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A FRONTEIRA OU O LIMITE?

"Parada, atónita, mãos em garra pelo reumatismo,
no rosto um vago sorriso de bebé satisfeito, ela agarrava-se a nada,
ao que lhe restava da vida no meio das filas de doentes e da correria de médicos e enfermeiras."

(Lya Luft, in Pensar é transgredir)


****

Seriam quatro da tarde.
Preocupavam-no, seriamente, os tremores febris constantes, aliados a um certo mau estar abdominal e a uma dor de cabeça que atordoava quase lhe fazendo saltar, ao menor movimento, o cérebro para fora das paredes cranianas. Mas, muito mais o preocupava o desassossego da mãe a quem adivinhava, já, duro sermão por estar em risco a perda do ano lectivo cujo fim se aproximava – o último ano do 2.º ciclo liceal, o antigo 5.º ano. Dito e feito. Durante mais de duas horas seguiu-se a repetida ladainha, entremeada dos mimos que já lhe eram habituais “cão-grande, cão-girão, logo agora é que havias de arranjar a doença para perderes o ano. Raios te abram ao meio…” – como se ele procurasse a doença e como se ela pudesse espantar e curar as maleitas do rapaz com aquele sermão inusitado.

Não a podendo ouvir mais e na expectativa de lhe abrandar o ímpeto irado e a poder calar, levantou-se e foi buscar o caderno de exercícios de álgebra de Palma Fernandes, a sebenta e o lápis. Meio recostado na cama deu início ao treino das equações do 2.º grau a duas incógnitas, mas o atordoamento crescente era cada vez mais evidente.

Aquele zumbido foi aumentando de volume à medida que a visão se lhe toldava e um buraco negro, em remoinho cada vez mais veloz, se aproximava de si, engolindo-o. Deixou de ter noção de tudo e de todos por um certo espaço de tempo de que perdeu a conta. Perdeu mesmo a noção do tempo, embora conservasse uma perfeita visão do espaço, mas um espaço diferente dos que até ali conhecera. Um espaço nunca visto. O buraco negro tinha agora matizes de azul, lilás e vermelho. Aos poucos as cores iam aumentando de tonalidade e pareciam-lhe, agora, serem todas as cores do arco-íris. O redemoinho do buraco era cada vez mais veloz e o zumbido na sua cabeça cada vez mais ensurdecedor. Depois, diminuiu de intensidade e tornou-se mais agradável de suportar. De repente, foi puxado para o interior desse buraco em remoinho e engolido por ele.

Sentiu que algo de si se desprendia do corpo e flutuava no espaço. Viu-se sentado numa cadeira na sala de jantar e, à sua volta, a mãe e a Maria de Fátima, a serviçal negra que era empregue na lavagem da roupa, tentando reanimá-lo fazendo-o engolir pequenos goles de chá, feito à pressa, que lhe escorria pelo peito, ao invés de o deglutir. A negra era a mais aflita, Chorava convulsivamente “minino… minino, aioé Suko yengui… acorda faz favô”.

Sempre pairando saiu dali. Passeou-se pelo espaço. Foi até ao quarto e viu o Palma Fernandes de goelas escancaradas, sobre o leito e, a seu lado, a sebenta com a equação por resolver. Voltou à sala. A mãe, agora, implorava a Deus: “oh meu Deus, Virgem Santíssima, salvai o meu rico filho”. Teve vontade de rir, não fosse, naquele momento, ausência de matéria. Ainda há pouco mais de meia hora vociferava contra ele – com o corpo dele – porque “se arriscava” a perder o ano lectivo por doença. Ironia do destino! Como se ele tivesse arranjado a hepatite a seu bel-prazer. Hipocrisia… simplesmente hipocrisia! Pensava assim, algo do seu “eu” que se desprendera da matéria. Talvez a alma, desprendida agora do corpo para flutuar livre no espaço.

Partiu dali.
Incomodava-o aquele alarido à volta do seu corpo, inanimado, sentado na cadeira, tentando uma e outra manter-lhe a cabeça hirta, que teimava pender-lhe sobre o ombro esquerdo. Atravessou as paredes de tijolo da sala com a maior das facilidades. Mirou-se… nem um arranhão. E admirou-se de tal proeza! Ainda não acreditava que era somente espírito. Pairou, por instantes, sobre o patamar da varanda onde ronronava a velha gata Malhada e dormitava o Leão – o fiel e nobre cão que despertou e feriu os ares com um latido prolongado, enquanto farejava o espaço como se pressentisse ali uma presença, mas invisível. Ao fundo do quintal pôde ver o Domingos – velho criado negro – que se preparava para fazer a fubá na negra e velha panela cheia de amolgadelas que fervia ao brando lume da fogueira. Sentiu mesmo o cheiro, a sabor salgado, do peixe seco acabado de assar.

