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NÃO ME MATES QUE SOU A TUA MÃE

"Já não é
pintamos sobre o já pintado
num gesto pseudo irreverente
desconhecendo a nossa prisão do passado.
Matéria
cor, forma gestual, intenção animal
desobediência mental…
linha, pé, desconcerto, desconexo,
pequenez, subtil, vento, transparência, opaco.
Expectante entre o negro que nem sempre é negro?
Haverá algo mais para perceber?
E para não perceber?
Porque não ao menos por um instante
dirigir uma linha recta até um ponto
sem manifestações agregadas como
“parece… não creio… tal coisa…”
Fala mestra!
O que deseja dizer porque não é natureza morta.
Interessa-me não saber de onde virá desta vez a luz.
Os dias, os tempos, são mais rápidos que a evolução
e as palavras de uma imagem."

Considerações sobre o conceptual

***

Arrepiou-se quando a viu.
Gelou!
Eriçaram-se-lhe quantos pêlos tinha no corpo. Por segundos ficou ali pregado ao leito seco do ribeiro. Sem saber para onde fugir. De um lado, a margem íngreme e impenetrável pela barreira de silvas que contavam já uma boa meia dúzia de anos sem desbaste; do outro, a parede de granito com mais de três metros de altura que delimitava o pomar e a vinha, dando-lhe segurança por alturas dos Invernos rigorosos de outros tempos em que as águas revoltadas do ribeiro corriam por mais de três meses a fio.
O leito seco, desde Fevereiro passado pelo Inverno muito curto, deixara crescer com pouca desenvoltura as urtigas cavalares, já em decadência neste quente mês de Junho. De onde em onde cresciam, também, desajeitados rebentos dos salgueiros que tinham sido cortados no último verão. Era à sombra destes que ela estava estirada a todo o comprimento. Deleitando-se na fresquidão do solo lodoso, sombrio e húmido.
Quando deu com os olhos nela, teve a sensação de que estava ali há muito a vigiar-lhe os movimentos. Passado o primeiro instante de pânico, o seu primeiro impulso foi levar as mãos à sachola, que depositara no chão, e levantá-la à altura da cabeça para desfechar o golpe fatal. Se bem pensou melhor o fez, mas ficou-se apenas pelo meio gesto.
Negra, com manchas hexagonais, sobre a pele, de uma cor indefinida, entre o verde e o alaranjado, qualquer cor próxima de um amarelo-torrado, que o pretendia ser, embora não o sendo, andaria pelos dois metros e tal de comprido; para cima, que não para baixo. O diâmetro rondaria, sem exagero, uns bons seis centímetros… uma pequena jibóia, poder-se-ia quase dizer, retendo ainda na lembrança muitas semelhantes das que vira nas matas de África. Semelhantes no tamanho, que não na cor.  Aquelas manchas hexagonais, distribuídas ao longo do corpo, eram qualquer coisa parecida, na cor e na irregularidade, com as manchas que se estampam no corpo humano a denunciar uma irremediável velhice. Salvo as devidas comparações de tamanho, evidentemente.
Levando em conta o metro e meio do cabo da sachola, calculou a distância necessária entre si e o ponto vital do réptil, logo abaixo da cabeça, onde iria desferir o golpe fatal que lhe fracturaria a espinha. Viu-lhe os olhos. Fixados nele. Uns olhos diferentes dos de qualquer réptil cujo instinto é, na presença de qualquer outro ser animal, atacar ou, pelo menos, pôr-se à defesa para defender o seu território. Mas esta cobra, diferente em tudo das demais – até na cor – tinha olhos dóceis capazes de desmobilizar quem, como ele, tinha horror a cobras e só se sentia tranquilo quando lhes infligia a morte. Era um olhar de súplica. De ser humano – parecia até!

Naquele dia, uma das tarefas que impusera a si próprio era cortar, uma vez mais, os rebentos bravos das videiras – o chamado “desladroar da vinha”. E aquela Roriz que se infiltrara, sabe-se lá por obras e graças de quem, a mais de meio metro do nível da parede que delimitava o pomar, do leito, agora seco, do ribeiro, obrigava-o a que se ajoelhasse e que, nesta posição, se debruçasse sobre ela para efectuar tal trabalho. Carregadinha de uvas, este ano, merecia bem tal sacrifício, que nos anteriores até passava despercebida…
Teve que se alongar um pouco mais para cortar o último “ladrão” da videira… foi quando a tesoura da poda lhe caiu da mão indo mergulhar, a mais de dois metros de si, na profusão de verde das urtigas que cresciam por entre tufos, já desmaiados, de erva de S. Roberto.

“Raios… logo agora que estava quase a acabar… se não fosse cá por coisas ficavas aí num sono eterno entre as urtigas” – disse ele, entre dentes, como se pretendesse que os seus botões o não ouvissem.

A custo, levantou-se, que as suas ancilosadas articulações se negavam, há muito, a movimentos rápidos. Com as costas, de uma e outra mão, limpou o suor que lhe corria na testa. Por insuficiente, puxou a fralda da camisa, ensopada nas costas, para fora das calças e levou-a ao rosto. Agora sim… conseguiu que o suor, que lhe começava a fazer ardor nos olhos, secasse. E lá se dispôs ele a ir até ao portal e descer ao leito do ribeiro. Por entre pedras escorregadias e vergônteas de salgueiros, lá foi tacteando, por aqui e por ali, certificando-se antes, com a sachola, da firmeza e segurança do terreno. Em certa medida, a finalidade era mais colocar em fuga qualquer réptil do que certificar-se da firmeza do terreno, que conhecia, como as palma das suas mãos, da sua solidez.

“Que se lixasse a tesoura se algum lagarto – daqueles enormes e verdes que no verão aparecem – lhe saltasse à frente…”
E foi quando a viu. Ali, a escasso metro de si. Gelou. Ficou, por segundos – que foram séculos –, preso ao chão do leito seco do ribeiro. Depois, num movimento rápido, ergueu ao céu a sachola enquanto recuava, a medida certa para o ataque e a defesa. Mediram-se um ao outro. Ele, com repugnância ameaçadora e medo; ela, quieta, à espera do golpe fatal, naquele olhar de mistério e súplica.
Ouviu (lhe) uma voz, ténue, como se um queixume: “não me mates que sou a tua mãe”. E uma vez mais gelou. Ficou, por uma eternidade, colado ao leito lodoso do ribeiro. Secou-lhe a voz na garganta. Humedeceram-se-lhe os olhos e foi com eles toldados que a viu desaparecer, arrastando-se a custo por entre as urtigas que lhe fustigavam o corpo, para lá do manto sombrio formado pelo espesso das silvas impenetráveis e agrestes.


Inédito.
Este conto é dedicado ao meu querido amigo RICARDO DE BENEDICTIS, esse amigo lá longe, no Brasil distante, mas tão perto do coração, que muito me tem incentivado a continuar nestas lides da escrita.

inédito que faz parte do projecto "entre nós, Cumplicidades"
Alvaro Giesta
Enviado por Alvaro Giesta em 27/08/2006
Reeditado em 30/09/2009
Código do texto: T226569
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alvaro Giesta
Vale De Amoreira - Setúbal - Portugal, 66 anos
84 textos (2111 leituras)
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Alvaro Giesta