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A Foliona Fantasma

     
     Entre as tradições populares de São Luís do Maranhão, que se acabaram com o tempo, estão os famosos bailes de máscaras. Mas, atenção: não era um baile de máscara comum. Olhem só: a entrada era paga, mas somente para os homens; vendiam-se cervejas, bebidas quentes e alguma comidinha típica, e a orquestra tocava sem parar até altas horas da madrugada; somente as mulheres usavam máscaras e estas cobriam todo o rosto. A maioria dessas mulheres eram prostitutas ou mulheres de livre vida sexual, e uniam o útil ao agradável: dançavam, bebiam, comiam e, de quebra, podiam levar um freguês ou um amante para casa; outras, entretanto, curtiam, além da diversão, a possibilidade de um relacionamento sério ou do simples prazer de uma noite de amor: eram as solitárias e as casadas mal resolvidas. Havia ainda as velhotas e as feiosas que, escondidas atrás das máscaras, poderiam desfrutar de uns momentos de rala-coxa com os homens. O anonimato que lhes protegia a identidade  durante todo o baile era, sem dúvida alguma, uma forte e excitante atração para essas mulheres.
      As regras, impostas pela tradição, não permitiam, em hipótese alguma, que uma mulher fosse obrigada a mostrar o seu rosto para o parceiro da noitada, preocupado sempre em não gastar a sua grana e o seu tempo com uma velhota ou uma baranga. A foliona mascarada só quebraria o seu anonimato por sua livre e espontânea vontade, o que para os homens tornava o baile uma verdadeira diversão de risco.
      Então, numa terça-feira do carnaval de 1955, Alcides, empedernido solteirão, após tomar umas e outras, passou a curtir os sambas e marchinhas carnavalescas, agarrado a uma mulher que se apresentava de fofão e máscara; dela, só divisava os verdes olhos e umas mãozinhas lindas, divinais. Alcides perturbou-se; aquela mulher, com certeza, não era nem velha nem feia!
      Numa pausa, entre as músicas, ela, de repente, perguntou a Alcides:
      - O senhor é motorista de praça?
      - Sim! Como sabias?
      - Não sabia, apenas quis saber, pois tenho atração especial por motoristas.
      - Que bom para mim! Como é o teu nome?
      - Lúcia Helena.
      - Podes me mostrar o teu rosto?
      - Por quê?
      - Sei que és bonita, mas quero ter certeza disso.
      - Hum, conversa fiada, queres é saber se não sou velha ou feia. Mas, olha! - e suspendeu a máscara até a testa.
      Alcides quase caiu durinho para trás! Mulher mais bonita do que aquela ele nunca tinha visto na sua vida! Que fazia uma deusa dessas num reles baile carnavalesco? Mas a mulher não respondeu a mais nenhuma pergunta de Alcides e nem levantou mais a máscara até o fim da festa quando então, ele perguntou:
      - Onde moras? Posso te levar em casa?
      - Moro na Rua do Passeio, podes me levar, sim.
      Entraram no carro de Alcides e em 10 minutos estavam em frente a uma pequena casa, tipo porta e janela. Desceram, ela puxou uma chave da bolsa e abriu a porta; depois acendeu a luz da sala e ele pôde observar que se tratava de uma casa com dois quartos, limpa e bem mobiliada. Na parede da sala, bem destacado, havia um quadro com a fotografia de uma jovem loura, linda como um anjo.
      - Quem é aquela ali?
      - Sou eu. Olha!
      E tirou a máscara e o fofão. Não havia mais nada por baixo! À frente de Alcides, estava uma moça loura, de uns 25 anos, lindíssima, corpo perfeito, completamente nua! Alcides não sabia se sonhava ou se delirava. Aquilo estava realmente acontecendo com ele? Lúcia Helena, sempre sorrindo, pegou-o pela mão e levou-o para o quarto. Na difusa iluminação, Alcides percebeu a linda colcha cor de rosa que cobria a cama e uma camisola de seda, também cor de rosa. Lúcia Helena deitou-se, abriu os braços e convidou:
      - Vem! Hoje tiveste sorte; nem velha nem baranga, apenas Lúcia Helena!
      Às 6 horas da manhã, ela o acordou:
      - Vai, minha irmã chega daqui a pouco, ela não vai gostar; somos duas mulheres recatadas.
