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FOI O BOTO SIM SENHOR!



Nas proximidades do Jaracuru, do lado amapaense, havia uma comunidade constituída de pescadores e agricultores que subsistiam da floresta e do rio Jarí, onde a pesca e a caça eram abundantes, além da coleta da castanha do Brasil, mesmo porque em épocas remotas o solo amazônico nunca foi propício para a agricultura, porém plantava-se mandioca, milho e algumas espécies frutíferas. Advindas das inúmeras ilhas vizinhas do Estado do Pará, estas pessoas estabeleceram-se as margens do Jarí a muitas horas do Beiradão (atual Laranjal do Jarí-AP) e Monte dourado-PA.
Morava acerca de uns 300 metros da vila principal um pescador e sua esposa com a idade de 25 e 19 anos respectivamente. A moça era muito admirada por sua beleza puramente amazônica, morena, cabelos negros e lisos, lábios de Iracema além de olhos de um verde exuberante, dádiva da floresta. Estava casada há quatro meses com o pescador e resolveram morar afastados devido o ciúme, não do pescador, mas das mulheres da vila, pois a beleza da moça era de perturbar qualquer tino masculino e isso era notório desde seus doze anos de idade.
A rotina de trabalho do pescador era religiosamente cumprida todos os dias de segunda a sábado, pois o domingo é sagrado no interior da Amazônia (para o descanso). Às quatro horas da madrugada os dois se levantavam, ela preparava o café e a refeição que ele faria no interior dos igarapés, ele arrumava suas tralhas, redes, tarrafa, terçado, zagaia, anzóis, bóias e linhas e, ainda o famoso porronca. Como defesa tinha uma faca tipo peixeira e uma espingarda cartucheira calibre 16. Seu retorno se dava entre 12 e 14 horas, e no decorrer da tarde era feito o condicionamento do pescado e a venda do mesmo na vila, sendo que, sua permanência em casa era a partir das 17 horas onde, entre um remendo nas redes e afagos na mulher, o resto da tarde era consumido.
À noite, após a janta, o casal faziam as ultimas tarefas do dia, verificação nas tralhas de pesca da parte dele e remendos e costuras nas roupas por parte dela. Tudo isso embalado por um radio e a luz de um lampião a gás, presentes de casamento recebidos dos respectivos sogros. Tais tarefas se encerravam as 21:30 quando o casal se recolhia aos aposentos de onde, às quatro horas da madrugada o ciclo recomeçava.
Quando em meados do quinto mês de casamento, certo dia a moça passou a perder o viço da juventude, começou com falta de apetite seguida de uma melancolia profunda, a mesma passava o dia deitada em uma rede sem animo qualquer para sair dali. Passou a ser acometida de uma palidez sem precedentes e uma sonolência que não tinha fim. A cada dia agravavam-se cada vez mais tais sintomas.
A benzedeira da vila, com suas ervas e orações, não conseguiu reverter à situação de definhamento da moça. Duas outras benzedeiras da região, buscadas a dias de canoas, não conseguiram lograr êxito. Em um período de 16 dias, se tentou de tudo, banhos, defumações, chás, passes, orações, etc. finalmente, o pescador partiu para Monte Dourado, no hospital em todos os exames nada se atestou. Agora, para o pescador, só Deus poderia salvar sua esposa.
De volta a vila, já no vigésimo quinto dia, aportou na vila um barco-geleira que provinha de Almeirim - PA, trazendo a bordo um caboclo, uma espécie de curandeiro, benzedor e adivinho, muito respeitado no interior paraense. Pararam ali por motivos mecânicos e passariam pelo menos uns dois dias para resolvê-los. Assim que se soube da presença desse caboclo, familiares e amigos do casal foram convidar o mesmo para uma visita a moça, nesta altura, já entrevada numa cama.
Ao notar o estado em que se encontrava o caboclo pediu que todos se retirassem e em seguida pôs-lhe a mão na testa da moça e começo uma longa oração, ao termino, chamou o pescador e os demais homens da família ali presentes e falou: “depois de amanhã, você perderá sua esposa!”. A noticia, apesar de já ser esperada, foi angustiante para o pescador. Porém, antes que alguém perguntasse alguma coisa ele voltou a falar: “mas vocês ainda podem salvá-la” e continuou, “o que aflige a sua esposa é um boto, e depois de amanha, no primeiro momento que ela ficar sozinha ele a levará para o fundo do rio”. Eram oito horas da noite, quando foi dado tal diagnostico a respeito do tinha acometido a mulher do pescador. Todos os passos do pescador, no que diz respeito a sua ausência da residência e conseqüentemente a estada da moça sozinha na casa, foi passado para o caboclo.
