida.

Na ocasião da reforma do prédio (já estava irreconhecível, cheio de pó e tijolos espalhados) chamei um dos pedreiros num canto e disse:


“Enterre-me sob a porta principal. Podemos fazer isso de madrugada. Darei todas as minhas economias para você. Sou poupador, tenho cerca de meio milhão na conta. Quero morrer junto com o Grand Hotel Royal. Como fez o Romeu com a Julieta”.

Obviamente, ele me respondeu:
“O senhor está louco”.

Porém insisti todos os dias, o piso do andar térreo estava todo desmontado, se perder essa chance, nunca mais iria conseguir esse meu desejo de “anexar-me” ao hotel.
 
“Pense bem. Meio milhão. Com essa renda você poderá viver confortavelmente pelo resto da sua vida. Tem filhos? Pense neles. Boa educação, boa alimentação... Se for bem feito, ninguém irá descobrir...”

E no dia seguinte recebi um telefonema. Era o tal pedreiro.

“Vamos em frente”

Transferi toda minha conta, vesti o uniforme do capitão porteiro e levei uma garrafa de uísque.

Eram duas da manhã, e o prédio estava em escombros, como se tivesse bombardeado, com fios pendurados por toda parte.

Eu e o pedreiro secamos a garrafa de uísque e bêbado, adormeci. Logo depois o rapaz fez o trabalho. Cavou, com muito esforço, me colocou deitado bem abaixo da porta giratória. E derramou cimento em cima de mim.

Hoje me sinto realizado, observando meus novos “hóspedes” passarem por cima de mim. O melhor de tudo é que poderei recepcioná-los com sorriso, mantendo o espírito de hospitalidade do Grand Hotel Royal, para sempre.
SEIDI KUSAKANO
Enviado por SEIDI KUSAKANO em 26/08/2006
Reeditado em 26/08/2006
Código do texto: T225771
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Sobre o autor
SEIDI KUSAKANO
São Paulo - São Paulo - Brasil
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SEIDI KUSAKANO