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A PEDRA FILOSOFAL

Cullius, cidade interiorana incrustada na província de Titânio, centro cultural, político e econômico de um extenso e pobre país conhecido no conceito da galáxia como Tricius, é o cenário.

A urbe, no correr dos anos, notabilizou-se como capa de livro, alto-relevo nas pedras de um curioso, atrasado e pornográfico código que veio a lume por obra de um prestigiado ancestral chamado Moisés, nos primórdios da velha era.

Habitam-na uma gente maravilhosa. A cidade é um conglomerado de poliglotas-intelectuais. Não há cemitérios, ninguém morre. Todos adquiriram vida eterna. Do plano da terceira dimensão, atravessaram o portal da nova vida, convivendo em eternidade. Plano incompreensível para os antigos da geração vinte. Séculos passados.

A cidade tem uma curiosa e interessantíssima história. Durante mais de mil anos foi considerada centro irradiador de belezas multifárias. Até os jovens se acostumaram a homenagear os ancestrais que sobreviveram ao cataclismo do final dos tempos.

Criam os antigos que o mundo acabaria no ano 2000, profecia de um pré-histórico Zaratustra, intelectual troglodita que não concebeu dimensão diversa, incapaz de ver o que poderia sobrevir no decorrer dos anos.

Veneram os loucos jovens de Cullius, o tal de Teatro Sete de Abril, de construção tão bolorenta que não se suporta o cheiro de mofo e o gosto do uísque nas paredes. Ali, em noites de uma grande festa pagã, ocorriam maravilhosas orgias. Ritos profanos, aprovados com alguma licenciosidade pelas elites dirigentes. Algo como as nossas tríades espirituais de hoje.

Nessa interessante civilização eterna, cultivava-se um gosto entre os velhos (os jovens de Cullius não gostam dos velhos, como conta a tradição, só sabem correr em seus bólidos automotivos, que chegam a atingir mais de mil quilômetros horários), amam platonicamente uma velha dama que conseguiu vencer o peso dos anos, com uma estória capaz de enternecer o coração dos cullienses.

Humanitária tal os antigos monges, tornou-se musa dos poetas e artistas das noites cullianescas. Protetora por profissão goza de vida eterna (e terna), dimensões adiante. Foi capaz, ao que contam os tradicionais, de romper o amor com os seus cães (que foram sua total e única paixão fálica) e, em uma casa-mansão acima da colina, acidente geográfico uno que apareceu por volta do ano 2000, nascido do grande vulcão que abalou a crosta telúrica, recebe os escritores dos símbolos antigos, e ainda ouve, em discos quebrados, arcaicas regravações dos tais Chico Buarque, Vinicius e outras personalidades ingratas ao sistema (establishment da época), duramente “esquecidos”.

É ela a própria tradição personificada. Uma deusa cândida, a do Monte. Seu maior gosto e paga – que exige de cada cantor escuso que vai ao Monte – é uma daquelas pequenas pedras que os antigos (hoje não se usam mais) chamavam, nos primórdios da velha era, carvões velhos, depois dignificados, significativamente, de “brilhantes”.

E assim vive uma dama que superou o tempo e sua própria abertura ôntica.

Assexuada, curiosamente endoidecia o coração dos antigos cullienses. Incapaz de amar a lua e sua natural luminosidade, mas amante (e amada) do brilho dos candeeiros dos séculos que contam a história. Fazedora de poesia aos seus brilhantes, sofísticos e solenes encantos, descria dos homens como machos da espécie. Permanecida flor murcha desta nova geração de poetas e contistas, que ainda ama a lua e as estrelas.

Bem, é hora de irmos ao local de encontro dos moços, o tal de Samambaia, bar de espaçoporto numa ilha chamada Laranjal (tão estéril como a elevação Monte) onde os antigos tomavam uma bebida de cana e limão, e em bucólicos encontros no escuro, amavam as suas fêmeas, segurando as tetas “tip top” das camisas, horrível vestimenta do passado, que cobria o torso e o colo das virgens.

No céu brilhava a luz como ponta de cigarro em brasa. Sorriam muito, vergastados pelo vento, que prenunciava a ira das deusas cobertas de pérolas.

Tonitruantes clarões purificavam a alma nua de Cândida, tão branca como a luz da Via Láctea. Para quem viesse do cosmos, é possível que notasse um grande clarão embranquecido por onde passam os espíritos iluminados. Tal Cândida, o espírito do Monte, enriquecida pelo convívio com as deusas.

E eu, Nullius, eunuco condenado por adorar suas gordas tetas, registro a alegria desta eterna ama, também maravilhado com as pérolas que adornam o manto pardo-cerúleo do firmamento. À espera, por certo, da sublimação que sobrevém quando os olhos se fecham para dormir até o fim do século, transportado a outra e novíssima eternidade do dia seguinte.

Coisas de um tempo sem data.

– Do livro O HÁLITO DAS PALAVRAS, 2004/2010.
http://www.recantodasletras.com.br/contosinsolitos/228816
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 30/08/2006
Reeditado em 07/07/2010
Código do texto: T228816
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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709719 leituras)
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Joaquim Moncks