Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O roubo do isqueiro

     - Roubaram o meu isqueiro de ouro!
     Com essa exclamação, começaria outra desventura de Cremilço José, o Bebum.
     O tio de Ricardo era um homem de muitas posses: gado de corte e leiteiro; soja; milho. Ainda que não aparecesse com freqüência no Rio de Janeiro, quando podia estar presente, patrocinava festas maravilhosas.
     O grande dilema de quem já possui muito dinheiro é ter como, por quê e com quem gastar, afinal, “o que falta?”.
     - Uma casa no alto do morro! Um morro só meu, sem favela em volta. É isso...
     E assim fez o tio rico de Ricardo. Comprou uma casa, ou melhor, um morro e mandou construir a casa mais bonita da cidade. Excentricidades à parte, a mansão era descomunal: três salas, dez quartos – sendo sete suítes de casal – três banheiros sociais, lavabo, copa, cozinha, lavanderia... Era um palácio!
     Para a inauguração, foram convidados parentes e amigos – alguns influentes, como convém a um homem de interesses vários.
Ricardo decidiu convidar Joãozinho e Carlinhos, companheiros inseparáveis de juventude. Cremilço, um penetra de carteirinha, ao descobrir a festa, “convidou-se” também.
     A casa era finamente decorada: só as torneiras dos lavabos, banhadas a ouro, eram mais caras que os carros de alguns dos convidados. Também se destacava a quantidade de seguranças envolvida no evento.
     Cremilço, que até aquele momento, comportara-se bem, resolve ir embora.
     - ...mas você ainda não bebeu nada!
     - Hoje eu não estou a fim...
     - É cedo, fica mais! – ainda ponderou Joãozinho.
     Não teve jeito. Bebum decidiu e foi.
     Não haviam se passado cinco minutos, quando aparece um dos seguranças, acompanhando o ilustríssimo fujão. Alvoroço geral!
     O Desembargador dera falta de seu isqueiro de ouro maciço e acionara o alarme.
     Bebum fora barrado na guarita da entrada e, para surpresa de seus amigos, o objeto do furto estava com ele.
     - Alcoólatra ainda vai, mas ladrão é demais. – gritava um irado Ricardo.
     O tio decidiu registrar queixa na delegacia do bairro e todos os envolvidos, direta ou indiretamente, acompanharam-no.
     - ...mas eu não roubei... Eu, eu achei!
     - Senhor...
     - Cremilço José de Oliveira...
     - Se o senhor achou, por que não procurou saber a quem pertencia?
     - Delegado, achado não é roubado. Eu tava indo embora e achei o isqueiro no chão, aí eu peguei e levei...
     Afastando o tio do meio da confusão, Ricardo convenceu-o a aceitar o pedido de desculpas de Bebum.
     Embora relutante, acreditava que seu sobrinho deveria ter melhores companhias, o Desembargador reconsiderando e retirou a acusação.
     - Bebum, eu vou te dar o número do telefone de um psicólogo, amigo da minha mãe, pra você ligar e marcar uma consulta. – decidiu Carlinhos pelo amigo.
     - Eu não tô maluco...
     - Amigo, a birita vai te matar. – sentenciou o estupefato Joãozinho. Ricardo, vai ver ele achou mesmo...
     - É, amigo, o seu tio está velho e...
     - Pode ser, mas pelo menos ao médico ele tem que ir!
     - Concordo.
     - Eu também.
     - Alguém tem uma caneta...
     (...)
     - Eu, – diz Cremilço – eu tenho essa caneta dourada que eu achei na delegacia...
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 27/06/2005
Código do texto: T28309

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor e o link para o site www.neldemoraes.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
407 textos (351717 leituras)
2 e-livros (297 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 11:46)
Nel de Moraes