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O amanhecer de um suicida

O AMANHECER DE UM SUICIDA
(para ler em voz alta)
 
“Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.”
Vinicius de Moraes

“Não faz mal que seja pouco,
o que importa é que o avanço de hoje
seja maior que o de ontem.
Que nossos passos de amanhã
sejam mais largos que os de hoje.”
Daisaku Ikeda


Os fantasmas se reuniram nas sombras.
Nos últimos tempos sua mente fora invadida por fantasmas; dia após dia mais um ali fixava moradia e agora uniam forças para roubar seu tesouro mais precioso. Ele não era mais senhor de si.
De cabelos desgrenhados, olhos esbugalhados, braços caídos, pernas pesando chumbo, passos arrastados, aquele resto de gente perambulava pelas ruas da cidade na madrugada estrelada e quente. Tudo à sua volta eram vultos, parecia um drogado ou surtado. Pela janela daquela alma só se viam trevas.
Em meio à turba de vozes guturais, estridentes, sibilantes, apressadas, gaguejantes, firmes, ocultas, furiosas, ele ouvia:
— A culpa é sua! Só sua!
Quase foi atropelado! Atravessou sem olhar! Poderia ter morrido, mas não faria a menor diferença. Nem ouviu os impropérios daquele motorista alheio ao que se passava nas sombras de sua mente.
Os fantasmas não eram apenas vozes, tinham forma e saíam rapidamente das sombras e por longas frações de segundos podia vê-los. Um deles parecia envolto em chamas amareladas que brilhavam, também, nos olhos e lhe apontava ameaçadoramente o dedo, sumindo logo em seguida como que se apagando. Um par de olhos vermelhos voava em torno dele. Outro parecia um vulto deixando seu rastro azulado no escuro.
— A culpa é sua! Só sua!
Estava cada vez mais apavorado. Além de ser assombrado por imagens tão horríveis que fugiam à sua imaginação ainda era culpado. Só não sabia do quê.
Um homem encerrado numa camisa de força, com uma máscara de ferro enferrujada, era puxado violentamente por outro com cabelos cheios de tufões. E havia um demônio avermelhado, musculoso, de cabeça larga e chata, orelhas pontudas, chifres, uma enorme boca cheia de horrorosos dentes pontudos.
— A culpa é sua! Só sua! — vociferavam obstinados.
Surgiu uma linda mulher com língua de lagarto e olhos de pantera que carregava no ventre exposto um feto negro com garras e chifres. Estava acompanhada por dois jovens gêmeos siameses, ligados pelas costas: um diabólico, outro angelical.
— A culpa é sua! Só sua!
— Mas... sou culpado do quê? — ousava perguntar, mas sua voz não era ouvida naquele pandemônio. Os fantasmas continuavam surgindo e desaparecendo nas sombras e um fogo consumia sua energia. Parecia um boi marcado a ferro e fogo rumo ao abatedouro.
E surgiu um último fantasma. Não viu seu rosto, mas reconheceu a voz. O fantasma chegou mais perto e ele pode ver. Soltou um grito como o que se solta quando o caixão da própria mãe é fechado! Poderia acreditar na existência de todos os fantasmas, mas naquele último não!
— A culpa é sua! Só sua! — ouvia sua própria voz repetir isso.
— Quem é você? — perguntou ele, balbuciante.
— Sou você! — respondeu o fantasma.
— Não, você não pode ser eu! — replicou ele, apavorado.
— Você quer a verdade?
— Quero... — mal se ouvia a voz débil do dono da mente.
— Surgi da terra — explicou o fantasma — da terra suja, seca e rachada do seu coração, e todos os outros também. — foram cercados pelos fantasmas. — Todos nós fomos criados à sua imagem e semelhança. Somos suas fraquezas, seu ódio, seu rancor, sua covardia e nos alimentamos da sombra que existe em você.
Sentiu náuseas, vomitou, virou-se do avesso. Pensou se Deus havia se sentido como ele ao bater os olhos em sua criatura, mas com certeza não; o Homem não é um fantasma. Foi tomado por uma fúria inacreditável. Não aceitava ser o criador daquilo tudo! Ele não era assim! Aquilo não era obra sua! A resposta deveria estar fora dele!