Achou caricata aquela sua situação: estar em dois sítios ao mesmo tempo. Em dois sítios e de diferentes modos. Em matéria, via-se meio morto sentado numa cadeira onde a custo, a mãe e a criada negra, tentavam reanimá-lo; em espírito, pairava como uma pena ao sabor da aragem – a insustentável leveza do ser –, mas com perfeito controlo sobre si mesmo, pelos quatro cantos da casa e quintal, eternamente preso àquele corpo por algo inexplicável como se fosse um longo cordão umbilical.

Deu a volta à casa como se de uma despedida se tratasse. Talvez para reter, lá no canto mais recôndito de si mesmo e levar consigo para onde quer que fosse, o que de bom e mau ali passou. Ali estava a velha carrinha Chevrolet, onde tantas vezes se vira obrigado a pernoitar, encharcado em água das chuvadas que o penetravam até aos ossos, como castigo por ter chegado a casa para além das nove da noite. Era assim uma parte do castigo infligido ao “cão-girão” que nem sequer namorar podia, a não ser às escondidas; a outra parte do castigo era a inexistência do jantar que, mesmo que tivesse sobrado, era dado ao cão de guarda – o fiel Leão – e nunca deixado na borda do fogão para o poder esquentar e comer quando chegasse. Ia sentir saudades da velha carrinha – o seu refúgio das noites frias e de cacimbo do mês de Agosto, nessas noites mal dormidas nos seus dezasseis anos bem espigados – eternamente encostada ao alçado norte da casa.

E partiu finalmente dali, vogando no espaço, agora multicolor, que se abria num reflexo de luz viva para além do real e palpável. Sem saber como, viu-se num verde prado onde apenas floriam malmequeres campestres, brancos e amarelos. Por carreiros que serpenteavam nesse prado, vários vultos de longas vestes brancas e auréolas doiradas sobre as suas cabeças, independentemente de serem homens ou mulheres, pareciam flutuar ao seu encontro. Efectivamente não moviam os pés nos meandros dos carreiros… flutuavam a escassos centímetros daquilo que parecia ser o solo florido – novamente a insustentável leveza do ser! Como se a força da gravidade os impulsionassem no sentido inverso das leis da física. Cruzavam-se, uns e outros, como se os seus corpos se penetrassem e passassem para além deles sem se molestarem. Os hábitos eram todos iguais. Longas vestes, esvoaçando sem aragem que justificasse o movimento das mesmas, como se fossem túnicas, cobriam aqueles corpos aos quais não se adivinhava forma; ou antes, não se adivinhavam formas diferentes – eram todos iguais, todos do mesmo tamanho, todos irradiando a mesma luz, todos vindo ao seu encontro mas sem lhe tocarem nem lhe dirigirem a palavra. A felicidade interior transparecia naqueles rostos sem matéria. Sem saber porquê, nem ter sido ensinado como, lia isso mesmo – uma felicidade eterna que não estava habituado ver na vida terrena.

Só agora se apercebeu de que estava em qualquer outro lugar diferente do da terra. Pelo menos, parecia estar. Ou antes, que andara por qualquer outro lugar diferente do da vida terrena. E tremeu. Um tremor forte e um peso terrível desceram sobre si mesmo. Penetrou-o um frio intenso, da medula até aos pés. Sentiu que a garganta secara terrivelmente ao ponto de lhe ser quase impossível respirar. O próprio ar feria-lha a laringe. Talvez um pouco de água facilitasse a respiração – pensou ainda sem conhecimento. Pelo menos julgou pensar. E sentiu efectivamente sede. Também se apercebeu de que alguém o tentava reanimar colando-lhe o frio de qualquer copo aos lábios. Sentiu mesmo que a água lhe escorria pelo queixo até ao peito desnudado. Aquele zumbido que na sua cabeça se fora tornando cada vez mais forte e evidente, aos poucos desvanecera-se – sinal de que o corpo existia. Ou talvez sinal de que o espírito regressara ao corpo após uma longa – por segundos ou minutos que nunca soube contabilizar – mas bonita viagem astral.


Publicado no Jornal online "Balaio de Notícias", em:
http://www.sergipe.com/balaiodenoticias/fernando92.htm
- faz parte do projecto "entre nós, Cumplicidades"



Alvaro Giesta
Enviado por Alvaro Giesta em 27/08/2006
Reeditado em 30/09/2009
Código do texto: T226558
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alvaro Giesta
Vale De Amoreira - Setúbal - Portugal, 67 anos
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