A par dos dados necessários, o caboclo arquitetou o plano que acabaria com a agonia que se instalara, não só na casa do pescador, mas também na vila e no Jaracuru. Foi dito que a rotina seria mantida, pois o boto já a conhecia e não sabia que suas visitas à moça já tinham sido descobertas. Foi acertado que às três horas da madrugada, uma equipe de 10 homens, contando com o caboclo se reuniriam na capela de São Benedito e de lá partiriam para prepara a armadilha para capturar o boto. Foi conseguido seis cartucheiras, além de arpões de caçar pirarucu, para o abate do boto. Os cartuchos a serem utilizados foram benzidos pelo caboclo e vedados com será benta. Os arpões também tiveram o mesmo processo ritualístico.
As quatro da madrugada o pescador desceu a canoa no rio, ajeitou as tralhas, colocou a espingarda, na popa da canoa, sentou no banco e remou forte em direção aos igarapés que costumava a pescar e caçar. O Boto assistia a tudo de longe, a ansiedade dele chegava a ser notória, pela primeira vez o pescador viu o vulto do Boto ao longe, além do assovio peculiar que saia do respiradouro do boto a cada vez que o mesmo emergia da água e retornava a mergulhar.
O grupo que ficara em terra já estava a postos, rodeados ao redor da casa atrás de arvores, moitas e troncos caídos a margem do rio. A ordem era esperar o boto entrar na casa e só atacá-lo depois que ele saísse.
A casa era toda em madeira coberta com cavacos e tinha aproximadamente 52 m², dividia-se em três compartimentos: sala, quarto do casal e cozinha, sendo esta totalmente aberta por causa do fogão à lenha. Havia um pátio sem cobertura. Não havia portas na residência, apenas cortinas de plásticos em tiras. Havia uma janela no quarto três na sala. A residência distava a uns oito metros da margem do rio e ocupava uma área aberta de aproximadamente 1200 m², limitada por trás por um roçado de mandioca e milho e nos dois lados pela floresta e à frente, o rio. O assoalho da casa ficava a um metro e meio do chão, o que facilitava a visão de um lado para o outro.
Os homens ficaram escondidos nos lados, dentro da floresta dista a uns doze metros da casa, atrás não ficou ninguém, pois, segundo o caboclo, ao ser abordado o Boto procuraria desesperadamente o rio para se salvar.
Ao entrar no primeiro igarapé, o pescador aportou a canoa à margem, lançou-a a terra e correu por entre as picadas na mata em direção a sua casa para juntar-se aos outros, ninguém mais que ele queria acertar as contas com aquele Boto.
O que até então era lenda, surgiu das águas do rio, diante de olhares atônitos dos homens em campana, um homem de porte médio, forte totalmente nu. Trazia uma bolsa da qual retirou roupas, todas brancas, calça e camisa e um chapéu. Vestiu-as e, da margem, pegou uma espécie de bengala, olhou ao redor e se dirigiu à casa do pescador.
Ao subir o pátio, escorou a bengala a parede tirou o chapéu e colocou-o sobre um cepo de madeira e adentrou a residência. Desde de o momento de sua aparição, a moça no interior da casa começou a gemer de uma forma angustiante, parecia que ela queria levantar, lutar, procurando fugir de algo que a dominaria em instante. Os homens ouviam perfeitamente esses gemidos que cessaram após a entrada do boto na casa.
A muito custo, o sogro e cunhados, conseguiram conter o pescador que pensou em investir imediatamente rumo a residência, porém o caboclo disse que se ele fizesse isso, sua mulher morreria de imediato, pois a mesma estava sobre o encantamento do Boto e, se ele fosse morto antes de quebrar esse encantamento era isso que aconteceria com ela. O pescador angustiantemente conseguiu se segurar e voltou a seu posto de tocaia.