Não tinha mais nada a perder, lançou-se contra os fantasmas; contra si mesmo. Esmurrava um, chutava outro, mordia aquele. Lutava! Agora o monstro era ele! Os fantasmas fugiam e ele ia atrás, só não ousava entrar nas sombras.
De repente muitos fantasmas pularam sobre ele e o arrastaram para a escuridão. Gozaram sangrentos e intermináveis orgasmos de mórbido prazer com o pobre coitado. Foi violentamente torturado, humilhado e os fantasmas gozavam pelo puro prazer de vê-lo sofrer sem poder reagir; sua dor era o tesão deles. Urros abomináveis rasgavam as sombras, nada mais podia fazer. Sem forças para resistir, sem vontade de reagir, tudo estava terminado! Não podia mais suportar a dor!
— A culpa é sua! Só sua!
— Nãããããããããããããããããããooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!
Já era alta madrugada quando ele passava por aquele viaduto — o mesmo de todos os santos ou endiabrados dias — debruçou-se no parapeito e pulou...
— Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...
Naquele momento — o derradeiro momento — os fantasmas esconderam-se abandonando o pobre pássaro sem asas, devolvendo-lhe o controle. Tarde demais... Não podia fazer nada, apenas ver a morte piscando sensualmente para ele.
Entre a queda livre e o chão; entre o cano do revólver e a cabeça; entre o apertar do botão e o explodir da bomba; eis o momento em que os fantasmas abandonam a vítima... quando nada mais pode ser feito.
Um ruído abafado e o terrível grito — o último — cessa. Pronto. Adentrara ao mundo dos mortos.
Havia algo estranho na morte, sentia-se vivo! O morto deveria sentir-se morto — se é que sente alguma coisa — mas ele sentia uma dor aguda do lado esquerdo, abaixo das costelas, algo morno escorria de sua testa, o nariz latejava, não conseguia mexer o braço esquerdo, sua bacia parecia torcida, seus joelhos doíam demais e sentia gosto de sangue na boca. Estava atordoado e via algo parecido com clarões passando rapidamente em intervalos regulares, pares de luzes passando rapidamente e o chão parecia tremer.
Sua alma ainda estava vestida e eram as mesmas roupas, agora rasgadas. Seu corpo — ou sabe-se lá o quê — doía muito. A morte não era como imaginava; parecia menos terrível. Pensava que na morte a dor não era física e que o normal seria uma alma entrar no reino dos mortos sem corpo, mas o seu parecia presente!
Se era realmente culpado — e ainda não sabia do quê — deveria ir para algum lugar parecido com o inferno, onde outros fantasmas, ou os mesmos, continuariam gozando com seu sofrimento. Refletiu e começou a duvidar que estava morto. É sempre assim após uma reflexão; as certezas tornam-se incertezas.
— Estou vivo? Não morri! — gritou ele do nada, apalpando-se. Ainda sentia muita dor, as sombras e os fantasmas continuavam lá, mas estava vivo!
Olhou em volta: o céu estava estrelado, os clarões que passavam eram luminárias, talvez de alguma estrada, e os pares de luzes pareciam faróis de carros, mas onde estava? Aquilo definitivamente não era a morte! Tateou o chão e sentiu que parecia uma lona e uma corda passava por baixo de seu corpo. O desgraçado — ou sortudo — havia caído em cima da carroceria de um caminhão que transportava grãos. Realmente estava vivo! Sim! Estava vivo!
Então, pela primeira vez, reparou num um raio de sol pálido que ousava romper as sombras, pousando levemente sobre ele. Os fantasmas o cercaram como as hienas fazem  com sua presa; apenas esperando o momento certo.
Tentou se levantar. Queria pular de alegria, dar socos no ar como quem faz o golden goal, mas sua cabeça ainda rodava. Percebeu, com espanto, que o raio de sol tornou-se mais forte e os fantasmas recuaram.
