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Bacanal no céu

           


       Só existe um tipo de motivo pelo qual, invariavelmente, não podemos ser donos dos nossos próprios destinos, como sonharam Sartre e Nietzsche: é que vivemos numa teia de vidas que se interdependem. Tudo que vamos fazer inclui, mesmo que indiretamente, decisões que terão de ser tomadas por outras pessoas. Não posso dizer "sou dono do meu destino" se quando piso em um ônibus minha vida está dependendo da habilidade do motorista do ônibus, dos demais motoristas que por ele vão cruzar, da perícia e honestidade dos engenheiros e pedreiros que construíram a ponte, do mecânico responsável pela manutenção dos freios, etc.
      Não há motivos mágicos para que eu não seja dono da minha vida e do meu destino. E nem precisa que hajam; os motivos lógicos incluídos nesta interdependência  já são vastos e excludentes demais. Não podemos, a rigor, fazer nada, sem que esta teia seja movimentada, e muitas pessoas estejam envolvidas.

     Nós dois, até que se prove o contrário, não nos conhecemos. E, neste baile de interdependências, dançamos. Dançamos como quem salda do alto de uma pedreira à beira-mar em Acapulco. Dançamos incógnitos. Você pergunta sobre a minha vida e sobre como sou no dia-a-dia. Você quer saber em que creio. E eu respondo que sou um ateu que crê em muitas coisas – ainda que as julgue por mentiras. Abaixo para te mostrar as revistas – amo revistas – e você abaixa também e aproxima o teu hálito e seu corpo – e  o impressionante calor que emana dele – de mim. Abaixada junto a mim você pensa em como seria o contato de nossos corpos que possuem cores diferentes, tamanhos diferentes. Corpos que possuem almas diferentes.
     Não se importe se tudo parece tão desigual. Não estou contando uma história; só teço impressões.
     Às vezes quase chego a orar pra você. Aí me lembro que sou ateu. Não um ateu de carteirinha. Nem carteirinha de ateu nem carteirinha de sapo. Se bem que carteirinha de sapo me cairia bem. Quem sabe assim não poderia eu entrar na festa no céu. Pois, se no fim das contas houver mesmo uma festa, eu não me perdoaria de não estar presente. Poderia eu também me queixar com Deus porquê da distribuição de um número tão reduzido de convites.
     Às vezes você me surge como morte. Como o suicídio da linda moça em nosso bairro nesta semana. Parece que se suicidou por amor. Esta idéia medieval de amor como sofrimento. Eu, entretanto tenho a visão de que a coisa foi muito mais complexa. Ela deveria estar fazendo projeções para o seu futuro, que deveriam incluir o rapaz – um rapaz rico desta cidade – objeto  deste "amor". Ela não teria tido a habilidade de buscar sua própria felicidade e gozo em variadas fontes, habituando-se a beber apenas na fonte do rapaz. Isso restringiu sua capacidade de ser feliz. E quando o rapaz decidiu pôr fim ao relacionamento, a única fonte de contentamento da bela e tola moça, secou. Então ela não viu mais sentido em viver.
     Tive pesadelos por causa deste acontecimento. Pensei que estas crianças não estão sabendo viver. Esperava que viesse a ser diferente, com o avanço nas comunicações e com a proliferação da informação. Mas não; elas se tornam adolescentes românticos como em qualquer época da humanidade – embora muitos sugiram o contrário.
     Esta relação estranha que todos nós temos com o sexo – que foi agravada com o advento do dinheiro. Sei que todos nós, animais, só queremos gozar e nada mais importa no fim das contas. Sei de tudo o que se tem feito por conta disso. Houve uma sofisticação da morte, e não banalização como costumo ouvir dizer. Multiplicaram-se as formas de matar – inclusive não matando. E o sexo é o nosso deus; nosso deus da vida e da morte.
     
