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História de Terror



Ela sentia dentro de si que algo não estava bem. Uma sensação inexplicável de angústia, um vazio que doía...
Sorrindo de si mesma, tentou se confortar, pois sabia que essa falta era de seu adorado filhinho, de apenas 6 anos, seu anjo e seu mundo, que estava passando uns dias na casa da avó paterna. A idéia de ficar sem seu tesouro não lhe agradava em nada, mas sabia que era necessário, tanto para ele quanto para a família de seu ex-marido, era um contato obrigatório, inclusive por lei. E antes que a lei autorizasse, ela concordou para não haver desgastes desnecessários.
Mas soube que o menino não estava passando muito bem de saúde, com uma gripe forte, e apesar de seu instinto querer voar de encontro a ele, sua razão lhe dizia que crianças adoecem, e a avó dele era experiente e competente o suficiente para que ela ficasse tranqüila.
Tentou ocupar seu tempo agora tão vazio com sua pintura, adorava pintar seus quadros. Mas antes de chegar ao estúdio, o telefone tocou. Imediatamente seu coração saltou descompassado dentro do peito.
Com uma voz magoada, mas consolada, a mãe do seu ex-marido lhe dava a lamentável notícia do falecimento de seu filhinho. O choque foi tamanho, que ela se sentiu anestesiada, como se estivesse num sonho... não podia ser verdade... mas a mulher do outro lado da linha relatava que durante a noite passada ele havia piorado muito, uma pneumonia forte, foi levado ao hospital mas não resistiu, apesar dos melhores cuidados recebidos... que isso fazia parte da vida, por menos que queiramos aceitar, e que ela deveria se conformar e ser forte nessa hora. E ela estava sendo esperada, o velório estava sendo realizado na própria moradia onde o menino havia passado seus últimos dias. E o telefone ficou mudo.
Ainda como uma sonâmbula, ela deixou-se sentar imóvel no sofá. Olhava a imensa sala vazia, que parecia ter escurecido desde que a luz de sua vida havia saído de lá, e imediatamente entendeu que essa seria a partir de agora a sua vida – vazia e escura.
Então era isso a vida? Apenas se acabava, e fim? E agora?
A única certeza que lhe veio, como uma bomba, foi a de querer ficar junto de seu filhinho, o que sempre sentiu desde que soube que ele existia dentro dela, antes mesmo dos exames comprovarem, antes mesmo de tê-lo visto nascer. Imediatamente trocou de roupas, fazendo uma pequena mala, e dirigiu-se ao seu carro. Não queria ainda chorar, nem se lamentar, queria apenas seu filho! Podia ser um trote, uma péssima brincadeira de mau-gosto, um tipo de punição talvez por, como eles sempre diziam, ela tentar afastar o menino deles... precisava urgentemente saber o que realmente estava acontecendo! A avó não estaria assim tão calma se fosse um fato, não era possível, sabia que aquela mulher amava o netinho!
Mas quando chegou na casa, bem mais humilde que a dela, foi caminhando pela sala de entrada, e deparou-se com um pequeno caixão branco, no chão, e algumas pessoas ao redor, num semi-círculo bem aberto, que como espectadores curiosos começaram a cochichar quando ela entrou, coisas como “É a mãe do menino”. Foi andando devagar em direção a ele, o peito parecendo congelado com tantas sensações desconhecidas, e viu que dentro do caixão estava seu menino... deitado, de olhos abertos, sem nenhuma flor para ornamentar seu corpinho, vestido com um pequeno terno preto...
Sua vontade era de gritar enlouquecida – no chão, sem flores, o que estava acontecendo? Era um pesadelo, estaria sonhando, ou teria ela enlouquecido?
Com as lágrimas rolando, começou a apressar os passos, queria pegar o menino em seu colo, tirá-lo dali urgentemente! Mas quando estava bem próxima, viu os brilhantes olhos verdes encontrarem com os dela, e a voz dele, de alguma maneira dentro de sua cabeça, dizia
“Calma, mamãe... eu estou bem...” e da mesma forma que ele, sem sequer entender como, ela lhe respondeu
“Como assim, meu filho? Você não está morto?” e ele
“Meu corpo sim, mas meu cérebro, não!”
“Mas meu querido, não lhe fizeram exames?”
“Na cabeça não, mamãe...”
“Então está tudo resolvido! Vou te levar agora de volta ao hospital, eles vão te salvar, meu amor!”
E tentando desesperadamente ajudá-lo, desconexa, dizia a todos que ele estava vivo, enquanto via os olhinhos dele esmaecendo... tinha que ser rápida! Mas antes que pudesse enfim pegar seu filhinho, algumas pessoas a seguraram com força, e ela sentiu uma injeção sendo aplicada em seu braço, enquanto ouvia vozes, inclusive a da avó do menino, dizendo que era natural o choque dela, e por mais que ela tentasse falar, ninguém a ouvia... a voz parecia presa em sua garganta, diante de tanto horror, as lágrimas a sufocavam...
Sentiu então um entorpecimento devido ao medicamento, unido ao seu estado de impotência, que não sabia como explicar o que estava acontecendo, e antes de desmaiar ouviu uma última frase:
“Vamos enterrá-lo antes que ela acorde, vai ser melhor...”



**********************************************************

Esse foi um pesadelo que eu tive, e tão nítido, que eu nunca consegui esquecer, mesmo anos após. Então surgiu um concurso, em que se pedia para se contar um conto de horror em três linhas. Senti-me desafiada a tentar, e pensar em que poderia escrever. Ele então me veio à mente, e o resultado foi esse, abaixo:

Quando se aproximou do caixão de seu filho de seis anos, viu que seus olhos a fitaram, e dentro de sua cabeça ouviu sua voz avisando que seu coração estava parado, mas seu cérebro não. Tentou ajudá-lo, mas sentiu a agulha de uma injeção, e antes de desmaiar ouviu: “Vamos enterrá-lo antes que ela acorde, vai ser melhor...”


Consegui! ... mas desisti de participar do concurso, porque o prêmio oferecido não me interessava. Será que eu ganharia? rsrs
Edilene Barroso
Enviado por Edilene Barroso em 02/10/2006
Código do texto: T254207

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Sobre a autora
Edilene Barroso
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
192 textos (21460 leituras)
12 áudios (4784 audições)
5 e-livros (337 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 08:11)
Edilene Barroso