Sentiu medo! O que seria aquilo? O raio de sol empalideceu e os fantasmas avançaram. Sentiu mais medo, o raio de sol quase se apagou e ele sentiu os fantasmas cada vez mais perto. Precisava se defender; só ele sabia o sofrimento de ser arrastado para a escuridão Reagiu! O raio de sol ficou mais quente, brilhante. Os fantasmas fugiram assustados. Ficou corajoso:
— Culpado p... nenhuma! — estava disposto a enfrentar os fantasmas se fosse preciso, mas só se fosse preciso.
O problema não era mais ser culpado ou não; vencer ou perder...
— A culpa é sua! Só sua! — insistiam — Assuma a responsabilidade. — gritavam eles — Você não pode nos vencer!
— De onde vem esse raio de sol? Quando tenho medo ele encolhe, quando tenho coragem ele se expande...
Sob a proteção do raio de sol, algo inimaginável surgiu em sua mente: a lembrança de pessoas que pareciam gostar dele! O rapaz da padaria que servia seu café com leite e pão na chapa como se serve um rei, o porteiro do prédio que lhe desejava bom dia, boa tarde, boa noite, bom final de semana, boa sorte e outras coisas boas, a mocinha do caixa do banco que perguntava se estava tudo bem com ele, a tiazinha que fazia a faxina no escritório assobiando lindas melodias, o segurança que lhe contava as piadas mais ridículas e lhe arrancava deliciosas e relaxantes gargalhadas, e tinha também a ascensorista que lhe dava balinhas “para adoçar a vida”.
Uma delas era especial: sua vizinha. Era uma velhinha — curvada e magrinha — que lhe apontava ameaçadoramente o frágil dedo indicador e dizia:
— Precisamos ter esperança, meu filho! Sem esperança não existe nada! — e dava um sorriso desdentado — Esperança não é a conjugação do verbo esperar. — e tirava da bolsa algum presentinho; aquela bolsa parecia não ter fundo.
— Como ter esperança se estou rodeado de fantasmas? — algo novo acontecia no reino sombrio de sua mente e ele estava apavorado. Havia um estranho no ninho: um raio de sol nas trevas. — Seria isso “ter esperança”? A coragem seria o alimento da esperança ou vice-versa? — questão difícil de responder.
Pouco a pouco começava compreender o que aquela velhinha queria dizer. Já pensava diferente e esse é o início de qualquer mudança. Aquele mísero raio de sol mostrou que sua mente tinha cor; coisa que ignorava. Agarrara-se a uma esperança!
A aurora surgia no horizonte e o caminhão ia rodando, exalando da cabine uma agradável música caipira. Ele nunca havia visto uma aurora como aquela: feixes de raios dourados surgiam detrás daquela colina em direção ao céu e o véu negro da noite, cravejado de pequenos diamantes, recuava lentamente.
A aurora! Era isso que necessitava sentir em sua mente: uma nova aurora repleta de possibilidades após uma noite sem alternativas. Acreditava que a noite nunca amanheceria para ele; será que estava enganado? Deitado na carroceria daquele abençoado caminhão, via o sol surgir detrás daquelas colinas ao longe.
— A culpa é sua! Só sua! — foi bruscamente acordado — Assuma!
Ainda se sentia estranho, mas o motivo parecia ser outro. Estava confuso. O raio de sol brilhava fraco sobre ele, mantendo os fantasmas a uma distância segura, mas até quando poderia resistir? Seria capaz de conservá-lo brilhando? Teria coragem para isso? Teria esperança? Nada se conquista sem esforço — já ouvira isso inúmeras vezes. Em apenas um átomo existe uma energia inimaginável. De quantos átomos ele seria formado? Quanta energia teria? Precisava tentar sobreviver, isso já era o suficiente. Tinha consciência disso. Dependia só dele ser culpado ou inocente! Uma única decisão poderia mudar tudo!
— A culpa é sua! Só sua! — mas ele parecia não ouvir, estava ocupado com outros assuntos. Era muita coisa para pensar ao mesmo tempo: não sabia onde estava, precisava voltar para casa, sentia muita dor...
Mas se conseguirá manter o raio de sol brilhando é assunto para outro conto.
Carlos Henrique Fernandes Gomes
Enviado por Carlos Henrique Fernandes Gomes em 22/09/2006
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Sobre o autor
Carlos Henrique Fernandes Gomes
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Carlos Henrique Fernandes Gomes