Antes do raiar do Sol, lá pelas cinco e meia da madrugada o Boto saiu da residência. Colocou o chapéu na cabeça pegou uma espécie de galho curto e colocou na boca como se estivesse fumando um cigarro,  pegou a bengala e desceu a escada de costa para o rio, no meio da mesma, recebeu o primeiro disparo de uma doze no meio da costa.
Como o caboclo havia dito, um tiro não o mataria de imediato. O Boto levantou-se cambaleante e começou a andar na direção do rio. Desta vez os tiros vieram simultaneamente atingindo o Boto em varias partes do corpo, logo os arpões o atingiram transpassando-lhe de um lado para o outro, mesmo assim, ele, já na forma de boto, rolava em direção ao rio deixando para trás um nacos de carne, sangue e homens furiosos que repetidamente lhe terçadavam o corpo e gritavam frenéticos, irados e possessos por vingança.
Tudo isso ocorreu em uma pequena fração de tempo, não chegou nem a três minutos de luta. O Boto conseguiu rolar até a margem e caiu para dentro do rio, desaparecendo na escuridão do mesmo. Alguns homens adentraram em canoas e foram numa espécie de patrulha nas redondezas para tentar capturar e matar o Boto de vez.
Um componente do grupo foi pegar o chapéu e a bengala do Boto e, para sua surpresa, assim que botou a mão na bengala, ela se transformou num Sarapó, um peixe comprido e fino da cor do barro, o chapéu era uma arraia enorme e o graveto que o Boto tinha na boca, era um tralhoto, peixe que vive a margem dos rios com os olhos fora d’água. Tais elementos também sucumbiram ante ao terçado e foram para em uma fogueira junto com as roupas, que alias, eram de um tergal muito bom e caro na região.
O pescador e o caboclo correram para a casa. Deitada na cama, a moça parecia estar num sono profundo, como se nada tivesse acontecido. O caboclo fez algumas orações e receitou varias ervas para chás, depois falou ao pescador que sua esposa, a partir daquele dia, iria se restabelecer gradativamente e recuperaria sua saúde de novo. Quanto ao Boto, garantiu ele, que pela manha seria encontrado já morto. E aconselhou o pescador arrumar uma cadela para vigiar a casa e se sua ausência fosse por um período superior a dois dias, a moça teria que ficar na vila, na casa dos pais, só para prevenção, pois, depois do ocorrido ali, outros botos não tentariam a mesma façanha.
À tardinha, depois de todo o alvoroço que o caso provocou na vila, apareceu na beira do rio o corpo do boto, todo dilacerado. Foi puxado a terra e a maior parte dele, banha, olhos, genitália e outros órgão, não se consumiram no fogo, foram para em porções mágicas, milongas e remédios para os mais variados males do corpo.
Quando este relato chegou a mim, por intermédio de um amigo da região, o casal protagonista já tinham um filho com mais ou menos oito anos de idade. Na casa deste meu amigo, conheci a moça, entre o medo e a admiração, realmente ela era linda, preferi ficar ao longe da mesma. Espero que entendam minha atitude, pois ela é a atitude de um garoto da cidade, recém chegado ao interior com seus onze anos de idade. Este relato tem, a data de hoje, 27 anos. Existem outros relatos sobre o Boto que seduz as mulheres na beira dos rios, muito mais antigo que este, contudo, se é lenda ou não, vou declinar desta decisão, pois sou 100% amazônida com 50% de sangue dos Parintintins e outros 50% de sangue dos Tapajós, nascido em Macapá, tornei-me um grande guerreiro, ou seja sou o Ultimo dos Tucujus. Fui contemporâneo ao caso, mas não o presenciei. Estive ante a um dos protagonista e senti que havia veracidade no que me relataram. Hoje este casal reside no Laranjal do Jarí, fui a este município em 2002, encontrei meu amigo de infância, mas não houve tempo hábil para visitar sua família. O casal em questão é vizinho do mesmo.

Obs: ainda lembro os nomes dos dois, inclusive do menino, mas prefiro omitir isso. Casos como esse, nos dias de hoje, é prato cheio para a imprensa sensacionalista. É melhor ficarmos com a lenda.
KAIKUXI
Enviado por KAIKUXI em 27/06/2005
Código do texto: T28484
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