      - Posso te ver amanhã?
      - Nem amanhã, nem nunca. Foi uma noite de terça-feira de carnaval, entendes? Somente uma noite de terça-feira de carnaval!...
      - Mas, eu...
      - Vai, por favor!
      Alcides vestiu-se às pressas, olhou mais uma vez para Lúcia Helena, toda linda na camisola cor de rosa, e saiu. Durante toda a semana pensou em Lúcia Helena. Estava loucamente apaixonado! Com certeza ela também tinha gostado dele, pois não sendo uma prostituta, ela o levara até a sua casa e dormira com ele. Dez dias depois, não aguentou mais o desejo de revê-la e foi bater à porta da casa da Rua do Passeio, onde vivera a mais inusitada, mais louca e deliciosa noite de amor de sua vida!
      Veio abrir uma senhora morena, de uns 35 anos, de aspecto severo:
      - Pois não?
      - Boa tarde, minha senhora, eu gostaria de falar com Lúcia Helena.
      A mulher tomou um susto e arregalou os olhos:
      - Com quem?
      - Com Lúcia Helena. Ela não mora aqui?
      - Quando viu Lúcia Helena pela última vez, meu senhor?
      - Há 10 dias, na terça-feira de carnaval, eu a trouxe aqui.
      - Impossível! O senhor está louco!
      - Como? Mas...
      - O meu nome é Luísa, e Lúcia Helena, minha irmã mais nova, está morta há cinco anos! Morreu numa terça-feira de carnaval, atropelada por um motorista bêbado.
      - Mas isso não é possível! Estive com ela aqui há 10 dias, dormi com ela!
      - O senhor está louco! O senhor esteve com aquela moça? – e apontou para o quadro na parede.
      - Exatamente! Com ela! Falamos sobre isso! Me dê licença, por favor.
      Correu ao quarto onde estivera com Lúcia. A porta estava aberta e ele entrou. Lá estavam: a mesma colcha cor de rosa e a mesma camisola de seda cor-de-rosa!
      A dona da casa falou, por trás de Alcides, já irritada:
      - Mas que audácia é essa? Como invade assim a minha casa?
      - Desculpe, mas foi aqui! Foi nesse quarto! Fiquei com ela neste quarto até as 6 horas da manhã! Faz apenas 10 dias!
      - Meu senhor, este realmente era o quarto da minha irmã. E repito que ela morreu há dois anos. Por favor, vá para a sala e aguarde um instante.
      Mal conseguindo se controlar, Alcides sentou-se na sala. A mulher veio com uma caixa cheia de papéis. Entregou a caixa a Alcides, informando com rispidez:
      - Aí está o atestado de óbito de Lúcia Helena, os recortes dos jornais com a notícia do seu acidente, inclusive com as suas fotos, o número da sua sepultura no Cemitério do Gavião. Leia e, por favor, vá embora, senão chamo a polícia!
      Alcides leu tudo, conferiu as fotografias. Era ela mesma...
      Saiu arrastando os pés, como um acorrentado, um morto-vivo. Sentia-se febril e a cabeça em fogo. Então, era possível? Ele dormira com uma morta? O cemitério ficava bem perto e ele seguiu para lá. Sem nenhuma dificuldade, localizou a sepultura de Lúcia Helena, com a sua foto e o epitáfio: “Lúcia Helena. 17-01-1925 – 21-02-1950. Tão pouco tempo de vida, tão grande a saudade deixada.”
      Alcides deu um berro e saiu gritando: - Eu fiz amor com uma morta! Eu fiz amor com uma morta! - e só parou de gritar quando lhe meteram numa camisa de força.

      Assim que Alcides saiu, Lúcia Regina, irmã gêmea da falecida Lúcia Helena,  surgiu, cautelosa, na sala. Suspirou alegremente e falou em tom baixo para Luísa:
     - Esse é o quinto  idiota que vai pirar da cabeça por ter transado com uma "morta". Mas esse até que era bom de cama, hahaha!
Antonio Maria S Cabral
Enviado por Antonio Maria S Cabral em 26/10/2006
Reeditado em 05/03/2011
Código do texto: T274375
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Sobre o autor
Antonio Maria S Cabral
São Luís - Maranhão - Brasil
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