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Para Thaís

O dia 1° de julho sempre deixava Ana dividida, com seu humor alternando-se entre alegria e tristeza. Levantou da cama por volta das 7h para preparar o café da filha, Thaís, que ainda dormia como o anjo que era, aquecida pelo edredom do Harry Potter, que havia ganhado do tio. Ana olhou no calendário. O 1° de julho marcava o dia do aniversário de nove anos de Thaís. Era o seu motivo para sorrir. Mas este dia também marcava aniversário da morte de seu amor. Era o seu motivo para chorar. Faziam cinco anos que o pai da pequena Thaís havia morrido tragicamente. Ana levou a filha ao colégio, se preparando para repetir o ritual de ir até o local onde o esposo tinha sido vítima de um disparo acidental de arma de fogo, efetuado por um moleque de 14 anos, que se exibia para os amigos com a arma do avô. Todo ano, naquele dia, ela regressava àquela triste calçada (que evitava os outros 364 dias) e depositava uma rosa branca, acompanhada de um bilhete escrito em élfico, uma linguagem que só os versados em J.R.R.Tolkien era capazes de compreender. E Michel era. Assim como era muitas outras coisas. Era o ar que Ana respirava, era a alegria da casa, o riso que terminava com qualquer tristeza, o abraço compreensivo, o filho preferido, o olhar apaixonado, o melhor amigo dos amigos. Michel era muitas coisas. Mas- Ana sabia- o que ele mais gostava de ser era o pai de Thaís. Durante esses anos todos, ela procurou ser forte, como os amigos a recomendaram.
- Procure esquecer, Ana. Se há uma certeza no mundo é que toda a dor é passageira. Seja forte...
Outros diziam:
- Deus sabe o que faz. É triste, mas tu vai superar, tenha certeza!



Assim, Ana praticamente deletou Michel da mente. Precisava esquecer. Thaís tinha apenas quatro anos quando ele morreu e pouco lembrava do pai. Ana quis ser forte e não se abalar com a fatalidade. Sua saída foi não pensar nem nos bons, nem nos maus momentos ao lado dele. Ocupava seu tempo com trabalho, enchia a casa de gente. Mas, ainda assim, não se permitia encontrar um novo amor. Tinha medo. Medo de quê? Talvez do mesmo medo que ela estava sentindo hoje, medo deste sentimento que ela tanto procurou afugentar: o sentimento de solidão ou o medo de se ver sozinha novamente, após ter planejado sua vida ao lado daquela pessoa.
Outro dia, Thaís tinha entrado no quarto da mãe, e encontrado uma foto de Michel (do tempo em que eram namorados) que ficou fitando um longo tempo. Depois perguntou.
- Antes do papai morrer, ele lhe disse se me amava, mamãe?.
A atitude mais lógica seria dizer que sim, abraçar Thaís e começar a falar do maravilhoso pai que ela tinha (e que lhe foi tomado). No entanto, Ana ficou parada, sem reação, sem resposta, com um choro que ela não sabia se devia chorar na frente da filha, que veio até a mãe, tomou sua mão e disse.
- Eu amo você, mamãe. Mas eu também queria ter o meu pai para amar.
Ana percebeu que nem sentiu os anos passarem, preocupada com o crescimento da filha, mas hoje, ao levá-la para a aula, sentiu a falta de Michel. Ficou imaginando Thaís nos ombros dele que, certamente, brincaria de aviãozinho com a pequena, enquanto Ana iria alertá-lo para tomar cuidado em deixar Thaís cair. Claro, seria um comentário besta. Que lugar mais seguro para a menina estar do que nos braços do pai? Instintivamente, abraçou o próprio corpo, tomada da lembrança dos braços fortes do gigante, que era Michel, envolvendo o seu frágil corpo de 1,65. Ana chorava compulsivamente no volante do carro. Depois de anos, os compromissos começavam a dar uma pausa em sua vida e ela caiu em si. Tinha perdido o amor de sua vida. "Seja forte", a frase ecoava em sua cabeça e sentiu raiva por ter seguido o conselho, por ter sido forte. Por não ter se permitido desabar e chorar. Hoje a tristeza lhe atingiu em cheio, quando arriscou abrir a gaveta do meio, a qual procurava evitar. Era onde ainda estavam guardadas as roupas de Michel que, vez por outra, ousava borrifar com o perfume, para que não se perdesse o cheiro que sempre estava impregnado nele, de uma colônia barata que ela odiava (que a mãe dele insistia em dar-lhe de presente). Mas, agora, aquele odor odioso era o cheiro que ela mais amava sentir...
Ana não fugiu à melancólica tradição. Depositou a rosa sobre a calçada, mas desta vez, se permitiu chorar. Culpava Michel por ter acompanhado a mãe até em casa, quando a bala perdida o atingiu. Culpava a si mesma por ter permitido. Chorou e não conseguia mais parar. Nem se importava com os olhares piedosos que as pessoas lançavam para ela. Ana foi embora. Antes de entrar em casa, suspirou e tratou de limpar as lágrimas. "Seja forte", pensou, mesmo que nesse dia isso sempre fosse mais difícil. Ajudou seu irmão a arrumar os balões para a festinha de Thaís, que iria acontecer mais tarde. Ela decorou a casa com Harry Potter, o personagem preferido da filha. Horas depois, Ana foi buscá-la no colégio. Thaís veio sorrindo encontrar a mãe, estava feliz a pequena. "Mãe, acho que vou ganhar muitos presentes hoje. E vou ser feliz sempre". Ana indagou o motivo da afirmativa.
- Um homem disse que eu sou um anjinho, que vou realizar todos os meus sonhos. E me entregou esta flor, pedindo para eu dar de presente para a minha mãe. Tome. Ana olhou espantada para a flor que Thaís segurava. Era uma rosa branca...
Márcio Brasil
Enviado por Márcio Brasil em 17/09/2006
Código do texto: T242327

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Sobre o autor
Márcio Brasil
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil
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