           *          *          *

     Após o inenarrável orgasmo que tive (tivemos) ontem, mergulhei em um sono sem sonhos que eu pudesse recordar de manhã. E quando a luz branca da manhã invadiu parcialmente o meu quarto, filtrada pela janela de madeira com suas venezianas, fazendo suaves figuras geométricas na parede, eu pensei que poderíamos fazer amor novamente. "Fazer amor" é um dos termos que foram popularizados pelo cinema americano. Não penso que influa negativamente em nossas vidas. É claro que existem vários aspectos a serem considerados, mas numa primeira análise, ao se dizer "fazer amor" para falar do ato sexual, aproxima-se duas coisas distintas: amor e sexo. Faz-se com que o amor se aproprie do sexo e vice-versa. Parece que isso humaniza o sexo – que é algo essencialmente animal. E, mais do que humaniza, parece que o feminiliza. São as mulheres que preferem assim, misturado.
     Codificar sentimentos é uma tarefa ainda incompleta nas culturas humanas como um todo. Nenhuma língua pode, com precisão, explicar em palavras tudo o que uma pessoa sente. As palavras são importantes artifícios inventados para nos facilitar o convívio, mas não podem revelar toda a verdade das coisas. Às vezes, até mesmo atrapalham a comunicação e o próprio entendimento introspectivo. E não se pode explicar aquilo que não tem palavra.
     Naquele dia não sei o que senti – e isso ocorre quase sempre. Seus seios eram mais tenros, e abaixo, o ventre mais arredondado; o corpo mais aquoso e pleno, e macio, e belo, e seu. Parecia poder ver por teus olhos, tua ótica, teu ponto de vista. Minha mente podia a tua vasculhar e colher, como frutas num pomar, mentiras obscuras e toda a luz humana das pequenas mentiras tão necessárias a nós dois – a todos nós. E, sob tuas retinas, minha vista saturou-se de tanta beleza naquele vislumbre que me nutria e quase me cegava. E senti, naquele momento um cheiro de sexo não-genital (ou quase-não-genital) e pensei o quanto Platão vivia em mim e em como meu sangue trazia algo de cultura antiga que um simples exame de sangue não poderia identificar: Platão vivia em minhas veias. Na cabeça tinha mais Freud e Nietzsche, mas no corpo irracional, não; neste tinha Platão; tinha uma força desejosa de irrealidade, de projeções, de busca de impossibilidades e de cega esperança cristã. Se tenho que codificar, acho que foi um estado de "ternura total".
     Aquele sangue dos desesperados não me metia medo; assim como o teu sangue também não me mete. Portanto, atreva-se a olhar pra mim o quanto quiser nesta terra de ninguém; nesta ilha dos duzentos acres onde tudo é cor de sangue: sol vermelho, arco-íris de Luís Melodia, tuas máculas. Pras tuas feridas abertas eu direi "bem feito, vaca profana". Meu sangue está nos teus dias. E o teu, nos meus. Dias que dedico a ti com ardor que faz qualquer fogo parecer gelo. Esta luta de duzentos dias de dor. Até quando é possível doer-se por uma mulher? Até quando é possível doer-se por um deus? Por diabos; até quando?  Estejamos abraçados e eu te direi "tenho medo". E bem pela manhã o sangue escorre.
     Teu sangue quase não se mostra neste rosto quase branco: que insuportável beleza a que tenho visto. Às vezes, tua pele é morena, às vezes quase negra, às vezes azul com manchas brancas, às vezes de pura luz de máxima ofuscância. Você é tudo o que existe. Meu pó, minha costela, meu fruto proibido, minha nave de Noé, minha Sodoma e Gomorra, arena de Daniel, meu leão de boca aberta. Os leões são nada perto de ti: trucidam-se, diminuem-se. Camaleoa é você, criatura em minha cama.
      Fascino-me com a imagem da tua lágrima. O prenúncio do teu choro me emociona; a ponto de chorar contigo mesmo que não saiba eu a motivação deste pranto teu. Então você fazia aquela bela careta de chorona – coisa que não é sua, pois não chora à toa – enquanto eu arrumava o seu prato de comida. Aquilo era o resumo de nossa ópera; quase que um porta-retratos real de nossa vida doméstica de almas indomesticáveis, que desejam da vida algo bem mais sofisticado e colorido que um shopping-center – não falo de cores idiotas de natal, mas de tons muito sutis para a percepção dos idiotas.
      Certo dia – no início de nosso caminho de amantes preguiçosos – não pudemos ver o dia passar. Havíamos tido uma noite em que poderíamos ter esgotado todos os nossos caldos. Mas não. Era domingo. Pensamos bem – ou não – e resolvemos transar mais um pouco pela manhã. Dormimos Novamente. Acordamos de novo e voltamos a nos entregar a uma inesgotável volúpia suja. Assim foi seguida uma espécie de seqüência com alternâncias de sexo e descanso. Num determinado momento resolvemos nos levantar para irmos almoçar na casa de sua mãe. Foi então que abrimos a cortina e, para a mais absoluta surpresa: anoitecera.
     Sorriste. E eras linda naquele teu sorriso. Linda também (e ainda) és quando experimentas essa pequena morte que algumas mulheres aprendem a ter no sexo. És maravilhosamente linda neste momento sublime e orgânico na sua mais livre pureza e perfeição animal. És sobretudo linda quando sonhas: sonhas pecados e virtudes pueris. Nossa vida é de sonho. Tua vida não é minha; e, ainda assim, sonhas pra mim e sonhas comigo. Teu sonho é um motor a utilizar-se de combustível inesgotável, para carregar nossas almas rumo ao não-sei-o-quê, neste carro de Elias a nos transportar – você, co-piloto de Elias, levando contigo este sem-fé.
     Ainda no carro de fogo adormecemos. Sonhei com pecados gozosos onde eras uma pecadora feliz – assim como és na realidade. Teu choro e teu gozo umedeciam as samambaias na encosta íngreme, que os misturavam com sua clorofila anafilática. Perdias por momentos a sanidade e, insanamente, sorrias feito puta. Depois, com espantosa seriedade, olhavas como quem tudo vê: como padre, psicólogo, astrônomo, criança. Eu presenciava em curtos espaços-tempo intercalados em espuma quântica, teus pecados e tua redenção. Via-te como dentro de uma nova gênese; como Eva de Adão; como Eva de Jeová; como Eva mulher de todos os homens e meninos.



Luciano Fortunato
Enviado por Luciano Fortunato em 04/09/2006
Reeditado em 09/06/2009
Código do texto: T232450

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Luciano Fortunato
Mendes - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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