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Din Don? ( Ou A visita da Angústia - Parte1)

    Corri para atender a porta. Ainda estava de toalha. Ninguém em casa, e meus gatos dormindo. Normal.

    - Oi. Você demorou, mulher... - Disse eu, ao recebê-la.

    - Oi, menina! Desculpa, tava tão ocupada, cê nem sabe. - Sei. Sei, sim. Só não ia ficar explicando como.

    Ela entrou, olhou a casa, viu meu gato. Droga.

    - Esse é novo?

    - Mais ou menos. Fez um ano agora.

    - Que dia? - Respondi e desconversei. Detesto quando perguntam dos meus gatos. Meio ciúmes, meio incoveniência, mesmo.

    - Senta aí, pô. Fica à vontade. Quer beber o quê? (Ela sempre bebe.)

    - Ainda tem daquele conhaque do seu pai?

    - Que... Nem tem. Outro dia a Solidão esteve aqui e tomamos juntas. Não ficou nem uma gota pra contar... Sabe como ela gosta de conhaque, né?

    - Sei... Aquela ali é uma manguaça! Tem o que aí então?

    - Rapaz tem um vinho barato, tem água, álcool de farmácia, umas cachacinhas e... Ah, tem licor de cassis, serve? Com bem gelo, Gú, porque eu ainda tou de ressaca.

    - Li-cor? De cas-sis? Com gelo? Cruzes, Fernanda... Eu venho aqui te ver e você me oferece isso?!

    - A gente faz o que pode... Ah, tem meu sangue, também. Tá servida?

    - Não, obrigado. Já enjoei desse seu sangue de barata. E pra comer, tem o que?

    - Nada. Tou ficando anoréxica de novo.  Mas deve ter pão de queijo na geladeira. Espera.

    Enquanto eu ia ligar o forno, ela foi falando. Adoro conversar na cozinha.

    - E Desejo? Tem te visitado?

    - Oxe, claro. E aquilo ali me deixa? Ali me ama, rapaz. - E ela riu-se doce, se não, sarcasticamente. - Ele vem sempre aqui.

    - E ele te trouxe o que de presente, que mal lhe pergunte?

    - O mesmo de sempre, encomendas de Dionísio.

    -  E como é este dessa vez?

    - Ah, esse é legal.

    - Legal, é? Diz aí... Os cabelos?

    - Compridos, não muito, mas caídos na altura dos olhos.

    - Deixa eu adivinhar... "Olhar oblíquo", acertei?

    - Claramente que sim.

    - É alto? Muito ou pouco?

    - Muito. É sério, também. E é canhoto.

    -  A barba é fechada ou de cavanhaque?

    - Cavanhaque é coisa do passado. Deixa essa história pra lá, e nada de piadinhas com alianças, tá? - Eu disse, quase secamente, tentando evitar um assunto que ela bem acompanhou.

    - Tá... Mas a barba é fechada ou não?

    - Não, mas existe a possibilidade. Agora só falta raspar a cabeça.

    - Credo, maluca! Você e suas taras...

    Ela riu de canto, como sempre. Foi tirando o gelo e pegando o licor sem muita reclamação, enquanto eu fechava o forno. Os pãezinhos, obssessivamente arrumados na bandeja rolaram um pouco para os lados, e eu teria de recomeçar a arrumação. Resolvi deixar pra lá o fato de eles serem assados de uma maneira assimétrica.

    - Tá bonita, sua casa. Tudo branco, adorei. Foi você?

    - Mais ou menos. Tem tempo que você veio aqui, né? Era tudo diferente.

    - É... você não queria mais que eu viesse... (ai, que drama!) Então eu não vinha.

    - Eita, Gú... Deixa disso, vai. Liga o som, tem Zeca Baleiro pra gente ouvir. Ah, tem Pedro Pondé, também.

    - Não, Pondé, não, deu-zé-mais.  Botar o Baleiro, mesmo. Brigitte Bardot? - É, podia ser. Podia ser qualquer coisa. Podia até ser o Silêncio, mas ele me ligou e disse que ia ter um compromisso.

    - Ô, Angústia, me diz uma coisa?

    - Digo, Nanda, claro. - Ela gritou da sala.

    - Por quê você resolveu aparecer agora? Levei um susto quando você me ligou. Pensei que tivesse até mudado o celular.

    - Resolvi aparecer... Temos nossas conta a acertar, certo? Também vim te contar umas coisas, mas acho até que você já sabe. Tudo fofoca velha. Uma história... É meio chata, vou logo avisando.
   
    - Relaxa, Gú. "Já tá no inferno, abraça o capeta", né não?

    E ri-me. Ri-me como de uma queda. Fomos para a sala, colocar as fofocas em dia. Programei o timer pros pãezinhos que eu não ia comer. Na minha mão, a taça girando, o licor de cassis bailava com o muito gelo de que fiz questão.  "Outra ressaca", pensei. Depois da visita de Solidão, Angústia vinha me visitar. Fazer o que? Amigo é pra essas coisas, e se ela queria desabafar...
Fernanda Gadêlha
Enviado por Fernanda Gadêlha em 12/11/2006
Reeditado em 11/02/2007
Código do texto: T289568
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Sobre a autora
Fernanda Gadêlha
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
19 textos (652 leituras)
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Fernanda Gadêlha