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Último beijo

Perdido no emaranhado de sua mente, ele perambula pelas ruas centrais da cidade. Tinha mil e um compromissos a cumprir: dívidas para pagar, dinheiro para receber, a escola dos filhos, prazo de trabalhos estourando. Mas, para ele, nada disso importava. Só o que importava era aqueles malditas folhas de ofício que faziam sua maleta pesar uma tonelada: os papéis do divórcio.
- Você é ausente demais. Só pensa no seu trabalho. Deixou de me amar? Não sente mais desejo por mim? Tem outra?
Ele ouviu isso e muito mais mil vezes. Invariavelmente essas frases se faziam acompanhar de algum objeto sendo arremessado em sua direção e se espatifando na parede ou no chão.
Cada vez que isso acontecia, ele suspirava, dava de ombros e ia ler a seção de cultura do jornal. Sua vontade era de sair correndo pela rua gritando até lhe acabar o fôlego ou até estourarem as suas cordas vocais. Não podia fazer isso. Precisava da energia para trabalhar e para continuar respirando e existindo.
Um dia, após retornar de uma viagem de trabalho (e ele fazia essas viagens pois precisava das diárias para equilibrar o orçamento familiar), encontrou o inevitável recado de adeus, com instruções de como separar os seus e os meus, será melhor assim, você não verá mais as crianças enquanto não nos acertamos na frente do juíz, sem recentimentos, mas o amor acabou e não quero te odiar. "Por favor, assine os papéis do divórcio e mande para o meu advogado", era o post scriptum.
Ele assinou e colocou o papel dentro da pasta. Ficou a noite em claro, olhando para uma foto que remetia a um tempo feliz. Amanheceu e já era hora de ir para o trabalho. Ele perambulava pelas ruas centrais da cidade, perdido no emaranhado de sua mente. Foi quando cruzou o seu olhar com o de uma moça linda, cabelos escuros e pela alva, alta, olhos de um negro intenso, tão intenso quanto das roupas que vestia. Ela parou diante dele.
- Fernando...
Ele já tinha ouvido dizerem o seu nome milhões de vezes, mas não proferido por uma voz tão intensa, doce, melancólica, suave, forte. Ouvir seu nome, era como ouvir uma canção.
- Eu sou a Inevitável. Nos encontramos novamente e, como da outra vez, você não conseguiu sublimar a raiva contida em seu coração. Seu destino seguiu o mesmo curso de outrora...
- Não estou com raiva, estou com vontade de chorar.
- Você tem raiva, sim. Está com o coração prestes a explodir. E eu vim para aliviar a tua dor.
- Por favor, eu preciso de alívio.
- Então, me beije.
Ele fitou os olhos de um negro intenso daquela linda mulher de pele alva e vestes escuras, em seguida observou aqueles lábios carnudos que ele desejava beijar. E beijou. Foi o seu último beijo, antes de seu coração bater pela última vez e seu corpo tombar inerte na calçada...
Márcio Brasil
Enviado por Márcio Brasil em 17/09/2006
Código do texto: T242334

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Sobre o autor
Márcio Brasil
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil
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Márcio Brasil